A sociedade amadurece
Clara Arreguy, 27/10/2005
A eterna oposição entre juventude
e maturidade cada dia mais se mostra ultrapassada. Ainda
que a sociedade siga enaltecendo as vantagens de ser jovem,
os modelos de beleza associados à pouca idade e
os padrões de valor considerando ruim o velho,
os sinais opostos também se fazem ver. É
o caso de algumas investidas da propaganda que, mesmo
propondo ajudar a envelhecer cada vez mais devagar, reconhecem
os atrativos de homens e mulheres com mais de 30, 40,
50 anos, e mais, muito mais.
Se os índios e outras sociedades mais “primitivas”
já reconheciam seus anciãos como repositórios
do conhecimento do grupo, hoje a sociedade “evoluída”
começa a descobrir que velhos, idosos, terceira
idade ou “melhor idade” são o destino
que, se Deus quiser e a saúde permitir, todos miramos
e queremos alcançar.
O Brasil envelhece, mas, o que é melhor, amadurece.
Basta ver o processo do referendo que acaba de acabar.
Por mais que as análises divirjam sobre o que significou
o voto majoritário no não, inclusive com
gente que tem certeza de que muitos eleitores erraram
e votaram numa coisa pensando votar na outra, o processo,
em si, revela maturidade.
Considerado extemporâneo diante da avalanche de
crises que assola o país há meses, o desarmamento
tornou-se, por força do processo eleitoral, tema
de conversas, debates, discussões acaloradas, formal
ou informalmente. O auditório do Correio ficou
lotado, com torcidas e tudo. Na internet, grupos de discussão
trocaram dezenas de argumentos contra e a favor. Todo
mundo palpitando, se conscientizando de que, para bem
ou para mal, sua opinião seria importante e faria
diferença.
Um bom termômetro em toda eleição
pode ser aferido nos pontos de ônibus e dentro dos
táxis. Conversa vai, conversa vem, o assunto se
encaminha para o processo em curso. Desta vez não
foi diferente. O brasileiro se politiza a cada dia, se
investe da posição de agente, ator de seu
destino e do futuro da nação. Amadurece,
portanto. Aprende que o Estado não será
o grande pai, a lhe prover solução para
tudo, mas um representante que cabe a ele, eleitor, adulto,
fiscalizar, investir de autoridade ou desautorizar, quando
assim quiser. E que qualquer rumo será sempre de
sua responsabilidade.
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