Sob as luzes do natal
Clara Arreguy, 22/12/2005
E então é Natal, já
disse John Lennon na música, apropriada indevidamente
pelo comércio e pelo consumismo. E então
é Natal e o consumismo se apropria de tudo. Dos
símbolos, dos sonhos, dos sentimentos. O espírito
de Natal, coitado, cada vez mais reduzido a presentes
e porres, vai se deprimindo e deixando deprimido quem
esperava que, diante da celebração do nascimento
do Menino, alguma coisa mudasse nas consciências.
Quanta ilusão.
Luzes natalinas enfeitam a cidade – como esta cidade
é bonita, de dia, depois que estiou, de noite,
com suas maravilhas de milhares de brilhos vidrilhos,
para citar outro poeta e outra cidade (Mário de
Andrade, sobre Belo Horizonte). Mas será que as
luzinhas piscando inspiram em alguém o renascimento
ao menos das intenções? Sim, claro que sim.
Desde que Betinho criou o projeto Natal sem Fome, expandido
por todo o país e por todas as classes sociais,
o Natal tem sido época de as pessoas atentarem
para a necessidade de sair de si um pouco. Pensar no outro.
Lições do Menino nascido na manjedoura,
ao ar frio, entre capim seco e animais. Entre pobres e
humildes, reverenciado por três reis, presenteado
com tesouros do Oriente, mas pousado sobre a palha nua.
Cercado por seus pais terrestres, pobres, simples, trabalhadores.
Rodeado por pastores e criaturas simbólicas do
trabalho. Sem acaso, sem casualidade. Intencional. Opção
preferencial explícita.
Por isso deprime os de boa vontade constatar a troca
do Menino pelo Papai Noel, símbolo do presente
material, do comprar, do possuir. Mesmo que em sua origem
o bom velhinho fosse um santinho que gostava de presentear
crianças pobres, ele hoje já não
diz senão do sentido vazio, do vazio de sentido,
de uma data tão importante para a humanidade. Sim,
porque você não precisa ser cristão
para pensar no nascimento do Menino como momento de reflexão
sobre nossa passagem pela Terra. Ele e sua manjedoura.
Ele e sua sina. Ele e seu futuro de amor à humanidade.
Ele e sua doação. Ele e sua cruz. Ele e
sua mensagem.
Bem que o Natal poderia ser o momento de repensar nisso
tudo. Irmanar as pessoas. Os diferentes. Os beligerantes.
Os conflitantes. Irmanar os homens, como sempre deveria
ter sido, em sua finitude e pequenez. O Menino nasceu
e renasce para inspirar essa luz. Essa estrela. Para quem
quiser enxergar.
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