Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Na cidade sem carro
Clara Arreguy, 22/09/2005

Enquanto se dividem entre a perplexidade, a omissão e a falta de palavras diante dos novos fatos da conjuntura política, alguns intelectuais já começam a se posicionar, propondo ou aderindo a seminários e debates em torno do tema. O importante, neste momento, seria que as cabeças pensantes recusassem as investidas da ditadura do pensamento único, que insistem na falência das utopias, no fim da história e em outras falácias ideológicas, como se o que restasse, com as crises generalizadas, não fosse algo igualmente falido.

Falei difícil? Deixa pra lá. O que me suscita essa reflexão é um outro dado do pensamento único, a ideologia do automóvel sobre todas as coisas. Não digo nem que o transporte público, caso priorizado e defendido como convém, seria mais racional, lógico, econômico e ecológico. Lembro apenas que hoje, dia 22 de setembro, em diversas cidades do mundo, se promove a Jornada Internacional na Cidade Sem Meu Carro.

Trata-se de um projeto que vem se estendendo por vários países – do Canadá e Argentina a alguns europeus; do Japão ao Brasil, onde mais de 70 municípios, entre os quais Belo Horizonte, Fortaleza, São Luís, Florianópolis e Salvador, já aderiram. A campanha consiste em (com apoio de governos municipais) fechar algumas ruas e avenidas para estimular que, em determinado dia, se saia de casa sem carro. A pé ou de bicicleta.

Para a maioria das pessoas, em especial em cidades como Brasília, de deficiente sistema de transporte público, a iniciativa é simplesmente impensável. Mas, se considerarmos o ganho em saúde, em economia de recursos energéticos, em despoluição atmosférica e tantos outros, a quimera não morará tão longe.

O automóvel na sociedade globalizada vai além da ideologia do progresso tecnológico. Representa status, poder, cultura de eficácia, rapidez e ascensão social. É compreensível que os jovens sequer cogitem viver sem ele, que mulheres se sintam independentes, que signifique conquista pessoal dos adultos. Aos poucos, no entanto, como toda idéia nova, revolucionária, haverá um tempo em que o que parece absurdo passe a ser admitido como hipótese, e depois como viabilidade.

Um dia, quem sabe, como toda utopia, o carro individual, veloz e violento possa perder seu lugar icônico de deus ex-machina e retorne à sua insignificância.


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