Uma
vida dedicada a semear a paz
Clara Arreguy, 19/02/06
Correio Braziliense
Poucas pessoas podem dizer que a vida pessoal, intelectual
e política converge num sentido único tanto
quanto a escritora inglesa Karen Armstrong. Sucesso mundial
desde que escreveu Uma história de Deus, essa ex-freira
católica tornou-se, de início sem querer,
uma das maiores especialistas em islamismo e judaísmo,
defensora de judeus e muçulmanos junto ao Ocidente,
em palestras pelo mundo, até ser colhida pelos
ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 –
revés na luta pela tolerância religiosa que
trava por onde vai. Agora, quando o tema se torna cada
dia mais candente, Karen Armstrong acaba de publicar um
volume de memórias, A escada espiral (Companhia
das Letras), em que conta como se deu sua trajetória.
Quem lê livros de Karen Armstrong, como a citada
História de Deus, Emnome de Deus (sobre as raízes
do fundamentalismo nas três grandes religiões
monoteístas) e Uma história do mito, recentemente
lançado no Brasil, não imagina como foi
difícil sua trajetória intelectual. Primeiro,
porque, menina católica, entrou para o convento
decidida a se tornar freira. Ali ficou durante sete anos,
no início da década de 1960, sofrendo a
imposição da disciplina mais rígida
– ainda que os tempos tenham sido também
de advento do Concílio Vaticano II, que introduziu
a modernidade em vários aspectos do catolicismo.
Na virada dos anos 60 para os 70, por não conseguir
ser feliz na suposta vocação, Karen sai
do convento e opta por se dedicar aos estudos na universidade.
Estuda letras, forma-se com louvor, mas o passado de noviça
provoca a desconfiança da academia, que lhe barra
o título de mestra por preconceito – malgrado
suas ótimas notas e trabalhos de conteúdo.
Nesse ínterim, os mal-estares que a acometiam no
convento (e que eram tidos como manha pelas irmãs)
se agravam. Depois de muito penar, Karen descobre que
sofre de epilepsia. Seus ataques não eram frescura,
podiam ser combatidos com tratamento e remédio.
O futuro profissional, no entanto, continuava incerto.
Karen dá aulas para jovens de colégio, mas
se cansa, adoece, não se realiza. O livro de memórias
acompanha um verdadeiro calvário, até que
ela caia, por acaso, num programa de tevê, onde
fala sobre seu passado religioso. Daí em diante,
começa a ser chamada para discorrer sobre o tema
e, com o rigor que a marcara em todas as atividades, passa
a estudar com profundidade tudo que diga respeito a religião.
Convidada por um produtor, Karen associa-se a um grupo
que prepara uma reportagem de tevê sobre são
Paulo (o santo, não a cidade). Viaja para Israel
e, em Jerusalém, fica amiga de judeus e muçulmanos.
Nesse meio tempo, todo o trajeto que a havia distanciado
da fé e das preocupações místicas
se inverte. Quanto mais conhece o judaísmo e o
islamismo, mais percebe as afinidades entre eles e o catolicismo
– os três de raiz abraâmica.
Entre textos sobre sua experiência negativa com
a religião e os estudos que passou a produzir,
ora em forma de livros, ora de programas de televisão,
Karen Armstrong assumiu a condição de intelectual
respeitada. Créditos merecidos por alguém
que a academia recusara por preconceito e que a indústria
cultural soube absorver,com todo o respeito.
Respostas
O final de A escada espiral reserva ao leitor a resposta
à pergunta que ele se faz ao longo de toda a leitura:
afinal, ela acredita ou não em Deus? A defesa dos
credos considerados irmãos ainda faz sentido, num
mundo dividido pela guerra santa sem fim que se trava
em Israel, na Palestina, no Iraque, no Afeganistão,
nos países que publicam charges do profeta Maomé,
nos países que queimam embaixadas, nos países
que se dilaceram em lutas fratricidas, nos países
que sofrem atentados terroristas. A resposta é
sim: à fé na transcendência que irmana,
não à fé convencional, pautada em
dogmas. Sim à paz, ao diálogo, à
tolerância.
No caso dos muçulmanos, Karen Armstrong lembra
que são uma população de 1,2 bilhão
de pessoas – a porcentagem dos que optam pelo ódio
e não pelo amor, base de toda a filosofia religiosa,
seria pequena para se generalizar a rejeição
ao todo. É certo que os ataques de 11 de setembro
lhe criaram ainda mais dificuldade em sua cruzada pacifista.
Muitos a acusaram de defender o inimigo. E ela própria
sofreu, principalmente porque anteviu o caminho de radicalização
de todas as partes envolvidas. As guerras que se sucederam
são desalentadoras. Para a escritora e militante,
no entanto, as lições de amor aprendidas
falam mais alto. De volta ao ponto de partida (a espiritualidade)
que lhe apontou os primeiros passos, segue caminho rumo
à luz – que a ilumine pessoalmente e ajude
o mundo a sair das trevas.
A escada espiral
De Karen Armstrong, tradução de Hildegard
Feist.
Companhia das Letras, 346 páginas. R$ 44.
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