Onde estavam todos?
Clara Arreguy, 22/07/2005
Está na moda chamar todo mundo de hipócrita,
porque os tempos estão bicudos, mente-se a torto
e a direito, quem nunca foi corrupto está sendo
flagrado em delito, quem nunca comeu melado caiu de boca
na tentação. A confusão em torno
das denúncias joga no mesmo saco gente desonesta
e gente honesta, como se fosse tudo igual, e ter conta
em determinado banco ou freqüentar determinado shopping
tornasse todo mundo suspeito. Conhecer alguém,
então, pode render processo.
Não sei o que irrita mais no bombardeio de transmissões
de CPIs e depoimentos em geral: se a decepção
com antigos “heróis”, gente que lutou
boa parte da vida para ajudar a construir a democracia
no país, e depois a desprezou com a ilusória
crença de que os fins justificariam os meios; ou
se a cara-de-pau de outros, que nunca fizeram nada pela
construção democrática, nunca lutaram,
sempre se postaram contrários aos interesses públicos,
e agora posam de vestais da moralidade.
Onde estavam essas pessoas quando o país se assombrava
com a violência de Estado, com a falta de liberdade,
com a censura à imprensa e às artes? Onde
estavam quando tantos eram presos, torturados, mortos,
desapareciam? Muitos dos que hoje se esbaldam e gozam
com a constatação de que, enfim, o poder
corrompe, fizeram parte de todas as composições
políticas que conduziram sempre ao atraso, ao aprofundamento
das distâncias sociais, à elitização
do país.
Que muita gente até então de confiança
errou feio, decepcionou seus companheiros, eleitores e
o país, está comprovado. O baixo astral
geral pode ser visto a olho nu. Que os que lhes apontam
o dedo são as pessoas indicadas para decretar o
fim do sonho de toda uma geração, não.
Os sonhos e conquistas cultivados ao longo de décadas
são mais fortes, mais profundos e mais perenes
que os duros percalços dos sonhadores deste momento.
A sujeira é muita, mas os honestos, retos e bem-intencionados
seguem sendo maioria, por todo o país. A lama não
vai dar conta de levar de roldão o passado e afogar
o futuro. A esperança sobreviverá.
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