Ética no dia-a-dia do jornal
Clara Arreguy, 17/02/2005
Ética é uma questão que desafia
diariamente o jornalista no exercício da profissão.
Códigos elaborados pelas empresas ajudam, mas pequenas
(e grandes) dúvidas assaltam cotidianamente quem
se relaciona com fontes e tem que ter em mente, como alvo
e referência, o leitor. É o caso, por exemplo,
das viagens a convite. Muitas vezes a empresa e seus profissionais
gostariam de recusar convites de fontes para viajar, mas,
por dificuldades financeiras, e mesmo por uma praxe tácita,
acabam aceitando – desde que fique claro que o jornalista
viajou a convite. Confiamos que o interesse do leitor
– no caso, que o repórter conte a verdade
sobre o que viu na viagem, e não o que interessa
ao anfitrião divulgar – será preservado
pela honestidade de cada um.
Outro caso, para quem lida com cultura, é o acesso
a bens culturais. Livros, filmes, discos, DVDs etc. nos
chegam constantemente às mãos para divulgação.
Nem tudo merece sair no jornal. É coisa demais,
muita coisa ruim, muita coisa limitada a pequenos grupos.
Por um lado, é importante que o jornal informe
ao leitor sobre o produto da indústria cultural,
superproduções cinematográficas e
cênicas, best-sellers. Por outro, nós, jornalistas
da área cultural, queremos contar ao leitor que
há vida inteligente fora do chamado mainstream,
à margem dos gigantes. E assim tratamos de dar
ao leitor, mais do que o que ele quer, o que ele não
pode ainda querer porque não conhece – mas
merece.
Para ter acesso a produtos que precisamos analisar para
melhor informar, aceitamos convites para viagens, entrevistas,
cópias de livros e discos. Muitas vezes, são
feitos acordos para segurar a informação
alguns dias e todos saírem juntos (jornais, revistas
e tevês), sem que ninguém “fure”
(saia na frente de) ninguém. Quando esse tipo de
acordo se faz, o correto é respeitá-lo.
Quem acha que não deve respeitar, não deveria
nem combinar nada. Como se diz na minha terra, o combinado
não é caro. Outro caso diferente é
quando não se combina nada e os divulgadores resolvem
pressionar os repórteres a não mandarem
matéria para seus jornais, para não “furar”
revistas semanais ou emissoras de tevê.
Há casos (gravíssimos) de divulgadores
que chegam a tentar impedir fisicamente jornalistas de
cumprir sua obrigação, e, o que é
pior, com apoio de outros profissionais. Uma história
absurda dessas aconteceu há poucos dias, com a
conivência de jornalistas que se sentiam prejudicados
porque alguns queriam fazer o que estavam ali para fazer:
entrevistar, redigir, mandar matéria para publicação.
É caso grave de ameaça à liberdade
de imprensa e ao livre exercício da profissão.
Um mau exemplo sobre o qual todos os envolvidos devem
refletir com cuidado.
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