Brasil dá aula de paz na convivência
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Dona Palestina é uma senhora muito distinta, amiga da minha mãe, que mora do outro lado da rua. Israel é um jornalista amigo meu, grande figura humana, grande profissional. Fico sempre pensando num encontro entre Israel e dona Palestina, o que só seria possível aqui no Brasil. Bate-papo cordial, amistoso, sem arestas, sem rancores. Só entre os brasileiros poderíamos encontrar, na mesma mesa, a Líbia, também profissional séria e competente, a dona Argentina, amiga da minha tia, o França, em cuja loja, na rua do Ouro, sempre comprávamos material elétrico, e o Irã, seja com i ou com agá, com til, eme ou ene no final. Tem o Hiram Firmino, o Hiram meu primo, todos homófonos do país do Oriente Médio sempre em pé de guerra. Iraque não conheço nenhum.

Gente com nome de país é muito comum no Brasil. Apelido ainda mais. Meu primo China nada tem de chinês, a não ser a numerosa população da sua casa – ele, mulher e cinco adoráveis crianças. Japão é um ex-jornalista que abriu o melhor boteco de Diamantina. Portugal foi vereador e leiloeiro. Tinha uma dona Itália, vizinha do João, que também morava na Serra. Luxemburgo entrou para a história como um bom técnico que caiu na lama da corrupção e sumiu do mapa. E Brasil os temos muitos por aqui, inclusive Borges, antigo cronista do ESTADO DE MINAS.

Aí entram no rol os nomes e apelidos de estados. A começar pela dona Minas, de quem encomendávamos deliciosos docinhos para as festas de aniversário lá em casa, e que morava na avenida do Contorno. Paraíba tinha dois no tempo da faculdade. Piauí só um, amigão, apesar das desavenças políticas que nunca nos afastaram. Maranhão é um cara tão famoso em Belo Horizonte que tem até uma festa anual. Ceará é repórter de esporte, Bahia também, Pernambuco assessor de imprensa. Amazonas foi um dos maiores líderes da esquerda brasileira... Ufa!

Essa conversa mole toda é para mostrar como o brasileiro, até na hora de batizar seus filhos, procura horizontes, pluraridade, convívio desestressado entre diferentes. Para tentar evitar essa insuportável guerra que se avizinha no Oriente Médio, que vem fazendo vítimas fatais diariamente e mancha as vãs tentativas de paz envidadas por governantes de toda parte, bem que poderiam ser convocados diplomatas brasileiros. Desses crescidos em cidades como Belo Horizonte e São Paulo, onde as colônias italianas, árabes, libanesas, de judeus, turcos ou japoneses aprendem a compartilhar um país, uma nação e uma esperança, mesmo que – ou talvez porque – preservem sua cultura de origem. Aqui o mosaico que se desenha para formar o que chamamos povo brasileiro alcança sucessos impensáveis em outras democracias, ainda que com seus problemas e limitações – ninguém é perfeito.

Pensando assim, em como brasileiro é bicho de olho azul ou preto, pele morena, vermelha, amarela ou branquinha, cabelo liso ou encaracolado, espetado para cima ou crespo, "redondo", como diz meu sobrinho, de lábios finos ou beiços largos, baixinho e mulato como o Popó ou vara-pau e careca como Tande, alemãozinho como Guga ou rastafári como Toni Garrido, é que dá alegria de ser brasileiro. Gente bonita, amiga, solidária, um laboratório em que o planeta deveria se mirar se tivesse a intenção de construir um futuro de harmonia entre diferentes. Como meus amigos Israel e dona Palestina.

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(Crônica publicada originalmente no Estado de Minas, em 7 de janeiro de 2001, e depois incluída no livro "Para ler o mundo - Português 8ª série")

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Para ler o mundo - Português 8ª série
Organização de Antônio Barreto e outros
Editora Formato, 2002

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