Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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Impressões para o milênio
Clara Arreguy, 8/07/2005

A manhã de quinta-feira foi colhida com noticiários explosivos, mas desta vez não vinham da CPI, de denúncias ou escândalos, e sim de novos atentados terroristas. A Inglaterra amanheceu sob o impacto de bombas no metrô e no ônibus, dezenas de mortos e feridos. De repente, o que a imprensa noticiava à exaustão – a suspeita de corrupção em diversas esferas do governo brasileiro – perde espaço para valor mais alto, ameaça mais grave à população civil de um país do Primeiro Mundo.

O leitor de jornal – e quem o faz, inevitavelmente – deve ficar tonto para dar conta de acompanhar tanta reviravolta. Alguns meses atrás, era a morte de João Paulo II, a eleição do novo papa, o processo sucessório no Vaticano e as discussões em torno do assunto. Naquele momento, dificilmente a conjuntura nacional obteria a atenção do leitor. Assim como há quatro anos, no fatídico 11 de setembro de 2001, quando o mundo parou, durante meses, para acompanhar a dor das vítimas dos atentados, as nefastas conseqüências em forma de guerra, invasão de países, mais mortos inocentes.

As evoluções da situação mundial, com repercussões no Brasil e na realidade imediata de qualquer um, demonstram como a globalização é irreversível, como a velocidade e a complexidade dos fatos se acentuam. Ainda me lembro bem da reflexão que tentávamos fazer no reveillon do ano 2000 – marca mítica que minha infância apontava no fim do mundo, no fim dos tempos, no futuro da ficção. A pergunta era: o que, afinal, mais marcou o século 20? A Revolução Russa? A Segunda Guerra Mundial? O Holocausto? O nazismo? A Guerra Fria? A conquista do espaço? O computador? A rede virtual?

Um dos amigos com quem compartilhávamos a discussão (e que morreu três semanas depois) clareou a conversa: para ele, era exatamente o complexo de questões apresentadas e desenvolvidas ao longo dos últimos cem anos que lhes conferia identidade.

Assim pode ser lido este início de milênio. Os atos terroristas indiscriminados; a ruptura com a ordem mundial por parte da potência dominante; as inspirações religiosas servindo de pretexto para intolerância e violência; a perda de referências históricas e éticas por forças outrora identificadas com as causas mais nobres; a corrupção generalizada; a preponderância da ideologia de que os fins justificam os meios; o afastamento gradativo da possibilidade de paz, em todos os sentidos. Definitivamente, não é um bom começo de milênio.


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