Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Onde estavam todos?
Clara Arreguy, 22/07/2005

Está na moda chamar todo mundo de hipócrita, porque os tempos estão bicudos, mente-se a torto e a direito, quem nunca foi corrupto está sendo flagrado em delito, quem nunca comeu melado caiu de boca na tentação. A confusão em torno das denúncias joga no mesmo saco gente desonesta e gente honesta, como se fosse tudo igual, e ter conta em determinado banco ou freqüentar determinado shopping tornasse todo mundo suspeito. Conhecer alguém, então, pode render processo.

Não sei o que irrita mais no bombardeio de transmissões de CPIs e depoimentos em geral: se a decepção com antigos “heróis”, gente que lutou boa parte da vida para ajudar a construir a democracia no país, e depois a desprezou com a ilusória crença de que os fins justificariam os meios; ou se a cara-de-pau de outros, que nunca fizeram nada pela construção democrática, nunca lutaram, sempre se postaram contrários aos interesses públicos, e agora posam de vestais da moralidade.

Onde estavam essas pessoas quando o país se assombrava com a violência de Estado, com a falta de liberdade, com a censura à imprensa e às artes? Onde estavam quando tantos eram presos, torturados, mortos, desapareciam? Muitos dos que hoje se esbaldam e gozam com a constatação de que, enfim, o poder corrompe, fizeram parte de todas as composições políticas que conduziram sempre ao atraso, ao aprofundamento das distâncias sociais, à elitização do país.

Que muita gente até então de confiança errou feio, decepcionou seus companheiros, eleitores e o país, está comprovado. O baixo astral geral pode ser visto a olho nu. Que os que lhes apontam o dedo são as pessoas indicadas para decretar o fim do sonho de toda uma geração, não. Os sonhos e conquistas cultivados ao longo de décadas são mais fortes, mais profundos e mais perenes que os duros percalços dos sonhadores deste momento. A sujeira é muita, mas os honestos, retos e bem-intencionados seguem sendo maioria, por todo o país. A lama não vai dar conta de levar de roldão o passado e afogar o futuro. A esperança sobreviverá.


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