Entre nesta festa
Um dos recursos que tínhamos para arrecadar dinheiro,
mobilizar e denunciar, eram as festas sob qualquer pretexto.
Festa no DA, festa no DCE, festa disto e daquilo. No fim
de março de 1979 fizemos na Fafich uma das melhores
daqueles tempos, que entrou para a história. Foi
o Début da Ditadura, em protesto contra os 15 anos
do golpe militar. Estávamos na direção
do DA desde o ano anterior e tínhamos muita manha
para organizar uma festança. Nesta, realizada nas
quadras atrás do Coleginho, na rua Carangola, onde
hoje funciona o Teatro Universitário (TU), minha
irmã Glória se vestiu de Ditadura, com roupa
de debutante e tudo. Foi montado dentro do pátio
do Coleginho um túnel, espécie de trem-fantasma
– só que parado, quem se movia era o visitante,
que testemunhava alguns dos horrores do regime. No pátio,
música boa de som mecânico (ainda não
havia esta enxurrada de bandas que tocam ao vivo em toda
parte), toda a área decorada, muita barraquinha
vendendo cerveja, pipoca, churrasquinho, caldos de feijão
e mandioca (especialidade do movimento estudantil que
prevalece até hoje nas festas da esquerda). Cobrávamos
ingresso na porta e eu fui porteira muitas horas, de modo
que perdi boa parte da animação. O tal trem-fantasma,
mesmo, não cheguei a ver, portanto posso estar
enganada quanto às “emoções”
que ele oferecia. Mas era bom ficar ali na portaria porque
sempre fui implacável com quem tenta penetrar em
festa e comigo a arrecadação era garantida.
Todos os anos, fazíamos portentosas festas juninas,
com as quais também arrecadávamos bom dinheiro
para a entidade. Dinheiro que servia para compra de papel,
equipamento, organizar viagens a encontros nacionais etc.
Uma vez desviamos um tanto – não muito, nada
que chamasse atenção – para ajudar
no tratamento de um companheiro clandestino, que tinha
problemas cardíacos graves. Era uma versão
reduzida de “expropriação revolucionária”,
com os propósitos mais nobres, nada de que me arrependa
nem nos meus mais fervorosos atos de contrição
ética.
Nessas festas, dançávamos muito, fosse
quadrilha, rock, forró, que ouvíamos com
devoção (principalmente Luiz Gonzaga) ou
o ritmo que embalava a juventude mais alienada da época,
a discoteque. Malhávamos os filmes de John Travolta,
pura alienação (“Os Embalos de Sábado
à Noite” e “Grease – Nos Tempos
da Brilhantina”), mas nas pistas abríamos
nossas asas e soltávamos nossas feras. Na TV pontificava
a novela “Dancin` Days”, com Sônia Braga
e Antônio Fagundes num tórrido romance e,
não sei como, eu acompanhava esta e outras novelas
com o mesmo interesse de quando eu não estava tão
ocupada salvando o mundo. Tinha gente, como o Marcelo
Pertence, hoje sério advogado trabalhista, que
sabia todos os passos da coreografia de discoteque e praticava
conosco na maior desenvoltura. A gente ganhava mal mas
se divertia a valer.
Nas horas vagas, entre uma passada e outra em sala (nos
dois sentidos, assistir uma aulinha de leve e passar em
sala convocando os alunos para alguma coisa), ficávamos
bundando no murinho da Fafich. No frio, era o lugar perfeito
para quentar sol. No calor, chegávamos mais para
a sombra daquelas árvores ou para o bar do Gordo,
no prédio ao lado do DA, e ali ficávamos,
ora jogando truco, ora jogando conversa fora, ora planejando
teatros e outras revoluções. Chegou a haver
campeonatos de truco, não só nas escolas,
entidades estudantis e botecos, como nas casas da gente,
nos fins de semana, e em sítios, acampamentos etc.
O murinho era a janela, a passarela, o ponto de encontro,
o princípio de muita coisa. O lugar de passar,
de ver, de ficar, de não ficar. Elevava e destruía
reputações.
Dentro do DA, a atividade consistia nesse misto de festa
e luta. Muitas vezes o pessoal ficava de conversa em volta,
enquanto outros trabalhavam em alguma atividade mais prática
– quem só fazia isto era “tarefeiro”,
mas vital para o movimento. Cortar papel, distribuir panfleto,
pintar faixas, montar jornal. Pintar faixas tinha um sabor
de “arte” de criança. Eram aqueles
rolos enormes de papel de embrulho de padaria, ou então
de morim, tecido adequado a este fim. Grandes latas de
tinta era diluídas para render, grossos pincéis,
e mão na massa. Quem tinha letra bonita nem sempre
acertava no português, era preciso ficar de olho
para não saírem nas faixas as mesmas pérolas
pronunciadas pela turma. Confesso que tenho saudades deste
ofício – como tenho saudades de tantos ofícios
chatos, cansativos, mas que faziam nossos músculos
e veias pulsarem pela revolução. Como tenho
saudades daquele friozinho que enregelava meus ossos nas
manhãs que me viam panfletar a entrada dos estudantes,
ou daquele frião das noites em reunião no
DA, o coração apaixonado esperando a hora
de ir embora e dar um beijo de despedida no meu amor.