Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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A vaidade das coisas
Clara Arreguy, 15/03/2005

Está no dicionário: vaidade tem a ver com a presunção com os próprios méritos, mas também com o caráter vão e ilusório das coisas. É típico da personalidade de alguns jornalistas deixar-se levar pela vaidade da profissão, confundindo-se com a matéria de trabalho, dando-se tanta importância quanto tem nosso objeto de atenção. Assim, devido à proximidade e ao conhecimento com artistas, políticos e gente famosa, muitos profissionais da imprensa tendem a se achar igualmente influentes e poderosos, e acabam confundindo os papéis.

Pela posição que ocupamos no jornal, muitos estudantes nos procuram querendo saber mais sobre o exercício da profissão, cotidiano e desafios. Alguns querem abraçar a carreira por idealismo, outros acreditando num bom futuro profissional. Mas não é difícil distinguir, entre tantos, aqueles picados pela tentação da vaidade, que sonham estrelar telejornais globais, como se fossem se tornar (e alguns poucos acabam mesmo virando!) artistas do horário nobre. A celebridade na mídia realmente existe, não à toa editores, repórteres e apresentadores despertam no imaginário do público sonhos semelhantes aos de galãs e beldades. No entanto, para quem quiser ser bom e sério, não será por aí o caminho.

Certo dia, visitando um apartamento para alugar, deparei com o chão coalhado de cadernos C, esse mesmo que caprichamos para fazer com correção e conteúdo, na busca de modificar a vida do leitor, diverti-lo, entretê-lo e informá-lo sobre o novo, o bacana, o importante. Pois estava tudo lá, forrando o chão sujo de um apartamento vazio. Isso quando nossos textos, burilados com zelo de ourives, não vão embrulhar tomate, forrar gaiola de passarinho e receber o destino escatológico que irmana todas as criaturas.

Ter consciência da própria humildade e não deixar a vaidade subir à cabeça, mesmo quando se freqüentam palácios, consiste num dos grandes desafios para veteranos e jovens. Afinal, tudo é vão, passa e se extingue num piscar de olhos.


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