Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Sob as luzes do natal
Clara Arreguy, 22/12/2005

E então é Natal, já disse John Lennon na música, apropriada indevidamente pelo comércio e pelo consumismo. E então é Natal e o consumismo se apropria de tudo. Dos símbolos, dos sonhos, dos sentimentos. O espírito de Natal, coitado, cada vez mais reduzido a presentes e porres, vai se deprimindo e deixando deprimido quem esperava que, diante da celebração do nascimento do Menino, alguma coisa mudasse nas consciências. Quanta ilusão.

Luzes natalinas enfeitam a cidade – como esta cidade é bonita, de dia, depois que estiou, de noite, com suas maravilhas de milhares de brilhos vidrilhos, para citar outro poeta e outra cidade (Mário de Andrade, sobre Belo Horizonte). Mas será que as luzinhas piscando inspiram em alguém o renascimento ao menos das intenções? Sim, claro que sim. Desde que Betinho criou o projeto Natal sem Fome, expandido por todo o país e por todas as classes sociais, o Natal tem sido época de as pessoas atentarem para a necessidade de sair de si um pouco. Pensar no outro.

Lições do Menino nascido na manjedoura, ao ar frio, entre capim seco e animais. Entre pobres e humildes, reverenciado por três reis, presenteado com tesouros do Oriente, mas pousado sobre a palha nua. Cercado por seus pais terrestres, pobres, simples, trabalhadores. Rodeado por pastores e criaturas simbólicas do trabalho. Sem acaso, sem casualidade. Intencional. Opção preferencial explícita.

Por isso deprime os de boa vontade constatar a troca do Menino pelo Papai Noel, símbolo do presente material, do comprar, do possuir. Mesmo que em sua origem o bom velhinho fosse um santinho que gostava de presentear crianças pobres, ele hoje já não diz senão do sentido vazio, do vazio de sentido, de uma data tão importante para a humanidade. Sim, porque você não precisa ser cristão para pensar no nascimento do Menino como momento de reflexão sobre nossa passagem pela Terra. Ele e sua manjedoura. Ele e sua sina. Ele e seu futuro de amor à humanidade. Ele e sua doação. Ele e sua cruz. Ele e sua mensagem.

Bem que o Natal poderia ser o momento de repensar nisso tudo. Irmanar as pessoas. Os diferentes. Os beligerantes. Os conflitantes. Irmanar os homens, como sempre deveria ter sido, em sua finitude e pequenez. O Menino nasceu e renasce para inspirar essa luz. Essa estrela. Para quem quiser enxergar.


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