Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Desafios da cobertura cultural
Clara Arreguy, 18/11/2004

É comum que a academia, carente da experiência prática, mande os alunos atrás de profissionais capazes de testemunhar os meandros da profissão, seus desafios e questões cotidianas. Talvez por isso, e por estarmos perto do fim do ano, esta semana foram diversas as demandas que recebemos, aqui no jornal, de estudantes querendo nos entrevistar e questionar sobre o ofício de jornalista. Até aí tudo bem. Todo mundo que exercita há muito tempo a função tem o que acrescentar a quem está chegando. Tem hora, no entanto, que a apertura de serviço é tamanha que precisamos limitar-lhes o número de perguntas, o tempo que nos podem consumir.

A principal questão colocada nos trabalhos estudantis tem sido o porquê da crítica e da resenha publicadas pelos jornais. Não adianta explicar aos alunos que à imprensa cultural cumpre, além do papel de informar, também o de formar seu público. Que, diante do bombardeio da indústria cultural, com produtos numerosos e massificados em música, cinema, televisão, livros etc., o próprio leitor sente necessidade de discernir joio de trigo, entender o que é o quê, contextualizar produtos em perspectiva histórica, estética, e por aí afora.

Claro que o jovem questionador entende isso – e, como leitor de jornal, também procura tal diferencial. Mas paira sempre a dúvida: não será conferir muito poder ao crítico para dizer o que é bom e o que é ruim, o que merece ou não ser consumido? Tomado assim, pode parecer. Mas, se avaliarmos o tanto de produtos culturais consumidos em massa à revelia da crítica, fica claro que jornalista não restringe venda ou consumo de nada. Quantos movimentos musicais (axé, sertanejo), para ficar em poucos exemplos, não foram “detonados” pela crítica, e mesmo assim mantiveram-se durante anos como fenômenos de venda? E a crítica séria, comprometida com aquele duplo papel de formar e informar, soube discernir, mesmo nos tais movimentos, o que oferecia conteúdo artístico original do que não passava de mera repetição de fórmula pronta.

Subjetividade e imparcialidade não são a mesma coisa. A busca do jornalista perla imparcialidade é desafio constante, ainda que, no exercício ético da profissão, seu sujeito esteja presente, inalienável.


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