Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Ainda o Festival de Cinema
Clara Arreguy, 1/12/2005

Os acalorados debates suscitados pelo Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB), encerrado na terça-feira, apontam duas linhas de reflexão, cada qual mais premente: por um lado, a questão política; por outro, a discussão estética. De tradição fortemente politizada, artistas, júri e público do festival se manifestam sempre em torno dos grandes temas que mobilizam a sociedade. Se no ano passado o longa vitorioso foi Peões, sobre a trajetória dos companheiros metalúrgicos do presidente Lula, neste ano, no curta, a vitória foi de Rap, o canto da Ceilândia, que dá voz aos excluídos em termos urbanísticos, políticos e culturais da periferia de Brasília. Isso sem falar nos calorosos aplausos para o documentário À margem do concreto, com os sem-teto procurando reconhecimento de sua cidadania, apesar do que chamam “demonização da imprensa”.

No mesmo campo, estão sempre presentes as demandas por política cultural dos governos. Ao segmento da produção cinematográfica, assim como à produção cultural, em geral, não bastam leis de incentivo (muito úteis, sem dúvida) para viabilizar a constância e a qualidade dos produtos. Isso foi dito e repetido à exaustão no festival, sobre o palco ou na praça de alimentação do Cine Brasília. Iniciativas como o Pólo de Cinema e Vídeo do DF ou os concursos do Ministério privados pode matar a incipiente indústria cinematográfica nacional. da Cultura foram saudadas como salvação da ainda pequena produção local, de jovens e estreantes. Mas ainda há muito mais a ser feito. Muito a ser incentivado e viabilizado, por meio de cursos de formação, editais, concursos, fundos. Ficar refém dos recursos

Por fim, a questão estética (não menos política) voltou a dividir opiniões. Linguagem convencional versus narrativa fragmentada, não-linear; fotografia “limpinha” versus imagens “sujas”, tremidas, desfocadas… Vídeo versus película, estética televisiva versus “essência” cinematográfica… As tendências são cíclicas, valorizando, em diferentes momentos, o documentário, a vanguarda. Há quem veja na comédia romântica e no filme de entretenimento expressões menores da arte. Há quem admita que qualidade independe de formato – em todos eles, deve haver o bom e o ruim. Novidade nem sempre significa excelência. O Festival de Brasília não se esgota em seus oito dias. E la nave va…


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