Coração Menino
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Prefácio
Os Maias (sem Eça)
Ziraldo
Quando eu era muito menino andava pela rua sonhando.
(Atenção, é diferente de: andar sonhando
pela rua.) É claro que não me lembro de
tudo que me aconteceu naquele tempo, exceto as coisas
que me aconteciam enquanto eu estava a sonhar. Por exemplo:
uma noite, devia ser domingo, era a hora do footing, vi,
em frente a uma vitrina iluminada, o grupo de pessoas
que mais me encantava na cidade. Eram todos de uma mesma
família, faziam teatro, as moças cantavam
meu limão, meu limoeiro em coro, com segunda voz
e contraponto, os homens compravam revistas e jornais
com o Zé Biscoito, jornaleiro, e eram todos branquinhos,
bem penteados, bem vestidos e muito, muito alegres. Naquele
começo de noite, estavam mais alegres ainda, riam
muito, faziam comentários inteligentes sobre as
coisas, suas sombras se derramavam na calçada,
projetadas pela luz da Nobreza, a loja das vitrinas. De
repente apareceu na avenida, vindo não sei de onde,
o namorado de uma das moças, o forasteiro, o moço
da cidade grande. Sua chegada foi uma glória! O
grupo se agitou mais e logo, logo, em plena rua, todos
se deram as mãos, fecharam um círculo em
volta do recém-chegado e começaram uma cantiga
de roda, o moço bonito no meio. Embora jovens,
eram todos adultos para mim. Aquela cena me pareceu o
símbolo máximo da felicidade e sonhei que,
um dia, coisa assim aconteceria comigo, eu iria voltar
à minha cidadezinha, ou chegar em qualquer lugar,
e minha chegada seria saudada com uma dança de
roda, as pessoas iriam cantar para me receber, quis crescer
só para isto. Eu estava sonhando.
Não, não era o Maia o moço bonito
desta história. Era outro. O Maia, aliás,
nunca foi dos moços mais bonitos que minha infância
conheceu. Bonita era – e ainda é –
a moça que se casou com ele e era a que se casou
com o forasteiro.
Conto esta história – que tem quase sessenta
anos – para dar a dimensão do que o Maia
significa para mim: ele é matéria de meus
sonhos.
Maia era uma espécie de líder do grupo
dos branquinhos que me encantava, o grupo a que eu queria
pertencer. Ele era – e ainda é – um
homem inteligente, sagaz, cheio de vida, um ser com luz
própria, dessa raça que ilumina os lugares
onde chega. Sempre achou o ato de viver uma alegria enorme
e tem vivido com uma extraordinária generosidade,
outra qualidade que o completa: um Homem.
Era um animador de festas, um surpreendente comediante,
sempre escreveu com grande facilidade e desenvoltura,
sabia liderar os amigos, tomar decisões, dirimir
dúvidas, participar. E soube criar, com sua fé
e seu respeito às escolhas de cada um, uma quantidade
enorme de filhos e filhas, gente tão boa quanto
eles. Eles: o Maia mais a Nini, companheirona.
Tem sido uma dádiva para mim poder estar acompanhando
estes dois há tantas décadas.
Agora me cabe, como recompensa, ser escolhido para fazer
o prefácio de seu livro.
Mais do que ser um bom poeta – o que não
está em discussão – o Maia tem a alma
de poeta. Verseja – meu Deus, que verbo horrível!
– com uma facilidade de mestre e teve sempre a dignidade
de reconhecer seus limites. O que está revelado
na fantástica e criativa ironia que percorre toda
esta sua produção. Às vezes consegue
momentos de altíssimo acabamento poético
e, quando o leitor acredita que Maia vai fechar seu poema
com o verso adequado, a chave de ouro, ele tem a coragem
e a dignidade de – digamos – escorregar de
propósito, apenas para conseguir a exata gargalhada
que almeja a sua alma de clown.
Descobri, Maia! É isto que você é
e sempre foi: um clown admirável.
Você, Maia, é um clown genial, perfeito,
lindo!
E faço esta descoberta, Maia, comovido, comovido
mesmo! Eu te amo.
Eu te amo por uma infinidade de razões, cara,
mas principalmente pela mais difícil que um homem
pode juntar à sua natureza: o conhecimento da sua
própria fragilidade, da sua pequenez diante da
hipótese da existência deste Deus que você
ainda crê Nele e que já me escapou pelos
dedos.
Eu podia dizer isto com mais simplicidade. Era só
repetir-lhe, Maia, uma fala do Woody Allen que ele, certamente,
repetiu por ter ouvido de alguém, ela não
é muito original. Allen disse, resumindo tudo o
que estou tentando resumir nesta conversa com você:
“Não levo muito a sério quem se leva
muito a sério.”
Tão simples! Era só isto que queria te dizer
depois de ter acompanhado, até aqui, quase toda
a sua vida e depois de ler o livro que a Clara me mandou
por e-mail: “Maia, como eu te levo a sério”.