Na idade da juventude
Clara Arreguy, 5/08/2005
Tenha a idade que tiver, você só sente o
famoso “peso dos anos” quando se olha no espelho
e rastreia rugas e cãs. Fora isso, você tem
a idade que sente por dentro. E você se sente jovem.
Não entende por que nossa cultura não evolui
do culto à eterna juventude para o respeito à
experiência adquirida, à valia do conhecimento
e da força dos mais velhos. Entende que o valor
de ser jovem esteja no espírito, não no
corpo sujeito à inexorável ação
do tempo.
Mas você é jovem e se sente bem, não
sofre porque, agora, a chamam de “dona” ou
“tia”, não mais de “moça”
e “menina”. Aceita mudanças, o mais
necessário para manter-se viva e feliz, ainda que
o mundo vá se transformando e nada seja mais como
era “no seu tempo”. Sabe que no seu tempo
não havia tantos problemas, havia outros. E não
havia tanta solução. Os avanços,
esses também são inexoráveis, e você
os abraça, que venham!
Você se mantém capaz de rir e de levar a
vida como brincadeira, jogo e festa, reconhecendo que
seriedade também pode ser isso. Sisudez nunca foi
com você. Aliás, suas rugas de envelhecimento
só aparecem de verdade quando você fecha
o cenho e perde o bom humor. Seu sorriso é o atestado
de juventude que a vida lhe deu. Ao abri-lo, faz sair
o sol de trás das nuvens, rasga o dia, ilumina
o mundo.
Por isso você ama, canta, dança, bebe (ok,
com moderação, que o fígado de ninguém
dura para sempre), sai de casa, enfrenta o tempo, a distância,
encara desafios. Lá fora, o planeta gira e não
te encontra sempre no mesmo lugar – desde os tempos
dos Beatles e dos Rolling Stones você aprendeu que
pedra que rola não cria musgo. E que a fila anda.
E que o futuro está à frente, depois daquela
curva, não no conforto de seu casulo superprotegido.
Só uma coisa a tira do sério e entristece:
ver tanta gente mais nova que você sem espírito
de luta. Conviver com preconceito e medo, com intolerância
e inflexibilidade, com o desânimo diante dos primeiros
percalços. E como possui espírito guerreiro
e mutante (outra herança de um contemporâneo
seu, Raul Seixas, “metamorfose ambulante”),
quer seguir correndo e passar o bastão, sem deixar
a peteca cair. Estender o braço e não encontrar
a mão que irá tocar a sua e seguir adiante
a frustra, mas você não esmorece. O caminho
faz curva, toma outro rumo, e você ainda corre.
Pulmões a toda, pernas pesando, o coração
aos pulos. “Vida, aqui vou eu”, você
diz. E vai.
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