Hora de parar
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Hora de parar. Hora de parar. Hora de parar. Só
isso me vem à cabeça enquanto tento abrir
o olho e identificar onde é mesmo que estou, num
buraco escuro, com alguma língua molhada lambendo
em volta da minha boca. Tem um cara me beijando de língua,
é isso, um cara estranho, de cabelo grande e barba
espessa, enfiando sua língua na minha boca. O estômago
parece ser o primeiro dos meus órgãos a
despertar. Embrulhado. Quero vomitar aquela língua
que denuncia quão pastosa está a minha própria.
Não sei há quanto tempo estou ali na buraco
escuro, com aquele cara meio em cima de mim. Quem? Onde,
mesmo?
Abro os olhos e identifico as paredes do porão
da boate onde estava à noite bebendo e cheirando
com minhas amigas. As meninas não estão
por ali. O cara cabeludo e barbudo tinha aplicado a gente
nuns tirinhos, mas acho que abusei e dei uma dormida.
Mas não deitei e apaguei. Apenas dormi em pé,
ou dançando, ou beijando aquele cara. Que vontade
de vomitar. Não tem ninguém mais por ali.
Só nós dois. Falo com ele: “Preciso
ir embora”. Ele ainda argumenta, meio arrastado,
qualquer coisa sobre fazer um amorzinho gostoso. Se não
estivesse tão chapada eu até poderia rir.
Tento me levantar e mostrar pro cara que meu estado não
me permite ir além de me mandar, parar um táxi
e me despejar em casa. Ele também não agüenta
mais nada. Subimos uma escada em caracol, que me deixa
ainda mais tonta. Trocando as pernas, acompanho o cabeludo
até a porta lateral da boate, um desses portões
de garagem que ele levanta com certo esforço. Barulho
que retumba no meu cérebro inchado. Mas o pior,
de doer olhos, ouvidos e todas as fibras do corpo, é
a invasão da luz e do barulho que vêm da
rua. Seguramente passa das sete da manhã. Ônibus
descem lotados a rua – passarela do gole, onde se
enfileiram bares e boates da moda. Vejo passar devagar
um táxi olhando para o meu fantasma. Sinalizo.
Ele pára. Entro dando um adeus de relance para
o cara.
O táxi desliza em direção ao meu
endereço, que no automático ainda consigo
recitar para o motorista. Não olho para trás.
Já não sou capaz de lembrar o nome ou a
cara do cara que há poucos minutos me lambia no
porão da boate. Pelas dores que sinto no corpo,
devemos ter feito outras coisas no tempo indeterminado
que passei com ele ali. Minha roupa está muito
desalinhada, minhas pernas tremem, minha boca sente um
gosto muito estranho. Ainda bem que tenho o dinheiro contado
pro táxi. Desço na porta de casa. Entro
com o andar mais leve de que sou capaz. Pura paranóia.
Moro sozinha. Não tenho mais que temer que meu
pai ou minha mãe acordem, me vejam neste estado.
Mesmo porque são quase oito da manhã. Numa
casa de família estaria tudo já andando,
café na mesa, gente correndo para pegar serviço.
A cabeça dói antes mesmo que eu consiga
escovar os dentes e jogar o saco de ossos na cama. Dá
tempo de engolir um dorflex ou engov junto com um copão
de água. Fecho todas as cortinas da casa, me enfio
embaixo da coberta e espero a cabeça parar de rodar
para tentar dormir. As lembranças da noitada ficam
rodeando pensamentos confusos – o mais deles, a
parte entre aquelas dezenas de tiros no banheiro da boate
e a língua de um cabeludo estranho entrando e saindo
da minha boca. Hora de parar. Hora de parar. Hora de parar.
***
Não é a primeira vez que o pensamento me
ocorre. Quando começo, é tudo maravilha.
Os primeiros chopes, gelados, deliciosos, o baratinho
gostoso. Daí a pouco, se continuar nos chopes e
mais chopes, começo a ficar de fogo. Aí
as meninas sempre têm um tirinho para dar aquela
levantada. Aí tudo brilha de novo, a conversa ágil,
o pensamento inteligente, o falatório que destampa
e encontra casos compridos e aparentemente interessantes.
