Desabafo de uma sem-carro
Clara Arreguy, 2/06/2005
“Sem carro, você não vai sobreviver
em Brasília.” Com esse vaticínio,
cheguei a esta cidade há um ano, disposta a enfrentar
um lugar que, rezava a lenda, fora construído não
para animais bípedes, mas para seres sobre quatro
rodas. Um lugar onde, em vez de ruas, havia um autódromo.
Um lugar onde eu me dispunha a viver e andar, sem carro.
Passado um ano, nem morri nem comprei carro. Consegui
morar perto do trabalho e ir a pé, me transportar
quase nunca de ônibus, bastante de táxi e
em caronas de boa vontade. Às vezes percorrendo
sozinha caminhos retos, de fácil acesso sobre pernas
ou duas rodas, embora pouco vendo de bicicletas pelas
ruas.
Um dia, conversando com um taxista, ele me indagou, indignado:
“Mas como a senhora não tem carro?”,
como se tivesse ouvido o maior absurdo. Com o estopim
curto na hora, por causa de outros problemas, desabafei:
“Não tenho carro e não gastei R$ 20,
30 mil comprando carro. Não troco carro todo ano.
Não pago IPVA, CID, seguro obrigatório,
seguro opcional. Não abasteço, não
furo pneu, não vou ao mecânico, não
troco o óleo, não verifico a água,
não aperto a rebimboca da parafuseta. Não
estaciono, não procuro vaga, não pago a
tomador de conta, o lavador de carro, não pago
hora ou fração no estacionamento. Não
ando no escuro procurando o carro à noite, com
medo de quem me espera escondido. Não olho pros
lados com pavor quando chego em casa tarde. Não
me preocupo se vou ou não beber na festa. Não
tenho uma segunda família. E ainda garanto o seu
emprego, meu amigo”.
É claro que esse tipo de solução
não me serviria se tivesse que levar menino pra
escola, por exemplo. É claro que sei que o transporte
coletivo aqui é péssimo, o serviço
de táxi ruim, com frota velha e corridas caras.
Os serviços mais baratos são demorados,
os eficientes, caros. Mas trata-se de opção
que se faz ao longo da vida, sem pregar que tem que ser
assim para todos. Mas que dá para sobreviver, isso
dá. E se não desse, a história seria
diferente. Da minha parte, sigo andando, nem sempre com
facilidade, mas dando vivas à possibilidade da
diferença.
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