Sob a lei da natureza
Clara Arreguy, 20/10/2005
O calor que tem feito nos últimos dias me lembra
um livro que li há muitos anos, mas de surpreendente
atualidade: Não verás país nenhum,
de Ignácio Loyola Brandão. Ainda nos anos
80, o escritor paulista tecia uma ficção
política tétrica para o país e o
mundo. Descrevia o verdadeiro nó em que se acabava
o futuro, diante da inviabilidade total da sociedade a
que chegaríamos. Um belo dia, o trânsito
empacaria para sempre. Ninguém vai para frente
nem para trás. O calor insuportável, a falta
de rumos e a ausência de comando levariam todos
para um lugar imenso, uma espécie de galpão
coberto com uma laje, onde levas e mais levas de gente
iriam se comprimindo até que nada mais restasse
a fazer senão esperar o fim.
Metáfora sobre a realidade nacional e mundial,
o livro de Loyola Brandão me vem à mente
a cada vez que saio pela rua aqui em Brasília,
sob sol escaldante em plena primavera. Não, aqui
os engarrafamentos ainda não decretaram o fim do
trânsito, mas a falta de perspectivas tem levado
cada vez maior número de pessoas a desacreditar
do que virá pela frente. Outra lembrança:
pouco antes de morrer, no início dos anos 90, ainda
durante o governo Collor, o historiador mineiro Francisco
Iglésias profetizava que, se alguém estivesse
assustado com a situação política
do país, que se preparasse. Ainda iria piorar muito,
e o que viria pela frente não dava para antecipar.
O fundo do poço estaria distante.
O que estamos vivendo, no Brasil e no mundo, não
poderia ser mais previsível e evitável,
e no entanto está tudo transcorrendo como novidade.
Quem diria, por exemplo, que testemunharia seca na Amazônia,
peixes morrendo de sede, pessoas isoladas por desertos
no lugar de rios? E no entanto, há décadas
se sabem as conseqüências do desmatamento,
o que gera poluição, aquecimento, desequilíbrio.
E no entanto, por ganância, corrupção,
estreiteza de visão, caminhamos para o caos como
se fosse inexorável, manifestação
da ira divina. Talvez Deus seja misericordioso com os
homens. A natureza, não. Suas leis são implacáveis.
Dessas, não há como escapar.
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