Errar é humano
Clara Arreguy, 11/03/2005
Já virou até chavão: errar é
humano. Brasileiro, que não perde a piada, vai
mais longe: “herrar é umano”. Quem
trabalha em jornal sabe melhor que ninguém a luta
que é ter como meta o erro zero, não publicar
erro de português, hifenização, informação,
erro de nenhuma natureza. Mas como a falibilidade faz
parte do constituição do nosso ser, eles
pululam. Para desespero nosso e dos nossos leitores, que
nos ligam, escrevem e protestam veementemente.
As empresas jornalísticas, sabendo do patrimônio
que sua credibilidade representa, investem em programas
de qualificação, autocrítica, em
cercar o erro antes e apontá-lo depois, para que
repórteres e editores se conscientizem e evitem
recaídas – afinal, dizem também que,
se errar é humano, insistir no erro é burrice.
Nada disso impede que, na confecção diária
de um jornal, que equivale mais ou menos a publicar um
livro de 180 páginas, falhas indefectíveis
aconteçam.
Diziam os antigos jornalistas que o erro era um capetinha
que se escondia da gente quando preparávamos o
jornal e que pulava na nossa cara quando o abríamos
na manhã seguinte. Provavelmente isso tem seu fundo
verdade. Se não, como explicar que erros escandalosos
passem por todos os olhares, os mais atentos, ora no título
da matéria, de todo tamanho, ora na legenda ou
nas frases selecionadas em destaque, como se ninguém
tivesse sequer passado os olhos por ele?
O leitor tem toda razão de se indignar. Mas nada
nos impede de pedir desculpas, sempre. Alguns, compreensivos,
aceitam. Outros, não. Muitos leitores nos ligam
revoltados, dispostos a brigar, e com razão. Outro
dia mesmo me questionou um assinante: “Quem vai
pagar meu prejuízo?”. Para quem está
acostumado a viver numa sociedade que contabiliza tudo
em termos de custo-benefício, soa natural o raciocínio.
Podemos até pagar um suposto prejuízo financeiro
quando erramos uma informação ou a ortografia
de uma palavra. Nunca, porém, conseguiremos pagar
a tristeza de constatar que erramos. E nunca, com todo
esforço que fizermos, conseguiremos alcançar
o sonhado erro zero. Continuaremos humanos. Ou umanos,
para não perder a piada.
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