Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Furos e barrigas no jornal
Clara Arreguy, 8/04/2005

Na sexta-feira passada, no meio da tarde, correu forte o boato de que o Papa havia morrido. Faltava a confirmação do Vaticano, mas algumas agências internacionais, na ânsia de “furar”, sair na frente da concorrência, correram a dar em primeira mão a notícia. Não era verdade. O Papa veio a morrer 25 horas depois, na tarde de sábado. Os jornais, nos últimos dias, já vinham se adiantando ao fato consumado e preparando material sobre ele, talvez a pessoa mais importante do planeta nas últimas décadas.

Na verdade, material de arquivo e pesquisa já vinha sendo produzido desde meados dos anos 90, quando a saúde de João Paulo II começou a declinar. Por isso os jornais de domingo puderam lançar grandes cadernos, com tudo sobre a vida do Papa, suas viagens, o processo sucessório. Em jornalismo, isso é normal e recomendável. Pode parecer funesto produzir obituário de gente viva, mas se formos deixar tudo para a última hora, a conseqüência será um resultado pior. Planejamento e antecedência só ajudam. O que não podemos é atropelar os fatos e antecipá-los indevidamente. Como fizeram as agências que noticiaram a morte de quem estava vivo. Isso no jargão se chama “barriga”.

Já aconteceu, em Belo Horizonte, em priscas eras. Certo cronista esportivo, ansioso por ir ao encontro da noiva, trocou a cobertura de um jogo de futebol pelos beijinhos da moça. Deixou pronta a crônica, sem imaginar que o toró que despencou sobre a cidade iria levar ao cancelamento da partida. Resultado: a peleja que não aconteceu foi narrada no jornal do dia seguinte, com comentários evasivos, do tipo “o resultado fez justiça ao que as equipes apresentaram em campo, à tradição de cada uma” etc. etc.

O risco de uma barriga dessas, até folclórica, ainda existe. Daí a importância de checar quantas vezes forem necessárias, nunca fechar uma edição sem que todas as informações estejam comprovadas. Ouvir os dois (ou mais) lados da notícia segue sendo regra de ouro. Muitas vezes um dos lados não quer se fazer ouvir, acha mais conveniente silenciar sobre uma acusação do que se defender, na crença de que fará menos barulho. Mas o dever de informar, o compromisso com o leitor, obriga o repórter investigar, para não permitir que o desejo de silêncio prevaleça sobre o direito à informação.


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