Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Ainda a coleta seletiva
Clara Arreguy, 15/12/2005

Há mais de um ano, quando vim morar em Brasília, estranhei, entre as diferenças da cidade, o fato de ver pouca gente fazendo coleta seletiva de lixo. Disseram-me que já houve política pública nesse sentido, que hoje não há mais. Apenas iniciativas isoladas, de condomínios e pessoas que se esforçavam para separar seu lixo e dar destino racional a ele.

No prédio onde fui morar, os administradores se convenceram das vantagens ecológicas e econômicas da coleta seletiva e em pouco tempo já tínhamos receptáculos separados para o material orgânico e o seco (plástico, vidro, papel, metal etc., desde que tudo limpo), com a coletividade ganhando com a venda desse excedente para a indústria de reciclagem.

Quando me mudei, vi que, nas superquadras, havia dois latões em frente aos prédios, um para cada tipo de lixo. Qual não foi minha surpresa quando assisti, outro dia, aos garis recolhendo o conteúdo dos dois e jogando-os, juntos, no caminhão. Procurei saber e constatei que, realmente, a gente separa em casa, lava o que for reaproveitável, cuida com carinho, embrulha em sacos diferentes, e depois tudo é misturado e compactado, indo parar no mesmo lixão.

Só não fiquei mais pasma porque soube, também, que os próprios faxineiros dos prédios fazem sua triagem, antes mesmo de depositar nas latas, dando destino principalmente aos jornais e latinhas, de maior valor para a reciclagem. Ainda iniciativas individuais, isoladas, distantes de uma política racional, inteligente e avançada, como convém a uma sociedade pobre, mas que se moderniza, que tem acesso à tecnologia e à informação.

Será que isso é uma idiossincrasia minha, mania de gente velha, idéia fixa, excentricidade? Será que ficar batendo nessa mesma tecla ajudará a conscientizar alguém? Sei que, nas escolas, as crianças aprendem isso e muito mais, sobre defesa do meio ambiente, amor à natureza e aos animais, sobre aproveitamento racional dos recursos, sobre combate à poluição, preservação dos rios e das florestas. Quando será que o poder público fará sua parte para que a prática desses paradigmas deixe de ser slogan e se torne realidade?


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