Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Sob a lei da natureza
Clara Arreguy, 20/10/2005

O calor que tem feito nos últimos dias me lembra um livro que li há muitos anos, mas de surpreendente atualidade: Não verás país nenhum, de Ignácio Loyola Brandão. Ainda nos anos 80, o escritor paulista tecia uma ficção política tétrica para o país e o mundo. Descrevia o verdadeiro nó em que se acabava o futuro, diante da inviabilidade total da sociedade a que chegaríamos. Um belo dia, o trânsito empacaria para sempre. Ninguém vai para frente nem para trás. O calor insuportável, a falta de rumos e a ausência de comando levariam todos para um lugar imenso, uma espécie de galpão coberto com uma laje, onde levas e mais levas de gente iriam se comprimindo até que nada mais restasse a fazer senão esperar o fim.

Metáfora sobre a realidade nacional e mundial, o livro de Loyola Brandão me vem à mente a cada vez que saio pela rua aqui em Brasília, sob sol escaldante em plena primavera. Não, aqui os engarrafamentos ainda não decretaram o fim do trânsito, mas a falta de perspectivas tem levado cada vez maior número de pessoas a desacreditar do que virá pela frente. Outra lembrança: pouco antes de morrer, no início dos anos 90, ainda durante o governo Collor, o historiador mineiro Francisco Iglésias profetizava que, se alguém estivesse assustado com a situação política do país, que se preparasse. Ainda iria piorar muito, e o que viria pela frente não dava para antecipar. O fundo do poço estaria distante.

O que estamos vivendo, no Brasil e no mundo, não poderia ser mais previsível e evitável, e no entanto está tudo transcorrendo como novidade. Quem diria, por exemplo, que testemunharia seca na Amazônia, peixes morrendo de sede, pessoas isoladas por desertos no lugar de rios? E no entanto, há décadas se sabem as conseqüências do desmatamento, o que gera poluição, aquecimento, desequilíbrio. E no entanto, por ganância, corrupção, estreiteza de visão, caminhamos para o caos como se fosse inexorável, manifestação da ira divina. Talvez Deus seja misericordioso com os homens. A natureza, não. Suas leis são implacáveis. Dessas, não há como escapar.


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