Crônicas publicadas no "Correio Braziliense" a partir de 2004
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No dia em que ele morreu
Clara Arreguy, 9/12/2005

Era apenas uma menina virando adolescente quando os Beatles se separaram, em 1970. No ano seguinte, John Lennon lançava Imagine, o disco solo que conquistou boa parte da juventude para sua adoração. Nove anos depois, já adulta, recebi pelo rádio a notícia mais trágica que sacudiria minha curta vida, quando o louco atirou no ídolo, em Nova York.

Em Belo Horizonte, em 1980, já havia grupos e artistas que viviam de cover dos Beatles e também eram adorados pelos jovens. Naquela tarde, as rádios da cidade só tocaram canções deles. Meio sem combinar, meio combinado, à noite todo mundo foi se dirigindo ao Teatro Francisco Nunes, no Parque Municipal (centro da cidade) e, entre prantos e cantos, se celebrou a dolorosa, injusta e precoce partida de John.

Gostava de me vestir como ele, de branco, de usar cabelos longos e escorridos, óculos de aro fino, cantar a paz e o amor. Mas havia em John algo mais, que a morte brutal e a idolatria subseqüente obnubilaram um pouco: uma rebeldia antiburguesa, revolucionária, intolerante com injustiças e hipocrisias.

Os últimos momentos dele, pai recente de um filho doce, em harmonia com a mulher, compondo suavidades como Double fantasy e Beautiful boy, deixaram em segundo plano o co-autor (com Yoko) do álbum Sometime in New York City, libelo contra o machismo, o imperialismo, o sistema carcerário, a ocupação da Irlanda pela Inglaterra, o acordo entre Estados Unidos e China. Como uma página de jornal, o disco noticiava, criticava e se posicionava sobre os mais diversos assuntos. E o diferencial: o fazia com arte, visceralidade, franqueza e comprometimento.

John foi um artista muito especial, pelo poder de equilibrar radicalidade e doçura. De infância sofrida e história de vida marcada por traumas e abandonos. Conseguiu converter o rancor em energia criativa e amorosa. Amor que se multiplicou pelas vítimas de injustiça em todo o mundo. Não se fazem artistas de sua estatura toda hora. Eles não nascem nem se forjam todo dia. Sua perda ainda vai ecoar por muito tempo.


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