Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Resposta a um velho comunista
Clara Arreguy, 02/02/2000

Alguém deve ter andado pisando no calo do cronista Marcel Singer, nosso colega neste espaço das quartas-feiras. Só assim se pode entender a pisada na bola de um velho comunista, de tantas e tão ricas lições de cidadania aos leitores do ESTADO DE MINAS. Quando tachou genericamente de "neoliberais" todos os "analisados", outra categoria por si só genérica demais, o cronista ofendeu muita gente, incluída esta que lhes escreve. Ora, confundir quem sofre e procura ajuda com os adeptos do "farinha pouca, meu pirão primeiro" é um gesto no mínimo injusto – o que nunca antes fora prática do nosso velho comunista.

Está certo que há muita gente que, na procura de aliviar suas dores, encontra no caminho maus profissionais da psicanálise, da psicologia, das terapias várias que pululam por aí. Maus profissionais – outra praga generalizada, em todos os campo – responsáveis, por exemplo, por incutir nas pessoas um espírito egoísta, aquele criticado por Marcel Singer. Mas daí a sair vociferando contra todo mundo, pera lá... Ou será que é admissível jogar fora o menino com a água da bacia? Ou será que o cronista acha que todo mundo tem que ser forte, resistir estoicamente ao sofrimento, "compreendendo" que a vida é mesmo assim e que não há cura para os nossos males? Pela primeira vez, ao invés de ensinar o espírito de luta e transformação, nosso velho comunista nos vem pregar o conformismo, como se estivesse tudo determinado e nada houvesse a fazer para mudar o mundo.

Não detenho os mesmos conhecimentos filosóficos que meu colega de crônica, mas pela experiência de vida tenho observado como é difícil mudar. E como, sempre, é preciso coragem para mudar. Para admitir erros de percurso, a necessidade de corrigir rotas, levantar a cabeça e apontar novos rumos, isto é muito doloroso. Muita gente até quer, mas não consegue. Precisa de ajuda. Precisa admitir que fracassou, que alguma coisa não está indo bem, que alguma coisa não está dando certo. É qualidade dos bravos assumir tudo isto e pedir ajuda. Não dos fracos, dos covardes.

Outra coisa contra a qual a crônica de quarta-feira passada vociferava era a família, afirmando que esta instituição ensina as pessoas a serem solidárias só entre si, familiares, e fecharem os olhos para que esteja de fora dela. Não concordo. Embora não pretenda sair fazendo uma defesa conservadora da família, acredito que nela possa residir também uma escola de solidariedade a ser multiplicada na vida, na rua. Depende de como seus integrantes conduzam a educação de todos – pais, filho, agregados. É possível educar não só na cartilha cristã da fraternidade, como na pauta dos exemplos de luta, na irmandade em torno do amor ao ser humano e ao planeta.

Tive a felicidade de crescer numa família assim, em que herdar o vestido da irmã mais velha e os livros do irmão mais velho não humilhava ninguém. Em que repartir o pouco começava em casa em prosseguia pela vida afora. Em que a história de uma prima presa e torturada pelo regime militar não revoltava mais porque ela era parente, mas representava um chamado para a gente abrir os olhos e entrar em ação. A ditadura horrorizava no atacado, não no varejo do grupo familiar. Quando ao sobrenome, continua sendo uma bobagem, mas não deixa de ser motivo de orgulho fazer parte da linhagem da presa política Inês Etienne Romeu ou do alfaiate João Henriques Ribeiro.


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