Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Lições amorosas
Clara Arreguy, 4/11/2005

Em sua passagem pelo Brasil para lançar seu novo romance, As intermitências da morte, José Saramago, como de hábito, foi pródigo em aulas de cultura, política e, sobretudo, em lições de amor. Não apenas por sua literatura, de qualidade inquestionável – haja vista o prêmio Nobel de 1998. Não apenas pela repercussão de suas declarações, sempre incisivas.

Aos 83 anos, Saramago continua a ser um homem amoroso. Basta ver a dedicatória do romance à mulher, Pilar, “minha casa”, uma linda declaração de amor. Mas também por todas as opiniões desprendidas que tem para falar do tema do livro, a morte. E, principalmente, pelo humanismo que expressa no posicionamento político.

Quando analisa a decepção com o Brasil de Lula por causa do pagamento da dívida externa contra o investimento social, o escritor português fala de uma preocupação que extrapola os interesses miúdos dos partidos em constante embate com o governo. Quando fala que ver o PT contaminado pela corrupção, mal global que ele não esperava ver enlamear tudo em volta, não se limita a uma disputa ou combate localizado.

O mais interessante nas considerações que Saramago fez no Brasil diz respeito à crise nas esquerdas em todo o mundo. Para ele, a crise vem de longe e não se resume a um partido ou país. A falta de novas idéias, capazes de uma leitura contemporânea da realidade, seria o xis da questão. O abandono de princípios claros em favor de políticas de centro-esquerda com interesses táticos, imediatistas, seria, para ele, um nó.

São opiniões até senso comum para um comunista, mas revelam integridade, coerência, respeito à trajetória de uma vida. Qualidades que andam em falta no mercado.

O humanismo, em Saramago, reveste-se de uma postura sempre amorosa. É assim com seus personagens (que abraçam igualmente o amor de casal, entre pai e filha, até entre homem e animal, como é comum em seus livros), e também com sua figura. Um homem idoso mas de alma jovem, espírito combativo e cheio de amor à humanidade.


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