Matérias jornalísticas
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Para reinventar o Brasil
Clara Arreguy, 27/01/06
Correio Braziliense

Sai em DVD a série de documentários sobre o povo brasileiro, obra-prima
de Darcy Ribeiro que discute as
origens e o sentido do país


De todas as riquezas do país – natureza exuberante, território continental, biodiversidade única no mundo, recursos minerais inesgotáveis, água abundante, florestas a perder de vista, milhares de quilômetros de litoral –, a maior de todas leva o nome do principal livro de Darcy Ribeiro: O povo brasileiro. De tudo o que o antropólogo, educador e escritor fez em vida, nada teve a grandeza de seu estudo sobre a formação e a vocação do nosso povo, subestimado historicamente pelas elites e, mesmo assim, bonito, alegre e sábio. Pois foi esse livro que gerou um dos mais belos documentários produzidos para a televisão brasileira, homônimo, e que ganha agora versão em DVD.

Em dois discos, estão contidos os 10 programas O povo brasileiro, exibidos originalmente pelo canal pago GNT, em 2000. São programas curtos, de 25 minutos cada, em que história e sociologia se mesclam para falar da alma do país – com informações, análises e, sobretudo, paixão. Se alguém tinha dúvida sobre quem somos, de onde viemos e para aonde vamos, os documentários descortinam um mundo de possibilidades, todas enriquecedoras. Impossível sair de frente da tevê sem ver acesa, ou reacesa, a esperança em que o Brasil pode dar certo. Afinal, tudo, no livro e nos programas, conduz ao desafio amoroso lançado pelo próprio Darcy Ribeiro: é preciso reinventar o país. Para construirmos o Brasil que dê certo, precisamos apostar na nossa potencialidade e vocação.

Os documentários foram dirigidos por Isa Grinspum Ferraz, especialista em projetos educacionais que, enquanto Darcy Ribeiro era vivo, trabalhou como assistente dele. Além da beleza visual dos programas, que exploram o que há de mais exuberante em todas as regiões do país, do Nordeste à Amazônia, dos Pampas ao Pantanal, do sertão à zona da mata e às cidades, toda a produção é cuidadosa e pautada pela excelência. A música original foi composta por Marco Antônio Guimarães (do grupo Uakti). Chico Buarque tem participação especial em todos os programas, lendo trechos da obra-prima de Darcy Ribeiro. A narração é de Matheus Nachtergaele. A abertura conta com desenhos de Siron Franco.

Em vários programas, sociólogos, historiadores e outros estudiosos comentam os temas: Antonio Candido, Aziz Ab’Saber, Gilberto Felizberto Vasconcellos, Roberto Pinho, Judith Cortesão, Ariano Suassuna, Paulo Vanzolini. São citados textos de Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Fernando Pessoa. Cenas de filmes de ficção ou documentários, brasileiros ou não, ilustram a narrativa, num conjunto farto em informações e belas imagens. Artistas, como Tom Zé, Gilberto Gil, Luiz Melodia, aparecem cantando ou declamando. E mais uma infinidade dá as caras, em cenas de arquivo, casos de Clementina de Jesus, Lupicínio Rodrigues, Luiz Gonzaga, Cartola, Nelson Sargento.

Os depoimentos de Darcy Ribeiro foram gravados em 1995, dois anos antes de sua morte.


O povo brasileiro

Conjunto de 10 programas baseados na obra de Darcy Ribeiro, reunidos em dois discos, com duração total de 260min. Direção de Isa Grinspum Ferraz. O DVD e o jogo de fitas em VHS podem ser adquiridos na Cinematográfica Superfilmes (fone 11.3031-5522 ou super@superfilmes.com.br), em São Paulo, ou na Fundação Darcy Ribeiro (fundar@alternex.com.br), no Rio de Janeiro.

Todos os programas:

1) Matriz indígena
Mostra como viviam os índios no continente antes da chegada dos portugueses: em harmonia com natureza, com sabedoria para lidar com os elementos e auto-suficiência para sua manutenção.

2) Matriz portuguesa
A história da Ibéria revela como Portugal foi um dos mais antigos países a se consolidar. E como, restritos a uma faixa de terra cercada pelo mar, os portugueses tiveram que se expandir para além-mar.

3) Matriz afro
Toda a trajetória do continente, antes do início do tráfico de negros para o novo mundo, onde formariam o contingente de escravos que faria a riqueza de países como o Brasil.

4) Encontros e desencontros
A chegada dos portugueses provoca choques violentos e também fusões amorosas. Os povos se misturam, ora à força ora com consentimento, gerando uma nova raça e falando uma nova língua.

5) Brasil crioulo
A população mestiça surgida do encontro entre negros, portugueses e índios originou uma cultura riquíssima. Porém, perpetuam-se os problemas vividos pelos afro-descendentes após o fim da escravidão.

6) Brasil sertanejo
O criador de gado, no sertão, principalmente no Nordeste, herdou características arcaicas da cultura lusitana, mas também a riqueza de uma cultura viva e marcada pela alegria.

7) Brasil caipira
O homem interiorano das regiões Sudeste e Centro-Oeste (mais o interior do Paraná) possui uma cultura às vezes pejorativamente chamada de caipira, mas, em suas raízes, de valor incontestável.

8) Brasil sulino
O gaúcho e os povos formados pela imigração portuguesa, européia, negra e indígena no Sul do país foram fortemente influenciados pela ação dos missionários jesuítas e criou expressões culturais muito próprias.

9) Brasil caboclo
C om forte origem indígena, os habitantes da Amazônia harmonizam natureza e tecnologia, mas enfrentam problemas com o latifúndio, o desmatamento e a perda do conhecimento ancestral.

10) Invenção do Brasil
O povo formado pela doçura lusitana, a vitalidade africana e a magia indígena não possui teorias que o expliquem, e no entanto reclama que o país construa seu caminho, em toda sua originalidade.


Tradutor da alma nacional

O antropólogo, educador e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997) nasceu em Montes Claros (MG). Ao lado de Gilberto Freyre (Casa-grande e senzala) e Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), escreveu uma das obras-chave para a compreensão do país, O povo brasileiro. São dele também trabalhos sobre a América Latina, o século 20, a civilização ocidental; e o romance Maíra, marco na ficção centrada na questão dos indígenas (objeto também de seus estudos). Fundou a Universidade de Brasília (UnB),da qual foi o primeiro reitor, antes do golpe militar, e criou,no Rio de Janeiro, os Centros Integrados de Educação Popular (os Cieps),no governo de Leonel Brizola. Foi ministro da Educação, vice-governador e secretário de Cultura no Rio, dando sua contribuição de saudável visionário para a construção de projetos populares nos âmbitos da educação, cultura, meio ambiente e patrimônio. Morreu de câncer, aos 75 anos.


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