Privacidade na vida pública
Clara Arreguy, 31/03/2005
Qual é o limite da privacidade alheia? O que,
na vida das pessoas públicas, possui interesse
público, o que deve confinar-se ao direito de privacidade?
Essas e outras questões nos assaltam cotidianamente,
ainda mais quando esbarramos em debates como a agonia
pública de figuras como o Papa João Paulo
II e a pobre Terri Schiavo. Ele, pela posição
que ocupa, uma das pessoas mais importantes do mundo;
ela, indivíduo tornado objeto de disputa, bandeira
de luta pró e contra a eutanásia, planta
a deixar morrer de inanição e sede.
No início dos anos 90, pouco antes de morrer,
o roqueiro Cazuza aparecia em eventos em cadeira de rodas,
depauperado pela doença, e foi capa de uma revista,
que manchetou: “Um ídolo agoniza em praça
pública”. Houve protestos, gritas, mas a
notícia era correta e a abordagem dava destaque
a alguém público, que expunha sua doença
e sofrimento abertamente.
Muitos artistas se queixam da invasão de privacidade,
outros fingem não querer ser invadidos, mas acabam
divulgando fatos que só seriam da conta deles mesmos,
se assim o quisessem. Quando a pessoa vai ao Faustão
ou ao Fantástico contar que está grávida,
que vai se casar; quando marca com os cinegrafistas a
hora do parto ou da cirurgia, está se expondo e
convidando à fratura dos limites da sua privacidade.
Muitos fazem assim. Muitos pagam para entrar num Big Brother
e ter até suas abluções matinais
devassadas por câmeras.
A imprensa erra muito, às vezes persegue parentes
de famosos que não gostariam disso, mas nem sempre
desempenha sozinha o papel de vampira da vida alheia.
A demanda do leitor, num círculo vicioso (se eu
não der o que ele quer, ele vai procurar em outro
jornal), impele a mídia a avançar sobre
temas que os próprios jornalistas podem achar supérfluos,
mas crêem inevitáveis.
Uma coisa é certa: a grande maioria dos artistas,
jogadores de futebol, políticos e outras figuras
públicas quer e preserva sua privacidade. Está
nas mãos deles responder ou não a perguntas
indiscretas, reservar ao circuito privado suas relações
pessoais, sua intimidade. Quem quer sabe como aparecer.
Quem não quer, também. Os melhores e mais
sérios em todas as profissões estão
a anos-luz de distância dos medíocres, dos
que precisam trocar o assunto de sua profissão
pelas próprias entranhas para obter a luz dos refletores.
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