A filosofia em torno do que dizem, reflexões profundas
que modificarão os rumos do mundo, da vida dos
beneficiários de tanto brilhantismo.
Daí a pouco, compulsão. Mais pó,
mais pó, não quero parar, não preciso
parar, estou ótima, tudo perfeito, só bem-estar.
O gozo pleno, sem fim. Isso é bom demais. Por que
a noite tem que acabar, a conversa? Mas também
sempre tem um que capota logo, anunciando que o sempre
é tempo curto demais. E nos últimos tempos
esta amnésia que corta no meio trajetória
tão cheia de perfeições. Do que rola,
nem sempre dou notícia. Beijos de língua
com desconhecidos nos banheiros de boates. Sexo inseguro,
impessoal, felação de surpresa – acordo
com aquela novidade na boca. Fujo, erro por aí.
No outro dia, ressaca – física, moral, divisão
entre a parte feliz e prazerosa do embalo e o descontrole
subseqüente. Na hora que ia ficar bom para valer,
sexo, encontro com alguém, conquista daquela caça
atrás da qual se andou a noite inteira, a vida
inteira – um branco. Muitos brancos. Em fileiras
brilhantes na pedra da pia, branquinhas. Na hora que a
consciência retorna, aquele brancão na mente.
Oncotô? Cuma? Muito estranho. É branco demais
para uma branquela que erra pela cidade à procura
de Mr. Goodbar, à procura do bar onde Mr. Good
me coma, mesmo que depois eu não dê notícia.
Hora de parar. Hora de agendar uma ginecologista, avaliar
o tamanho do estrago de tanta irresponsabilidade. Terei
coragem para fazer um teste de aids? Ou não passa
de melodrama? Essas esfregações da madrugada
podem até provocar uma sensação de
culpa pela promiscuidade moral, mas será que o
fogo do inferno acena com doença e morte como punição
por tanto pecado? Só o laboratório dirá.
***
Acordar é quase tão difícil quanto
imaginar de onde veio o mal-estar. Antes era tudo tão
mais fácil. Tudo. Beber. Desde os 15 anos, com
a galera do colégio, naqueles bares das imediações.
O amargo da cerveja nunca foi problema para aquele início.
Acostumar-me com o gosto foi rápido, diante do
efeito. Foguinho gostoso. O primeiro gole sempre delicioso.
Nada mais prazeroso do que voltar a beber. O álcool
se espalhando pelos braços e pernas, que bambeiam
de pronto, e logo sobe para a cabeça. Bom demais.
Anos aquilo sendo tão bom. Depois começou
a ficar muito. Muito mesmo. Passamos a medir o tanto que
bebíamos em horas/cerveja. Ontem bebemos oito horas
de cerveja. Foi muito, mas deu pra agüentar. Das
sete da noite às três da manhã. Cheguei
em casa às três e meia. Dormi até
as oito. Levantei meio sonada mas deu pra ir à
aula e pegar o segundo horário, às oito
e meia. Não tomava banho de manhã. Devia
chegar num bodum... Mas a cabeça até que
funcionava. Só pegava segunda época nas
matérias de primeiro horário. E naquelas
de sábado, que na sexta-feira ninguém ia
mesmo. Sexta-feira foi quem primeiro virou sexta-cheira.
Depois o sábado também. A quarta. Por que
não a segunda? Se tinha o domingo, a terça
e a quinta pra se refazer...
Cheirar era muito melhor que fumar baseado. O baseado
até que proporciona uns papos engraçados,
dependendo do interlocutor. Mas dá fome e sono,
embora ajude a fazer a cerveja ficar mais gostosa. Cerveja
depois de baseado é perfeita. O contrário
não. Beber e depois fumar reverte. Uma bosta. Com
pó, tanto antes quanto depois é perfeito.
O papo é perfeito, independentemente do interlocutor.
Dá pra cheirar e trocar idéia com tia velha
sobre a liturgia da missa, com vizinho esquisito sobre
meteorologia, com lavador de carro sobre urbanismo.
Só não dá pra parar. Uma vez parei.
