Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Privacidade na vida pública
Clara Arreguy, 31/03/2005

Qual é o limite da privacidade alheia? O que, na vida das pessoas públicas, possui interesse público, o que deve confinar-se ao direito de privacidade? Essas e outras questões nos assaltam cotidianamente, ainda mais quando esbarramos em debates como a agonia pública de figuras como o Papa João Paulo II e a pobre Terri Schiavo. Ele, pela posição que ocupa, uma das pessoas mais importantes do mundo; ela, indivíduo tornado objeto de disputa, bandeira de luta pró e contra a eutanásia, planta a deixar morrer de inanição e sede.

No início dos anos 90, pouco antes de morrer, o roqueiro Cazuza aparecia em eventos em cadeira de rodas, depauperado pela doença, e foi capa de uma revista, que manchetou: “Um ídolo agoniza em praça pública”. Houve protestos, gritas, mas a notícia era correta e a abordagem dava destaque a alguém público, que expunha sua doença e sofrimento abertamente.

Muitos artistas se queixam da invasão de privacidade, outros fingem não querer ser invadidos, mas acabam divulgando fatos que só seriam da conta deles mesmos, se assim o quisessem. Quando a pessoa vai ao Faustão ou ao Fantástico contar que está grávida, que vai se casar; quando marca com os cinegrafistas a hora do parto ou da cirurgia, está se expondo e convidando à fratura dos limites da sua privacidade. Muitos fazem assim. Muitos pagam para entrar num Big Brother e ter até suas abluções matinais devassadas por câmeras.

A imprensa erra muito, às vezes persegue parentes de famosos que não gostariam disso, mas nem sempre desempenha sozinha o papel de vampira da vida alheia. A demanda do leitor, num círculo vicioso (se eu não der o que ele quer, ele vai procurar em outro jornal), impele a mídia a avançar sobre temas que os próprios jornalistas podem achar supérfluos, mas crêem inevitáveis.

Uma coisa é certa: a grande maioria dos artistas, jogadores de futebol, políticos e outras figuras públicas quer e preserva sua privacidade. Está nas mãos deles responder ou não a perguntas indiscretas, reservar ao circuito privado suas relações pessoais, sua intimidade. Quem quer sabe como aparecer. Quem não quer, também. Os melhores e mais sérios em todas as profissões estão a anos-luz de distância dos medíocres, dos que precisam trocar o assunto de sua profissão pelas próprias entranhas para obter a luz dos refletores.


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