Novelário político nacional
Clara Arreguy, 20/04/2005
Que a novela brasileira é a melhor do mundo, ninguém
duvida. Ainda que siga, nos últimos 40 anos, provocando
reações contraditórias, amada (pelo
povo) e odiada (pelos “intelectuais”), a porção
Celebridade rivalizando com a Senhora do destino. De qualquer
maneira, a novela brasileira cresceu e amadureceu década
após década, e prova disso foi a entrada
gradativa da política nas tramas. Houve tempo em
que apenas pela farsa. Odorico Paraguassu, prefeito de
Sucupira, era a imagem exacerbada do arcaísmo das
relações políticas.
Hoje, não há mais novela sem política
e suas diversas possibilidades. Na temporada passada,
as três principais produções da Globo
tratavam do tema, e cada qual inventava uma solução
“didática” para mostrar ao telespectador
que as coisas são assim mas não precisam
ser para sempre. Às 18h, em Cabocla, o jovem e
idealista Neco (Danton Mello) derrubou pelo voto os coronéis
conservadores representados por seu pai e seu sogro. Às
19h, o prefeito Ademar (Carlos Vereza) foi absolvido do
crime de homicídio e preso por corrupção.
Antes, os autores mudaram de lado Olavo Bilac (Antônio
Calloni) e Lúcia (Luísa Tomé) para
que, ao vencer as eleições, eles moralizassem
a coisa pública, saneando as contas e voltando-se
para uma administração mais popular e menos
interesseira.
Na última novela das oito, Senhora do destino,
a de maior audiência em todos os tempos, a solução
foi mais radical. Político corrupto, violento e
desonesto, Reginaldo (Du Moscovis) foi apedrejado e morto
em praça pública.
Os três casos mostram possibilidades que os brasileiros
cogitam (trocar o ruim pelo bom, converter o ruim em bom,
eliminar sumariamente o vilão). Na democracia real,
felizmente, as saídas democráticas estão
todas aí para nos servirmos delas, sem apelar para
soluções tentadoras, mas definitivamente
desaconselháveis.
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