Contra o vazio geral, faço um pacto com a lua
Clara Arreguy, 01/03/2000
“Lua, lua, lua, lua... Por um momento meio conto contigo
compactua...” – esses versos de Caetano Veloso
sempre me vem à mente quando vejo nas novelas, aquela
tradicional cena de lua cheia enorme, fruto naturalmente
de trucagem, pelo tamanho em que aparecem na tela. Já
notaram que em novela não existe lua nova, crescente,
minguante? Sempre cheiona, como se o mês durasse sete
dias, ou menos. Licença poética, ficcional,
Va bene, como agora se diz. Alguns autores de novela, como
Aguinaldo Silva, ainda vão mais longe: programam,
de tempos em tempos, uma lua dupla, que desperta os mais
insuspeitos desatinos na população da cidade
fictícia que eles criam, e homens e mulheres saem
a uivar e realizar os desejos mais secretos.
A música popular tem sido inspirada pela lua,
tanto quanto sempre foram os poetas, seresteiros, namorados
(olha aí, Gilberto Gil). Vinícius de Moraes
explicou bem, e vale a pena reproduzir por inteiro seu
raciocínio: “São demais os prestígios
desta vida/ pra que tem paixão/ Principalmente
se uma lua chega de repente/ e se deixa no céu
como esquecida/ e se ao luar, que atua desvairado/ vem
se unir uma música qualquer/ aí então
é preciso ter cuidado/ porque deve andar perto
de uma mulher/ Deve andar perto de uma mulher que é
feita/ de música, luar e sentimento/ que a vida
não quer de tão perfeita/ uma mulher, que
é como a própria lua/ tão linda que
só espalha sofrimento/ tão cheia de pudor
que vive nua”.
Outras declarações de amor foram inspiradas
ou suspiradas à luz daquele frio satélite,
sem fonte de calor ou luz própria: “A lua
girou, girou/ traçou no céu um compasso/
a lua girou, girou/ traçou no céu um compasso/
Eu só queria fazer um travesseiro dos seus braços...”
– esta é de domínio público,
mas foi a voz de veludo de Milton Nascimento que popularizou.
“Estou ficando velho e acabado/ A lua e eu”
é outro bom verso; “mente quem diz que a
lua é velha”; “uma andava nua, grávida
de lua”; “tomo banho de lua/ fico branca como
a neve/ se o luar é meu amigo/ censurar ninguém
se atreve”, quem não se lembra?
Tudo isto para tentar acrescentar um pouco de poesia
ao cotidiano de uma crônica de jornal. Tudo isso
porque a crônica se faz das pequenas mazelas que
o jornalista capta aqui e ali, no noticiário, no
olhar distraído que atravessa a nossa rua, e acaba
trazendo para a leitura matinal do seu café da
manhã às vezes muito mais tristeza do que
gostaria de passar. Vamos discutir a ocupação
da rua por perueiros, taxistas, camelôs, professores?
Vamos defender o direito ao trabalho, vamos discutir a
organização do transporte público
numa metrópole complexa e que exige controle e
fiscalização das atividades que envolvam
a solução dos problemas da massa da população?
Vamos rebater na tecla do desgoverno que achata salários
de trabalhadores e distribui benesses para os poderosos
em forma de “pequenos abonos” de R$ 3 mil?
Ou vamos optar pela linha avestruz, aquela dos “pensadores”
da nossa mídia que se dedicam a noticiar, conversar
e discutir o nada representado pelas personagens vazias
e sem nenhuma importância que dominam o imaginário
da cultura de massas atual? Vamos falar da Xuxa, vaiada
ou não vaiada, carregando aquela pobre coitada
de sua filha, produto de marketing que ela exibe como
a sandalinha ou outro bibelô de sua grife? Vamos
especular com quem está dormindo com a moça
que estava dormindo com o cara que foi casado com a dona
que foi amante do Ayrton Senna? Essa virou nossa rotina:
ocupar nossa atenção com gente que nunca
fez nada, não tem nada a dizer e nunca fará
nada de importante simplesmente porque aquela pessoa esteve
próxima de alguém que vende muito –
às vezes disco, às vezes filme, às
vezes merchandising de alguma grife ligada a uma atividade
lucrativa.
Esta conversa me dá saudades – absurdo dos
absurdos! – dos tempos da ditadura, quando ficávamos
atrás de quem tinha o que dizer, mesmo que fosse
por metáforas, por códigos, e esses eram
nosso ídolos. Os que se arriscavam para transmitir
alguma mensagem. Não tenho mais esta inspiração,
volto-me para outro tipo de futilidade: a lua, a poesia,
essas coisas que não dizem muito, mas ainda são
capazes de despertar emoções.
_____________________________________________________________________