Resposta a um velho comunista
Clara Arreguy, 02/02/2000
Alguém deve ter andado pisando no calo do cronista
Marcel Singer, nosso colega neste espaço das quartas-feiras.
Só assim se pode entender a pisada na bola de um
velho comunista, de tantas e tão ricas lições
de cidadania aos leitores do ESTADO DE MINAS. Quando tachou
genericamente de "neoliberais" todos os "analisados",
outra categoria por si só genérica demais,
o cronista ofendeu muita gente, incluída esta que
lhes escreve. Ora, confundir quem sofre e procura ajuda
com os adeptos do "farinha pouca, meu pirão
primeiro" é um gesto no mínimo injusto
– o que nunca antes fora prática do nosso velho
comunista.
Está certo que há muita gente que, na procura
de aliviar suas dores, encontra no caminho maus profissionais
da psicanálise, da psicologia, das terapias várias
que pululam por aí. Maus profissionais –
outra praga generalizada, em todos os campo – responsáveis,
por exemplo, por incutir nas pessoas um espírito
egoísta, aquele criticado por Marcel Singer. Mas
daí a sair vociferando contra todo mundo, pera
lá... Ou será que é admissível
jogar fora o menino com a água da bacia? Ou será
que o cronista acha que todo mundo tem que ser forte,
resistir estoicamente ao sofrimento, "compreendendo"
que a vida é mesmo assim e que não há
cura para os nossos males? Pela primeira vez, ao invés
de ensinar o espírito de luta e transformação,
nosso velho comunista nos vem pregar o conformismo, como
se estivesse tudo determinado e nada houvesse a fazer
para mudar o mundo.
Não detenho os mesmos conhecimentos filosóficos
que meu colega de crônica, mas pela experiência
de vida tenho observado como é difícil mudar.
E como, sempre, é preciso coragem para mudar. Para
admitir erros de percurso, a necessidade de corrigir rotas,
levantar a cabeça e apontar novos rumos, isto é
muito doloroso. Muita gente até quer, mas não
consegue. Precisa de ajuda. Precisa admitir que fracassou,
que alguma coisa não está indo bem, que
alguma coisa não está dando certo. É
qualidade dos bravos assumir tudo isto e pedir ajuda.
Não dos fracos, dos covardes.
Outra coisa contra a qual a crônica de quarta-feira
passada vociferava era a família, afirmando que
esta instituição ensina as pessoas a serem
solidárias só entre si, familiares, e fecharem
os olhos para que esteja de fora dela. Não concordo.
Embora não pretenda sair fazendo uma defesa conservadora
da família, acredito que nela possa residir também
uma escola de solidariedade a ser multiplicada na vida,
na rua. Depende de como seus integrantes conduzam a educação
de todos – pais, filho, agregados. É possível
educar não só na cartilha cristã
da fraternidade, como na pauta dos exemplos de luta, na
irmandade em torno do amor ao ser humano e ao planeta.
Tive a felicidade de crescer numa família assim,
em que herdar o vestido da irmã mais velha e os
livros do irmão mais velho não humilhava
ninguém. Em que repartir o pouco começava
em casa em prosseguia pela vida afora. Em que a história
de uma prima presa e torturada pelo regime militar não
revoltava mais porque ela era parente, mas representava
um chamado para a gente abrir os olhos e entrar em ação.
A ditadura horrorizava no atacado, não no varejo
do grupo familiar. Quando ao sobrenome, continua sendo
uma bobagem, mas não deixa de ser motivo de orgulho
fazer parte da linhagem da presa política Inês
Etienne Romeu ou do alfaiate João Henriques Ribeiro.
_____________________________________________________________________