Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Na idade da juventude
Clara Arreguy, 5/08/2005

Tenha a idade que tiver, você só sente o famoso “peso dos anos” quando se olha no espelho e rastreia rugas e cãs. Fora isso, você tem a idade que sente por dentro. E você se sente jovem. Não entende por que nossa cultura não evolui do culto à eterna juventude para o respeito à experiência adquirida, à valia do conhecimento e da força dos mais velhos. Entende que o valor de ser jovem esteja no espírito, não no corpo sujeito à inexorável ação do tempo.

Mas você é jovem e se sente bem, não sofre porque, agora, a chamam de “dona” ou “tia”, não mais de “moça” e “menina”. Aceita mudanças, o mais necessário para manter-se viva e feliz, ainda que o mundo vá se transformando e nada seja mais como era “no seu tempo”. Sabe que no seu tempo não havia tantos problemas, havia outros. E não havia tanta solução. Os avanços, esses também são inexoráveis, e você os abraça, que venham!

Você se mantém capaz de rir e de levar a vida como brincadeira, jogo e festa, reconhecendo que seriedade também pode ser isso. Sisudez nunca foi com você. Aliás, suas rugas de envelhecimento só aparecem de verdade quando você fecha o cenho e perde o bom humor. Seu sorriso é o atestado de juventude que a vida lhe deu. Ao abri-lo, faz sair o sol de trás das nuvens, rasga o dia, ilumina o mundo.

Por isso você ama, canta, dança, bebe (ok, com moderação, que o fígado de ninguém dura para sempre), sai de casa, enfrenta o tempo, a distância, encara desafios. Lá fora, o planeta gira e não te encontra sempre no mesmo lugar – desde os tempos dos Beatles e dos Rolling Stones você aprendeu que pedra que rola não cria musgo. E que a fila anda. E que o futuro está à frente, depois daquela curva, não no conforto de seu casulo superprotegido.

Só uma coisa a tira do sério e entristece: ver tanta gente mais nova que você sem espírito de luta. Conviver com preconceito e medo, com intolerância e inflexibilidade, com o desânimo diante dos primeiros percalços. E como possui espírito guerreiro e mutante (outra herança de um contemporâneo seu, Raul Seixas, “metamorfose ambulante”), quer seguir correndo e passar o bastão, sem deixar a peteca cair. Estender o braço e não encontrar a mão que irá tocar a sua e seguir adiante a frustra, mas você não esmorece. O caminho faz curva, toma outro rumo, e você ainda corre. Pulmões a toda, pernas pesando, o coração aos pulos. “Vida, aqui vou eu”, você diz. E vai.


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