Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Ética no dia-a-dia do jornal
Clara Arreguy, 17/02/2005

Ética é uma questão que desafia diariamente o jornalista no exercício da profissão. Códigos elaborados pelas empresas ajudam, mas pequenas (e grandes) dúvidas assaltam cotidianamente quem se relaciona com fontes e tem que ter em mente, como alvo e referência, o leitor. É o caso, por exemplo, das viagens a convite. Muitas vezes a empresa e seus profissionais gostariam de recusar convites de fontes para viajar, mas, por dificuldades financeiras, e mesmo por uma praxe tácita, acabam aceitando – desde que fique claro que o jornalista viajou a convite. Confiamos que o interesse do leitor – no caso, que o repórter conte a verdade sobre o que viu na viagem, e não o que interessa ao anfitrião divulgar – será preservado pela honestidade de cada um.

Outro caso, para quem lida com cultura, é o acesso a bens culturais. Livros, filmes, discos, DVDs etc. nos chegam constantemente às mãos para divulgação. Nem tudo merece sair no jornal. É coisa demais, muita coisa ruim, muita coisa limitada a pequenos grupos. Por um lado, é importante que o jornal informe ao leitor sobre o produto da indústria cultural, superproduções cinematográficas e cênicas, best-sellers. Por outro, nós, jornalistas da área cultural, queremos contar ao leitor que há vida inteligente fora do chamado mainstream, à margem dos gigantes. E assim tratamos de dar ao leitor, mais do que o que ele quer, o que ele não pode ainda querer porque não conhece – mas merece.

Para ter acesso a produtos que precisamos analisar para melhor informar, aceitamos convites para viagens, entrevistas, cópias de livros e discos. Muitas vezes, são feitos acordos para segurar a informação alguns dias e todos saírem juntos (jornais, revistas e tevês), sem que ninguém “fure” (saia na frente de) ninguém. Quando esse tipo de acordo se faz, o correto é respeitá-lo. Quem acha que não deve respeitar, não deveria nem combinar nada. Como se diz na minha terra, o combinado não é caro. Outro caso diferente é quando não se combina nada e os divulgadores resolvem pressionar os repórteres a não mandarem matéria para seus jornais, para não “furar” revistas semanais ou emissoras de tevê.

Há casos (gravíssimos) de divulgadores que chegam a tentar impedir fisicamente jornalistas de cumprir sua obrigação, e, o que é pior, com apoio de outros profissionais. Uma história absurda dessas aconteceu há poucos dias, com a conivência de jornalistas que se sentiam prejudicados porque alguns queriam fazer o que estavam ali para fazer: entrevistar, redigir, mandar matéria para publicação. É caso grave de ameaça à liberdade de imprensa e ao livre exercício da profissão. Um mau exemplo sobre o qual todos os envolvidos devem refletir com cuidado.


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