Impressões para o milênio
Clara Arreguy, 8/07/2005
A manhã de quinta-feira foi colhida com noticiários
explosivos, mas desta vez não vinham da CPI, de
denúncias ou escândalos, e sim de novos atentados
terroristas. A Inglaterra amanheceu sob o impacto de bombas
no metrô e no ônibus, dezenas de mortos e
feridos. De repente, o que a imprensa noticiava à
exaustão – a suspeita de corrupção
em diversas esferas do governo brasileiro – perde
espaço para valor mais alto, ameaça mais
grave à população civil de um país
do Primeiro Mundo.
O leitor de jornal – e quem o faz, inevitavelmente
– deve ficar tonto para dar conta de acompanhar
tanta reviravolta. Alguns meses atrás, era a morte
de João Paulo II, a eleição do novo
papa, o processo sucessório no Vaticano e as discussões
em torno do assunto. Naquele momento, dificilmente a conjuntura
nacional obteria a atenção do leitor. Assim
como há quatro anos, no fatídico 11 de setembro
de 2001, quando o mundo parou, durante meses, para acompanhar
a dor das vítimas dos atentados, as nefastas conseqüências
em forma de guerra, invasão de países, mais
mortos inocentes.
As evoluções da situação
mundial, com repercussões no Brasil e na realidade
imediata de qualquer um, demonstram como a globalização
é irreversível, como a velocidade e a complexidade
dos fatos se acentuam. Ainda me lembro bem da reflexão
que tentávamos fazer no reveillon do ano 2000 –
marca mítica que minha infância apontava
no fim do mundo, no fim dos tempos, no futuro da ficção.
A pergunta era: o que, afinal, mais marcou o século
20? A Revolução Russa? A Segunda Guerra
Mundial? O Holocausto? O nazismo? A Guerra Fria? A conquista
do espaço? O computador? A rede virtual?
Um dos amigos com quem compartilhávamos a discussão
(e que morreu três semanas depois) clareou a conversa:
para ele, era exatamente o complexo de questões
apresentadas e desenvolvidas ao longo dos últimos
cem anos que lhes conferia identidade.
Assim pode ser lido este início de milênio.
Os atos terroristas indiscriminados; a ruptura com a ordem
mundial por parte da potência dominante; as inspirações
religiosas servindo de pretexto para intolerância
e violência; a perda de referências históricas
e éticas por forças outrora identificadas
com as causas mais nobres; a corrupção generalizada;
a preponderância da ideologia de que os fins justificam
os meios; o afastamento gradativo da possibilidade de
paz, em todos os sentidos. Definitivamente, não
é um bom começo de milênio.
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