Fiquei um tempo careta, achando o mundo careta, a vida
careta. Sair deixou de ser interessante, as pessoas não
tinham mais a menor graça. Me enfiei no cinema
e nos livros, me escondendo da chatura generalizada. Me
afastei das más companhias – as únicas
que poderiam ser boas – e mudei de vida. Da vida
para a suspensão da vida. Nada acontecia. Não
havia paquera, namoro, encontro, relação,
troca. Passados alguns meses, convencida de que poderia
sobreviver durante décadas e séculos sem
álcool, drogas, sexo e gente, suspensa no mundo
irreal das cenas construídas nas telas e páginas
da ficção, resolvi voltar. A vida me esperava.
Não queria morrer em vida. Era uma questão
de escolha entre que tipo de zumbi eu preferia ser: o
que chega em casa amanhecendo e odeia o sol, o espelho
e o cheiro do cinzeiro cheio, ou aquele anódino,
amorfo, exilado no próprio vazio. Escolhi o zumbi
social. Tampei os espelhos, enchi a geladeira de cerveja
e voltei.
***
Ontem, quando acordei e vi que havia vomitado ao lado
da cama antes ou depois de escovar os dentes, voltando
daquela noitada em que me deu branco entre um beijo de
língua e algo entre sexo oral ou outra coisa de
que não me lembro, senti uma vontade enorme de
chorar. Que pasa? Que pasa? Já lá se vão
tantos anos desde aquela vez que parei com tudo e achei
que tinha somente mudado o tipo de zumbi que eu era...
Será que é recaída no sentido de
parar? Sem novidade. Hora de parar, este mantra que repito
sempre, não traz em si necessariamente um conteúdo
verdadeiro de proposta, desejo ou decisão. Dividir-se
entre a droga e renegá-la, entre a noitada e a
quietude, entre a lama e a caretice, se não compõe
a personalidade de todos os meus pares, pelo menos a minha
é determinada assim. Não há mergulho
sem medo, sem vacilo, sem culpa. Tudo antes, obviamente,
e depois, muito depois, só quando o estômago
revira pra valer ou quando o vômito é involuntário.
Amnésia. Minha odiada namorada. Amnésia.
Aquela que, com seu mistério e capacidade de me
oferecer surpresas, despista momentos dos quais não
sei sequer se serão os melhores ou os piores da
minha saga noite adentro. Aquela que me faz sentir habitada
por outro alguém, que decide e faz, sem a contribuição
da minha capacidade de ponderar. Aquela que, me habitando
sem que eu saiba a hora que chega e sai, me leva para
onde sei lá, nunca saberei. Será que se
fizer uma sessão de regressão ou tratamento
de hipnose conseguirei descobrir o que fiz e falei durante
os lapsos que desconheço? Será que em algum
recôndito da minha mente está tudo lá
guardado, como um rascunho que esqueci de rasgar daqueles
poemas amarfanhados, inspirados ou feiamente plagiados
de Bukowski? Poemas sem poesia, despejo de fel invejoso,
inveja do poeta, de sua dor, de sua boêmia, de sua
lama, aquilo sim vida de artista, aquilo sim digno de
ser chamado de arte, não meus rabiscos em guardanapos,
sem coragem de falar a verdade, de beijar o chão,
de vestir o pano de chão como manto sagrado.
***
Não quero contar aqui uma história de lama
e baixeza, de falso erotismo ou aventuras pretensamente
instigantes, menos ainda moralistas, sobre o eixo torto
de ruas e bares que atravessam certas regiões da
cidade. Um traço de verdade há que aflorar
da vida de uma mulher meio velhusca, sozinha, errada,
errante, sem amante, sem deixar marcas por onde passa.
Uma sombra que circula brilhando e se ofuscando a cada
movimento do circo onde malabaristas se equilibram achando
que fazem graça, mas o riso falso é do palhaço,
desenhado a lápis barato sob olhos vermelhos, esses
de verdade. Dona velha com sonhos de menina moça,
escondidos no fundo do copo, no espelhinho quebrado onde
ela enfileira cocaína e se mira de relance na hora
de afastar a franja para cheirar uma carreira e voltar
a se sentir rainha, como quando tinha 14 anos e reinava
na casa do pai, então poderoso, então forte,
então ele também um rei. Hoje sem cetro
e sem coroa todo mundo. Ninguém herdou o trono.
