Furos e barrigas no jornal
Clara Arreguy, 8/04/2005
Na sexta-feira passada, no meio da tarde, correu forte
o boato de que o Papa havia morrido. Faltava a confirmação
do Vaticano, mas algumas agências internacionais,
na ânsia de “furar”, sair na frente
da concorrência, correram a dar em primeira mão
a notícia. Não era verdade. O Papa veio
a morrer 25 horas depois, na tarde de sábado. Os
jornais, nos últimos dias, já vinham se
adiantando ao fato consumado e preparando material sobre
ele, talvez a pessoa mais importante do planeta nas últimas
décadas.
Na verdade, material de arquivo e pesquisa já
vinha sendo produzido desde meados dos anos 90, quando
a saúde de João Paulo II começou
a declinar. Por isso os jornais de domingo puderam lançar
grandes cadernos, com tudo sobre a vida do Papa, suas
viagens, o processo sucessório. Em jornalismo,
isso é normal e recomendável. Pode parecer
funesto produzir obituário de gente viva, mas se
formos deixar tudo para a última hora, a conseqüência
será um resultado pior. Planejamento e antecedência
só ajudam. O que não podemos é atropelar
os fatos e antecipá-los indevidamente. Como fizeram
as agências que noticiaram a morte de quem estava
vivo. Isso no jargão se chama “barriga”.
Já aconteceu, em Belo Horizonte, em priscas eras.
Certo cronista esportivo, ansioso por ir ao encontro da
noiva, trocou a cobertura de um jogo de futebol pelos
beijinhos da moça. Deixou pronta a crônica,
sem imaginar que o toró que despencou sobre a cidade
iria levar ao cancelamento da partida. Resultado: a peleja
que não aconteceu foi narrada no jornal do dia
seguinte, com comentários evasivos, do tipo “o
resultado fez justiça ao que as equipes apresentaram
em campo, à tradição de cada uma”
etc. etc.
O risco de uma barriga dessas, até folclórica,
ainda existe. Daí a importância de checar
quantas vezes forem necessárias, nunca fechar uma
edição sem que todas as informações
estejam comprovadas. Ouvir os dois (ou mais) lados da
notícia segue sendo regra de ouro. Muitas vezes
um dos lados não quer se fazer ouvir, acha mais
conveniente silenciar sobre uma acusação
do que se defender, na crença de que fará
menos barulho. Mas o dever de informar, o compromisso
com o leitor, obriga o repórter investigar, para
não permitir que o desejo de silêncio prevaleça
sobre o direito à informação.
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