O futebol do futuro
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Outra noite, em sonhos, tive a oportunidade de ler os jornais de daqui a algum tempo – estranho, não? Não. A gente em sonhos não vê e lê o passado? Por que não um jornal que ainda não foi escrito? Pois estava lá, na manchete principal: “Nike perde o penta para a Addidas”. Assustada, procurei o caderno de esportes. Tudo confirmado. A página, patrocinada pela LeCoq Sportiff, confirmava que o Nike Esporte Clube, que passara tão bem pela Fiorucci do Brasil, trombara na final com seu arqui-rival.

Desconfiei do resultado, de tudo. Procurei o noticiário dos clubes que conhecia, pelos quais sempre torcera: onde o Galo, onde a Seleção Brasileira? Não havia uma linha sequer sobre eles. Minto. Numa pequena crônica lateral, intitulada “Flashes do passado”, um velho jornalista contava para os jovens sobre o tempo da “paixão clubística” – o termo vinha entre aspas, certamente pelo espanto natural causado pelo desuso. Ele explicava que houvera um tempo em que Belo Horizonte possuía três times que disputavam o Campeonato Nacional, e que cada qual pertencia a um clube – coisas de antigamente, ironizava.

Nos tempos de agora – agora daquele futuro do jornal que eu estava lendo – é que as coisas funcionavam conforme tinham que ser: empresas disputavam entre si o espaço na telemídia, que garantia o mercado consumidor, e o jogo, dentro das quatro linhas, era apenas a conseqüência dessa disputa econômica. Curiosa com a explicação, voltei à cobertura da final do campeonato. Aí comecei a entender melhor. O artilheiro do time tinha firmado um acordo com o gerente de marketing de entrar em campo a qualquer custo. A perna que ele quebrara na véspera, portanto, não o impediu de jogar, claro que com o gesso devidamente patrocinado pela Golden Cross. O jogo terminou 1 x 0, com um gol de pênalti, mas no final o artilheiro perdeu o pênalti que poderia ter dado o empate ao seu time.

Ainda em sonhos, observei nas fotos a carinha dos jogadores. Espanto ainda maior: no time vencedor, todos eram louros, do cabelo espetado para cima, reproduzindo um comercial da Wellaton. No perdedor, todos carequinhas, com a logomarca da Philishave impressa no cocuruto. E os uniformes? Bom, já viram aqueles encartes nos suplementos de moda? Eram daquele jeito, com destaque para as tradicionais marcas das indústrias de produtos esportivos. O estádio não tinha nome de gente, e sim, de todo tamanho, Andrade Gutierrez, construtora que explorava a ocupação do espaço. O acender das luzes vinha patrocinado pela Cemig Osram, prestadora daquele serviço. O alto-falante, pela Gradiente.

Liguei a TV e dei sorte de conseguir assistir ao teipe do tal jogo. Na hora dos hinos, que patriotismo que nada. Eram o jingles que entravam em campo. Até aí tudo natural. As câmeras permitiam ver a platéia sentadinha, bem comportada nas arquibancadas. Senti falta da zoeira típica dos nossos torcedores, mas logo descobri por quê. É que a bateria da Mocidade Independente, contratada pelo patrocinador para animar a festa, tinha ficado presa no engarrafamento das quatro e só chegou em cima da hora. Entrou, tocou meia dúzia de pagodes, todos iguais, depois emudeceu – o contrato só previa que voltasse a repinicar quando o time marcasse um gol, o que só aconteceu no finalzinho.

Assim foi que assisti, estarrecida, ao desenrolar daquela partida. Não lembro detalhes do jogo – sabe como é sonho. Tem hora que fica tudo nublado, a gente só grava a sensação que os fatos produzem. Quanto a isto não preciso nem explicar: futebol, em tempos de neoliberalismo, pode dar dinheiro a muita gente, mas até a síndrome do sucesso a qualquer preço corre seus riscos. E eu nunca vou esquecer a carinha de robô de um homem que a câmera da TV, no meu pesadelo (agora tenho certeza de que não era sonho nada), flagrou no meio da torcida, a mais silenciosa e desapaixonada que já vi diante de um tapete verde, ainda que assinado pela Agroceres.

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(Crônica publicada originalmente no Estado de Minas, em em 22 de julho de 1998, e depois incluída na coletânea "A bola que rola")

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A bola que rola
coletânea organizada por Ronald Claver
Editora RHJ, 2003

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