O papel dos intelectuais
Clara Arreguy, 15/07/2005
Houve um tempo em que intelectuais e artistas se digladiavam
em torno de duas opções para uma falsa oposição:
arte engajada versus arte pela arte. Eram tempos de ditadura,
e muitos (os mais militantes) acreditavam que, se você
não usasse seu talento e popularidade para denunciar
o obscurantismo, seria conivente com ele. Para os defensores
do lado oposto, se um criador fizesse bem seu ofício,
fosse música, livro ou filme, cumpriria “com
sua parte para o nosso belo quadro social” (Raul
Seixas). As “patrulhas ideológicas”
de então perderam a disputa. Os próprios
engajados, aos poucos, foram mudando de assunto, assim
como se transformava a realidade.
Hoje, outro tipo de engajamento se percebe, menos até
no resultado de um trabalho artístico e mais no
compromisso do cidadão com seu tempo e seu país.
Quantos artistas emprestam prestígio a causas como
o combate à fome, ao trabalho infantil etc., em
campanhas para as quais dispensam cachê e se envolvem
às vezes mais, com participação direta
em ações.
No mundo inteiro é assim. Um dos intelectuais
mais importantes do século 20, o filósofo
italiano Norberto Bobbio, além de ter ajudado a
pensar o mundo em que vivemos nos quase cem anos em que
esteve no planeta, também fundou partido político,
militou pelo socialismo democrático, propôs
caminhos para os que, como ele, queriam, mais que entender,
influir nos rumos da humanidade.
Mais recentemente, o escritor israelense Amós
Oz tem acrescido militância pessoal à grande
obra literária que constrói com excelência
– e sua autobiografia, De amor e trevas (Companhia
das Letras), há poucas semanas nas livrarias, coroa
uma seqüência de romances de alta qualidade.
Além de autor do primeiro time, presente em listas
de candidatos ao Nobel de literatura, atua como combatente
pela paz no mundo, especialmente no Oriente Médio.
Nascido em Israel ainda sob domínio inglês,
ele assistiu ao nascimento do Estado pelo qual lutaram
seus pais, à guerra contra os árabes nos
anos 60, ao recrudescimento das hostilidades entre palestinos
e judeus, e mesmo assim segue militando pela paz, admitindo
e defendendo as perdas que cada lado necessariamente terá
que sofrer para se construir o entendimento possível.
Com suas propostas, o escritor contribui, assim, para
a arte e para a paz mundial.
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