O trono é a privada onde se mija e vomita 12 horas
de cerveja. Tantas quantas a gente agüentar. Até
alguma coisa mandar parar. O que será da próxima
vez?
***
Que coisa mais sem graça esta vida de zumbi. A
sorte que eu dei foi ter arrumado esse emprego chinfrim
numa repartição, que me permite pegar meio-dia
e largar às seis. Minhas noites e manhãs
ficam, assim, salvas de qualquer amolação.
Bem que eu poderia trabalhar um pouco mais e ganhar um
pouco mais, mas, dando pro aluguel do moquifo onde me
escondo no tempo que passo em casa, está suficiente.
E pro embalo, que sem mufunfa nada sobrevive. Outra sorte:
gostar só de cerveja, mais barata que uísque,
vodca e gim, que minhas amigas preferem, e não
gostar de pinga, mais barata que tudo, mas que deixa o
fígado em frangalhos inconcebíveis.
Essa conversa tá parecendo coisa de Rê Bordosa.
Não era a intenção. Qual era, então?
Sei lá! Mandar todo mundo pro AA ou pro culto com
certeza não, embora já tenha visto saindo
da igreja antigos parceiros de birita e putaria. Denunciar
o que as drogas podem fazer com você? Não
sem antes contar o que elas fazem por você, o que
te dão antes de te tomar. Não é tão
pouco, há ganhos, não pense que é
só lama e decadência. Tem também...
tem também... a popularidade! Se você começa
a servir, como eu fazia no início, aquela mão
aberta de iniciante, daí a um tempo dá pra
filar com menos cara-de-pau. Simpatia. Papo solto. Disponibilidade.
Para o bem e para o mal. Um ser da noite é um ser
disponível, dado, pro outro. Chega a soar generoso,
mas é forçação. Não
há generosidade neste mundo. É puro business.
Negócios de grana, negócios de sexo, negócios
de afeto. O resto é lucro, se houver algum resto.
***
Amanheço mais um dia às dez e meia e sem
saco pra ir trabalhar. Se me levantar agora, dá
pra dar uma melhorada, esperar o estômago pedir
alguma coisa. Se tomar um gatorade agora, talvez antes
do meio-dia consiga engolir algo substancioso o suficiente
pra ir trabalhar. Mas e a preguiça, o que fazer
com ela? Preguiça de tudo. Existencial. Se ao menos
tivesse ânimo pra parar... Hora de parar, mas fazer
o que no lugar de? Ir pra onde em vez de? Ser quem? Com
quem? Onde? Preguiça. Acho que é melhor
não mexer com nada. Nem matar serviço. Guardar
o trunfo prum dia em que estiver bem pior. Fico na cama
mais uma hora, levanto, tomo o gatorade e um banho, vou
pra repartição e no caminho compro um sanduíche
natural, daqueles bem molhadinhos e fáceis de engolir,
pra mandar pra dentro quando o estômago apitar.
De noite, fico quieta em casa, vejo uma novelinha pra
variar, durmo cedo, sem balada. Sanduba natureba, noite
de sono, novela. Nada como uma vida saudável.
***
Antes era o vazio. A falta de alguma coisa que eu sentia
e deixava de sentir assim que chegava na balada. O embalo
preenchia tudo, ficava tudo bem. No dia seguinte, ressaca.
Novamente o vazio. Aquela tristeza sem motivo e sem fim.
Isso era antes. Agora não. Não mais o vazio,
mas uma dor que preenche com a mesma completude o buraco
que parecia sem fundo e sem solução. A dor,
parece angústia, mas não. Angina. Formiga
a mão, se espalha do peito pro braço. Uma
falta de ar. Concreta. Dói de dar vontade de chorar.
Mas não vou chorar. Vou pegar um táxi. Vou
lá, dar a cara a tapa. Tentar tapar a falta, antes
de tudo, agora só de ar. Vou lá. Agora não
dá mais para parar.