Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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A sociedade amadurece
Clara Arreguy, 27/10/2005

A eterna oposição entre juventude e maturidade cada dia mais se mostra ultrapassada. Ainda que a sociedade siga enaltecendo as vantagens de ser jovem, os modelos de beleza associados à pouca idade e os padrões de valor considerando ruim o velho, os sinais opostos também se fazem ver. É o caso de algumas investidas da propaganda que, mesmo propondo ajudar a envelhecer cada vez mais devagar, reconhecem os atrativos de homens e mulheres com mais de 30, 40, 50 anos, e mais, muito mais.

Se os índios e outras sociedades mais “primitivas” já reconheciam seus anciãos como repositórios do conhecimento do grupo, hoje a sociedade “evoluída” começa a descobrir que velhos, idosos, terceira idade ou “melhor idade” são o destino que, se Deus quiser e a saúde permitir, todos miramos e queremos alcançar.

O Brasil envelhece, mas, o que é melhor, amadurece. Basta ver o processo do referendo que acaba de acabar. Por mais que as análises divirjam sobre o que significou o voto majoritário no não, inclusive com gente que tem certeza de que muitos eleitores erraram e votaram numa coisa pensando votar na outra, o processo, em si, revela maturidade.

Considerado extemporâneo diante da avalanche de crises que assola o país há meses, o desarmamento tornou-se, por força do processo eleitoral, tema de conversas, debates, discussões acaloradas, formal ou informalmente. O auditório do Correio ficou lotado, com torcidas e tudo. Na internet, grupos de discussão trocaram dezenas de argumentos contra e a favor. Todo mundo palpitando, se conscientizando de que, para bem ou para mal, sua opinião seria importante e faria diferença.

Um bom termômetro em toda eleição pode ser aferido nos pontos de ônibus e dentro dos táxis. Conversa vai, conversa vem, o assunto se encaminha para o processo em curso. Desta vez não foi diferente. O brasileiro se politiza a cada dia, se investe da posição de agente, ator de seu destino e do futuro da nação. Amadurece, portanto. Aprende que o Estado não será o grande pai, a lhe prover solução para tudo, mas um representante que cabe a ele, eleitor, adulto, fiscalizar, investir de autoridade ou desautorizar, quando assim quiser. E que qualquer rumo será sempre de sua responsabilidade.


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