Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Desabafo de uma sem-carro
Clara Arreguy, 2/06/2005

“Sem carro, você não vai sobreviver em Brasília.” Com esse vaticínio, cheguei a esta cidade há um ano, disposta a enfrentar um lugar que, rezava a lenda, fora construído não para animais bípedes, mas para seres sobre quatro rodas. Um lugar onde, em vez de ruas, havia um autódromo. Um lugar onde eu me dispunha a viver e andar, sem carro.

Passado um ano, nem morri nem comprei carro. Consegui morar perto do trabalho e ir a pé, me transportar quase nunca de ônibus, bastante de táxi e em caronas de boa vontade. Às vezes percorrendo sozinha caminhos retos, de fácil acesso sobre pernas ou duas rodas, embora pouco vendo de bicicletas pelas ruas.

Um dia, conversando com um taxista, ele me indagou, indignado: “Mas como a senhora não tem carro?”, como se tivesse ouvido o maior absurdo. Com o estopim curto na hora, por causa de outros problemas, desabafei: “Não tenho carro e não gastei R$ 20, 30 mil comprando carro. Não troco carro todo ano. Não pago IPVA, CID, seguro obrigatório, seguro opcional. Não abasteço, não furo pneu, não vou ao mecânico, não troco o óleo, não verifico a água, não aperto a rebimboca da parafuseta. Não estaciono, não procuro vaga, não pago a tomador de conta, o lavador de carro, não pago hora ou fração no estacionamento. Não ando no escuro procurando o carro à noite, com medo de quem me espera escondido. Não olho pros lados com pavor quando chego em casa tarde. Não me preocupo se vou ou não beber na festa. Não tenho uma segunda família. E ainda garanto o seu emprego, meu amigo”.

É claro que esse tipo de solução não me serviria se tivesse que levar menino pra escola, por exemplo. É claro que sei que o transporte coletivo aqui é péssimo, o serviço de táxi ruim, com frota velha e corridas caras. Os serviços mais baratos são demorados, os eficientes, caros. Mas trata-se de opção que se faz ao longo da vida, sem pregar que tem que ser assim para todos. Mas que dá para sobreviver, isso dá. E se não desse, a história seria diferente. Da minha parte, sigo andando, nem sempre com facilidade, mas dando vivas à possibilidade da diferença.


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