Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Cenas dos próximos capítulos
Clara Arreguy, 29/07/2005

Da tela brilhante da "máquina de fazer loucos", como já foi chamada a televisão em tempos mais críticos e (acreditem!) mais assustadores, o simpático casal troca juras de desamor: "Fernanda Karina, meu bem, não faça isso comigo". "Marcos Valério, seu traidor, você vai ver o que farei…" De repente, entra em cena outra personagem, que ainda não havia dado as caras: Renilda, a outra, ou melhor, a titular. Esposa exemplar, defende o marido dos ataques que vem sofrendo e ainda ajuda a co-responsabilizar outro alguém de nome duplo, José Dirceu.

O novelário nacional segue assim, com transmissões dia e noite pelos canais de tevê até então menos votados, e misturando lances de ficção delirante com a crueza das revelações mais sórdidas. No afã de aparecer, alguns coadjuvantes se dão ares de protagonistas. Falam alto, esperneiam, berram, mas muitas vezes, nessa hora, a audiência já foi dormir. Às vezes nem o próprio antagonista, depoente guindado à condição de suspeito, consegue manter os olhos abertos e cochila a ronco solto.

Está certo que o país amadureceu e já não engole as trambiques e falsidades que aceitava no passado, mas como o brasileiro não perdeu o sendo de humor e o jeitinho que é só seu, as piadas já se multiplicam. Na internet, pode-se encontrar uma fotomontagem de Renilda de biquíni, a dona de casa ideal ("lava dinheiro como ninguém") ou o perfil sentimental de Marcos Valério, cujo ponto forte seriam os cabelos. Perde-se o inimigo mas não se perde a piada. O que demonstra também que o estender-se de investigações, que muito levantam em denúncias e pouco de provas, está cansando a platéia. O ibope despenca, as pessoas estão mudando de canal. E ainda se aquece em forno gigante uma megapizza que pode sair quentinha ou ser servida para viagem – de preferência para alguma ilha ou paraíso fiscal.

Quem ficar e agüentar a barra da execração e responsabilidade, desmascaramento e punição, quem suportar o empuxo e for o último a apagar a luz do aeroporto, vai descobrir que joio e trigo, muitas vezes, são ingredientes da mesma iguaria. Italiana, meia mozarela, meia calabresa.


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