Pausa para poesia
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Dizem que a poesia é falta de assunto. Dizem que
não há lugar para a poesia. Dizem que jornal
não comporta poesia. Dizem que nosso tempo não
tem espaço para a poesia. E que a vida de jornalista
é dura quando não se tem assunto.
Vivemos num tempo de tantos problemas que parece frivolidade
falar em flores. Em passarinhos e borboletas. Em pôr
do sol e quaresmeiras em flor. Em beleza e esperança.
Quem quer saber de poesia quando:
Um casal de velhos morre afogado dentro de um carro num
bairro nobre de uma grande cidade.
Um homem estupra 3 mil vezes a filha e lhe insemina filhos-netos
e incinera o bebê morto.
Escândalos se multiplicam nas casas mais altas
da representação política.
Automóveis são tão numerosos e mal-educados
que não andam mais na capital do país, se
esbarrando e entupindo todas as vias.
Doenças novas disputam com doenças velhas
os parcos recursos para a saúde.
Crianças e adolescentes morrem de tiro, de overdose,
de descuido, e matam com as mesmas armas que os criminosos
adultos.
Uma bolha gigante engole a economia global, fortunas
de bilhões desaparecem assim, sem que ninguém
fique rico, e o desemprego assombra até os trabalhadores
dos países mais desenvolvidos.
Não, o cronista não precisa refazer a lista
de problemas do mundo para ter o que dizer. Ele pode,
por que não?, falar do homem do bom-dia, do rapaz
dos mil instrumentos, da moça na janela, da saudade
de quem se foi.
Faz disso a crônica do dia a dia, a poesia de exceção
que rompe silêncios e se instala mesmo se não
for bem-vinda. A palavra que não quer ser ouvida
porque a pressa pede soluções urgentes.
A palavra que quer ser dita a contragosto de quem fala,
escreve, ouve ou lê. A palavra rebelde, revolucionária,
que contraria o mau humor de quem não se interessa
por ela – e sobrevive.
Poesia não é falta de assunto. É
resistência. Arte, cultura, literatura e graça.
Contra vento e maré, como dizia Vargas Llosa.