Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Cultura e política contra a violência
Clara Arreguy, 02/02/2002

Insegurança, medo, desespero. Assim as pessoas de bem têm reagido, quanto mais recrudesce a onda de violência, que agora extrapola a idéia (errônea) de que atingia apenas os pobres das áreas desgraçadas da cidade e os ricos, alvos de crimes como os seqüestros. Nada disso. Com a violência generalizada visando todas as classes sociais, todas as regiões das cidades, todas as cidades do País, sejam de pequeno, médio ou grande porte, a reação das pessoas que se preocupam com que mundo estamos construindo tende a uma desesperança que dificulta enxergar a luz no fim do túnel.

Mas será mesmo que ela existe, a tal luz? Sim, temos que nos questionar sobre isso a cada momento, mas não podemos nos deixar tomar pela histeria que imagina numa suposta radicalização – pena de morte, prisão perpétua, justiça com as próprias mãos – a solução para algum problema. Claro, tudo isso tem que ser discutido, mas sem racionalidade, sem busca equilibrada de caminhos, as conseqüências podem ser ainda piores. Falar em armar a população para resistir à bandidagem, já que não há lei, ou seja ela existe, não há Estado para fazê-la ser cumprida, pode levar a dois caminhos igualmente perigosos: pela esquerda, a desistência da construção de uma sociedade mais justa e segura pela via organizada do aperfeiçoamento das instituições, do aprofundamento da democracia participativa. Pela direita, o risco de se voltar a um “justicialismo” de esquadrões da morte de nefanda memória, das execuções sumárias, do império, novamente, da falta de lei.

Exemplos de que se podem construir caminhos sérios e eficazes começam a aparecer por todo o País – melhor seria dizer mundo, já que o crime organizado e a “colombização” de que se fala não maltrata somente o Brasil, Colômbia e outros países pobres, mas estende seus tentáculos por todo o planeta globalizado. Ficando no Brasil, um bom exemplo foram as políticas de combate à corrupção na polícia, implementadas no início do governo Garotinho até o início do ano passado, que conseguiram reduzir, em curto espaço de tempo, os índices de criminalidade nos âmbitos em que foram levadas a efeito. No Rio Grande do Sul também, e os casos recentes de seqüestros, que terminaram sem mortos nem feridos entre bandidos e vítimas, mostram que é possível à polícia ser enérgica sem contrariar os direitos humanos, mantendo sua postura de guardiã da lei e da ordem.

Por aqui, o assassinato do promotor Francisco José do Rego Santos desafia a polícia e a Justiça a provarem que podem ser eficazes, mas o estado geral de coisas leva a entender que, muito mais que a chamada “vontade política”, que aparece nessas horas, são precisas políticas urbanas de investimento em segurança. Entre elas, melhor aparelhamento das polícias (militar, civil e federal), que precisam agir conjuntamente, sem disputas, sob uma coordenação responsável, com autoridade moral para investigar e afastar os casos de corrupção, tortura e agressão à lei, para que a população possa confiar nos “homens da lei” e não deparar, a cada movimento, com a “banda podre” no poder.

Para que isso ocorra é necessário que os governos invistam não só em verbas – essenciais – mas também inteligência, que priorizem o assunto não apenas para desvendar um crime, um assassinato, mas para aparelhar o setor de todos os recursos técnicos e humanos. A ação cooperativa dos poderes públicos municipais, estaduais e federais é imprescindível. Não adianta os prefeitos alegarem que a política de segurança dever vir do âmbito estadual, como muitos têm feito. Mais eficientes são medidas como a da Prefeitura de Belo Horizonte, que, além de doar veículos para a Polícia Militar (do Estado), faz questão de convocar e participar de fóruns que discutam soluções para o combate à criminalidade, envolvendo-se e assumindo seu papel. Esta ação casada, afinal, permitiu a regulamentação de problemas sociais, como os camelôs e perueiros, que transitam no limite da marginalidade e que, sem a ação organizadora do poder público, corriam o risco de se tornar verdadeiros poderes paralelos.

Desses fóruns de reflexão e ação conjunta a população não pode ficar de fora. Seria, afinal, a única maneira de as pessoas se envolverem elas próprias no combate à violência. Nas regiões mais pobres, onde a polícia e o Estado não chegam, mas o crime organizado nada de braçada, a comunidade pode e deve se organizar para um retorno à lei, seja por meio de comitês de segurança, fóruns etc. Associações comunitárias e de moradores, padres, pastores e instâncias organizativas das igrejas, entidades e instituições que militam nas vilas e favelas, devem participar ativamente, reivindicar, pressionar seus governantes (executivo) e representantes (legislativo), de modo a responsabilizar a si próprios e a cada instância pelas soluções, simples ou complexas, para os problemas. Que, diga-se de passagem, não se resumem à falta de segurança, mas que, com ela, compõem um quadro de degeneração de todas as condições de vida – desemprego, moradia insuficiente e inadequada, falta de saneamento público, educação e saúde insatisfatórias etc.

Do ponto de vista estrutural, soa agradavelmente a proposta que um fórum de industriais e comerciante de Santo André apresentou, poucos dias após o assassinato do prefeito Celso Daniel, de combate à violência a partir do combate ao desemprego. A idéia é oferecer, ainda em caráter emergencial, alternativas de ocupação e renda para o exército de desempregados que se vê compelido ao crime por desespero e instinto de sobrevivência. Quando se fala que não há “vontade política” ou coragem para tal, é bom lembrar que haverá eleições este ano e que está nas mãos dos eleitores escolher programas de governo que abarquem todas essas questões.

Há ainda outras medidas a que muitas instituições têm recorrido e que dizem respeito à cultura. É claro que ensinar dança e música a jovens pobres e de periferia, dar-lhes aula de capoeira e pintura, não será o suficiente para eliminar a violência que os cerca nos seus bairros e vilas. Mas, sem dúvida, concorre para atacar o grave problema da falta de identidade. A baixa auto-estima que leva a juventude a não se crer capaz de nada, muito menos de ter direito a um futuro digno. Na mesma linha de raciocínio, promover oficinas de tapeçaria junto a presidiários não irá resolver os problemas do sistema penitenciário deficitário. Corrompido, verdadeira escola de aperfeiçoamento para a ação das gangues. Mas aqueles presos que trabalham, que se sentem úteis e ativos, ou, mais além, que se tornam capazes de produzir algo criativamente, serão mais propensos a uma possibilidade de recuperação e ressocialização.

A cultura como paliativo contra a pobreza e a violência pode ter pouca eficácia. Como panacéia, menos ainda. Pobres e ricos precisam de cultura. Se os jovens de periferia se sentem mais humanos e íntegros quando fazem oficinas de música ou dança, se muitos deles conseguem trocar o atraente trabalho como “aviões” do tráfico por uma atividade artística, cultural ou esportiva que os faça mais felizes e com melhores perspectivas de futuro, também rapazes e moças de classe média e alta carecem de identidade, auto-estima, perspectivas de vida. A arte, a cultura, a educação e o esporte podem ajudá-los nisso. Os programas e projetos que levarem isso em consideração estarão contribuindo para a construção de uma sociedade em novas bases, mais justas, dignas e respeitosas.


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