Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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O papel dos intelectuais
Clara Arreguy, 15/07/2005

Houve um tempo em que intelectuais e artistas se digladiavam em torno de duas opções para uma falsa oposição: arte engajada versus arte pela arte. Eram tempos de ditadura, e muitos (os mais militantes) acreditavam que, se você não usasse seu talento e popularidade para denunciar o obscurantismo, seria conivente com ele. Para os defensores do lado oposto, se um criador fizesse bem seu ofício, fosse música, livro ou filme, cumpriria “com sua parte para o nosso belo quadro social” (Raul Seixas). As “patrulhas ideológicas” de então perderam a disputa. Os próprios engajados, aos poucos, foram mudando de assunto, assim como se transformava a realidade.

Hoje, outro tipo de engajamento se percebe, menos até no resultado de um trabalho artístico e mais no compromisso do cidadão com seu tempo e seu país. Quantos artistas emprestam prestígio a causas como o combate à fome, ao trabalho infantil etc., em campanhas para as quais dispensam cachê e se envolvem às vezes mais, com participação direta em ações.

No mundo inteiro é assim. Um dos intelectuais mais importantes do século 20, o filósofo italiano Norberto Bobbio, além de ter ajudado a pensar o mundo em que vivemos nos quase cem anos em que esteve no planeta, também fundou partido político, militou pelo socialismo democrático, propôs caminhos para os que, como ele, queriam, mais que entender, influir nos rumos da humanidade.

Mais recentemente, o escritor israelense Amós Oz tem acrescido militância pessoal à grande obra literária que constrói com excelência – e sua autobiografia, De amor e trevas (Companhia das Letras), há poucas semanas nas livrarias, coroa uma seqüência de romances de alta qualidade. Além de autor do primeiro time, presente em listas de candidatos ao Nobel de literatura, atua como combatente pela paz no mundo, especialmente no Oriente Médio.

Nascido em Israel ainda sob domínio inglês, ele assistiu ao nascimento do Estado pelo qual lutaram seus pais, à guerra contra os árabes nos anos 60, ao recrudescimento das hostilidades entre palestinos e judeus, e mesmo assim segue militando pela paz, admitindo e defendendo as perdas que cada lado necessariamente terá que sofrer para se construir o entendimento possível. Com suas propostas, o escritor contribui, assim, para a arte e para a paz mundial.


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