Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Errar é humano
Clara Arreguy, 11/03/2005

Já virou até chavão: errar é humano. Brasileiro, que não perde a piada, vai mais longe: “herrar é umano”. Quem trabalha em jornal sabe melhor que ninguém a luta que é ter como meta o erro zero, não publicar erro de português, hifenização, informação, erro de nenhuma natureza. Mas como a falibilidade faz parte do constituição do nosso ser, eles pululam. Para desespero nosso e dos nossos leitores, que nos ligam, escrevem e protestam veementemente.

As empresas jornalísticas, sabendo do patrimônio que sua credibilidade representa, investem em programas de qualificação, autocrítica, em cercar o erro antes e apontá-lo depois, para que repórteres e editores se conscientizem e evitem recaídas – afinal, dizem também que, se errar é humano, insistir no erro é burrice. Nada disso impede que, na confecção diária de um jornal, que equivale mais ou menos a publicar um livro de 180 páginas, falhas indefectíveis aconteçam.

Diziam os antigos jornalistas que o erro era um capetinha que se escondia da gente quando preparávamos o jornal e que pulava na nossa cara quando o abríamos na manhã seguinte. Provavelmente isso tem seu fundo verdade. Se não, como explicar que erros escandalosos passem por todos os olhares, os mais atentos, ora no título da matéria, de todo tamanho, ora na legenda ou nas frases selecionadas em destaque, como se ninguém tivesse sequer passado os olhos por ele?

O leitor tem toda razão de se indignar. Mas nada nos impede de pedir desculpas, sempre. Alguns, compreensivos, aceitam. Outros, não. Muitos leitores nos ligam revoltados, dispostos a brigar, e com razão. Outro dia mesmo me questionou um assinante: “Quem vai pagar meu prejuízo?”. Para quem está acostumado a viver numa sociedade que contabiliza tudo em termos de custo-benefício, soa natural o raciocínio. Podemos até pagar um suposto prejuízo financeiro quando erramos uma informação ou a ortografia de uma palavra. Nunca, porém, conseguiremos pagar a tristeza de constatar que erramos. E nunca, com todo esforço que fizermos, conseguiremos alcançar o sonhado erro zero. Continuaremos humanos. Ou umanos, para não perder a piada.


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