No dia em que ele morreu
Clara Arreguy, 9/12/2005
Era apenas uma menina virando adolescente
quando os Beatles se separaram, em 1970. No ano seguinte,
John Lennon lançava Imagine, o disco solo que conquistou
boa parte da juventude para sua adoração.
Nove anos depois, já adulta, recebi pelo rádio
a notícia mais trágica que sacudiria minha
curta vida, quando o louco atirou no ídolo, em
Nova York.
Em Belo Horizonte, em 1980, já havia grupos e
artistas que viviam de cover dos Beatles e também
eram adorados pelos jovens. Naquela tarde, as rádios
da cidade só tocaram canções deles.
Meio sem combinar, meio combinado, à noite todo
mundo foi se dirigindo ao Teatro Francisco Nunes, no Parque
Municipal (centro da cidade) e, entre prantos e cantos,
se celebrou a dolorosa, injusta e precoce partida de John.
Gostava de me vestir como ele, de branco, de usar cabelos
longos e escorridos, óculos de aro fino, cantar
a paz e o amor. Mas havia em John algo mais, que a morte
brutal e a idolatria subseqüente obnubilaram um pouco:
uma rebeldia antiburguesa, revolucionária, intolerante
com injustiças e hipocrisias.
Os últimos momentos dele, pai recente de um filho
doce, em harmonia com a mulher, compondo suavidades como
Double fantasy e Beautiful boy, deixaram em segundo plano
o co-autor (com Yoko) do álbum Sometime in New
York City, libelo contra o machismo, o imperialismo, o
sistema carcerário, a ocupação da
Irlanda pela Inglaterra, o acordo entre Estados Unidos
e China. Como uma página de jornal, o disco noticiava,
criticava e se posicionava sobre os mais diversos assuntos.
E o diferencial: o fazia com arte, visceralidade, franqueza
e comprometimento.
John foi um artista muito especial, pelo poder de equilibrar
radicalidade e doçura. De infância sofrida
e história de vida marcada por traumas e abandonos.
Conseguiu converter o rancor em energia criativa e amorosa.
Amor que se multiplicou pelas vítimas de injustiça
em todo o mundo. Não se fazem artistas de sua estatura
toda hora. Eles não nascem nem se forjam todo dia.
Sua perda ainda vai ecoar por muito tempo.
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