Cenas dos próximos capítulos
Clara Arreguy, 29/07/2005
Da tela brilhante da "máquina de fazer loucos",
como já foi chamada a televisão em tempos
mais críticos e (acreditem!) mais assustadores,
o simpático casal troca juras de desamor: "Fernanda
Karina, meu bem, não faça isso comigo".
"Marcos Valério, seu traidor, você vai
ver o que farei…" De repente, entra em cena
outra personagem, que ainda não havia dado as caras:
Renilda, a outra, ou melhor, a titular. Esposa exemplar,
defende o marido dos ataques que vem sofrendo e ainda
ajuda a co-responsabilizar outro alguém de nome
duplo, José Dirceu.
O novelário nacional segue assim, com transmissões
dia e noite pelos canais de tevê até então
menos votados, e misturando lances de ficção
delirante com a crueza das revelações mais
sórdidas. No afã de aparecer, alguns coadjuvantes
se dão ares de protagonistas. Falam alto, esperneiam,
berram, mas muitas vezes, nessa hora, a audiência
já foi dormir. Às vezes nem o próprio
antagonista, depoente guindado à condição
de suspeito, consegue manter os olhos abertos e cochila
a ronco solto.
Está certo que o país amadureceu e já
não engole as trambiques e falsidades que aceitava
no passado, mas como o brasileiro não perdeu o
sendo de humor e o jeitinho que é só seu,
as piadas já se multiplicam. Na internet, pode-se
encontrar uma fotomontagem de Renilda de biquíni,
a dona de casa ideal ("lava dinheiro como ninguém")
ou o perfil sentimental de Marcos Valério, cujo
ponto forte seriam os cabelos. Perde-se o inimigo mas
não se perde a piada. O que demonstra também
que o estender-se de investigações, que
muito levantam em denúncias e pouco de provas,
está cansando a platéia. O ibope despenca,
as pessoas estão mudando de canal. E ainda se aquece
em forno gigante uma megapizza que pode sair quentinha
ou ser servida para viagem – de preferência
para alguma ilha ou paraíso fiscal.
Quem ficar e agüentar a barra da execração
e responsabilidade, desmascaramento e punição,
quem suportar o empuxo e for o último a apagar
a luz do aeroporto, vai descobrir que joio e trigo, muitas
vezes, são ingredientes da mesma iguaria. Italiana,
meia mozarela, meia calabresa.
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