Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Contra o vazio geral, faço um pacto com a lua
Clara Arreguy, 01/03/2000

“Lua, lua, lua, lua... Por um momento meio conto contigo compactua...” – esses versos de Caetano Veloso sempre me vem à mente quando vejo nas novelas, aquela tradicional cena de lua cheia enorme, fruto naturalmente de trucagem, pelo tamanho em que aparecem na tela. Já notaram que em novela não existe lua nova, crescente, minguante? Sempre cheiona, como se o mês durasse sete dias, ou menos. Licença poética, ficcional, Va bene, como agora se diz. Alguns autores de novela, como Aguinaldo Silva, ainda vão mais longe: programam, de tempos em tempos, uma lua dupla, que desperta os mais insuspeitos desatinos na população da cidade fictícia que eles criam, e homens e mulheres saem a uivar e realizar os desejos mais secretos.

A música popular tem sido inspirada pela lua, tanto quanto sempre foram os poetas, seresteiros, namorados (olha aí, Gilberto Gil). Vinícius de Moraes explicou bem, e vale a pena reproduzir por inteiro seu raciocínio: “São demais os prestígios desta vida/ pra que tem paixão/ Principalmente se uma lua chega de repente/ e se deixa no céu como esquecida/ e se ao luar, que atua desvairado/ vem se unir uma música qualquer/ aí então é preciso ter cuidado/ porque deve andar perto de uma mulher/ Deve andar perto de uma mulher que é feita/ de música, luar e sentimento/ que a vida não quer de tão perfeita/ uma mulher, que é como a própria lua/ tão linda que só espalha sofrimento/ tão cheia de pudor que vive nua”.

Outras declarações de amor foram inspiradas ou suspiradas à luz daquele frio satélite, sem fonte de calor ou luz própria: “A lua girou, girou/ traçou no céu um compasso/ a lua girou, girou/ traçou no céu um compasso/ Eu só queria fazer um travesseiro dos seus braços...” – esta é de domínio público, mas foi a voz de veludo de Milton Nascimento que popularizou. “Estou ficando velho e acabado/ A lua e eu” é outro bom verso; “mente quem diz que a lua é velha”; “uma andava nua, grávida de lua”; “tomo banho de lua/ fico branca como a neve/ se o luar é meu amigo/ censurar ninguém se atreve”, quem não se lembra?

Tudo isto para tentar acrescentar um pouco de poesia ao cotidiano de uma crônica de jornal. Tudo isso porque a crônica se faz das pequenas mazelas que o jornalista capta aqui e ali, no noticiário, no olhar distraído que atravessa a nossa rua, e acaba trazendo para a leitura matinal do seu café da manhã às vezes muito mais tristeza do que gostaria de passar. Vamos discutir a ocupação da rua por perueiros, taxistas, camelôs, professores? Vamos defender o direito ao trabalho, vamos discutir a organização do transporte público numa metrópole complexa e que exige controle e fiscalização das atividades que envolvam a solução dos problemas da massa da população? Vamos rebater na tecla do desgoverno que achata salários de trabalhadores e distribui benesses para os poderosos em forma de “pequenos abonos” de R$ 3 mil?

Ou vamos optar pela linha avestruz, aquela dos “pensadores” da nossa mídia que se dedicam a noticiar, conversar e discutir o nada representado pelas personagens vazias e sem nenhuma importância que dominam o imaginário da cultura de massas atual? Vamos falar da Xuxa, vaiada ou não vaiada, carregando aquela pobre coitada de sua filha, produto de marketing que ela exibe como a sandalinha ou outro bibelô de sua grife? Vamos especular com quem está dormindo com a moça que estava dormindo com o cara que foi casado com a dona que foi amante do Ayrton Senna? Essa virou nossa rotina: ocupar nossa atenção com gente que nunca fez nada, não tem nada a dizer e nunca fará nada de importante simplesmente porque aquela pessoa esteve próxima de alguém que vende muito – às vezes disco, às vezes filme, às vezes merchandising de alguma grife ligada a uma atividade lucrativa.

Esta conversa me dá saudades – absurdo dos absurdos! – dos tempos da ditadura, quando ficávamos atrás de quem tinha o que dizer, mesmo que fosse por metáforas, por códigos, e esses eram nosso ídolos. Os que se arriscavam para transmitir alguma mensagem. Não tenho mais esta inspiração, volto-me para outro tipo de futilidade: a lua, a poesia, essas coisas que não dizem muito, mas ainda são capazes de despertar emoções.


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