Ainda o Festival de Cinema
Clara Arreguy, 1/12/2005
Os acalorados debates suscitados pelo Festival de Brasília
do Cinema Brasileiro (FBCB), encerrado na terça-feira,
apontam duas linhas de reflexão, cada qual mais
premente: por um lado, a questão política;
por outro, a discussão estética. De tradição
fortemente politizada, artistas, júri e público
do festival se manifestam sempre em torno dos grandes
temas que mobilizam a sociedade. Se no ano passado o longa
vitorioso foi Peões, sobre a trajetória
dos companheiros metalúrgicos do presidente Lula,
neste ano, no curta, a vitória foi de Rap, o canto
da Ceilândia, que dá voz aos excluídos
em termos urbanísticos, políticos e culturais
da periferia de Brasília. Isso sem falar nos calorosos
aplausos para o documentário À margem do
concreto, com os sem-teto procurando reconhecimento de
sua cidadania, apesar do que chamam “demonização
da imprensa”.
No mesmo campo, estão sempre presentes as demandas
por política cultural dos governos. Ao segmento
da produção cinematográfica, assim
como à produção cultural, em geral,
não bastam leis de incentivo (muito úteis,
sem dúvida) para viabilizar a constância
e a qualidade dos produtos. Isso foi dito e repetido à
exaustão no festival, sobre o palco ou na praça
de alimentação do Cine Brasília.
Iniciativas como o Pólo de Cinema e Vídeo
do DF ou os concursos do Ministério privados pode
matar a incipiente indústria cinematográfica
nacional. da Cultura foram saudadas como salvação
da ainda pequena produção local, de jovens
e estreantes. Mas ainda há muito mais a ser feito.
Muito a ser incentivado e viabilizado, por meio de cursos
de formação, editais, concursos, fundos.
Ficar refém dos recursos
Por fim, a questão estética (não
menos política) voltou a dividir opiniões.
Linguagem convencional versus narrativa fragmentada, não-linear;
fotografia “limpinha” versus imagens “sujas”,
tremidas, desfocadas… Vídeo versus película,
estética televisiva versus “essência”
cinematográfica… As tendências são
cíclicas, valorizando, em diferentes momentos,
o documentário, a vanguarda. Há quem veja
na comédia romântica e no filme de entretenimento
expressões menores da arte. Há quem admita
que qualidade independe de formato – em todos eles,
deve haver o bom e o ruim. Novidade nem sempre significa
excelência. O Festival de Brasília não
se esgota em seus oito dias. E la nave va…
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