Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Pensata para o professor
Clara Arreguy, 05/04/2001

A gente pensa na professorinha da infância, nos abnegados profissionais que formaram consciências de tantas gerações, e quando olha a situação da categoria na atualidade dá até pena. Quem aposentou perdeu tanto poder aquisitivo que chegou a um estado lastimável – a penúria. Os da ativa se debatem contra os patrões do ensino privado – cada vez mais em maioria sobre os governos municipais e estaduais, de onde vinha, antigamente, o melhor ensino.

É engraçado a gente falar em antigamente e professorinha numa realidade tão crua e cruel como a que vivem o ensino, a educação, as escolas, os estudantes, os professores, funcionários. Mestre era uma palavra que se aplicava a gente de uma estatura especial, grandes conhecedores não apenas de fatos e dados, mas principalmente da alma humana. Aqueles que sabiam, e sabiam falar aos outros. Uns até exageravam. Etienne, meu tio, mestre de gerações, gostava de sapecar num aluno que lhe dissesse “eu acho” o clássico: “Você não acha nada. Você não sabe nada. Presta atenção e anota”. Aí também era exagero. Mas tinha seu charme.

Temos ouvido falar, lido nos jornais e visto na TV casos de aluno armado em sala de aula, bomba explodindo no pátio, vizinho traficante usando a escola para expandir seus negócios, a realidade da violência atravessando não apenas a porta da escola como a própria relação professor-aluno, instituição-clientela. E a comunidade nem sempre se mobiliza para intervir neste esquema, quebrando a inversão de posições que coloca o aluno ameaçador a intimidar o impotente mestre.

Há exceções, claro. As exceções dadas por quem interpõe entre o candidato a bandido e sua vítima potencial um outro tipo de jogo: o jogo da tolerância, do desarmamento. Amor é a palavra, mas soaria ousado demais admitir que ainda há professores vocacionados para a função, que vão além da profissão e compreendem profundamente a missão que está por trás da mera relação de trabalho. Calma, ninguém está falando em sacerdócio, em abdicar de direitos. A idéia é anterior: existe diferença entre ser professor e ser qualquer outra coisa? É possível parar de fingir que se ensina, enquanto os alunos fingem que aprendem, uns para bater ponto e auferir o salário, os outros para obedecer à ordem natural das coisas, que obriga os jovens a irem à escola? É possível, creio eu.

A discussão em torno da escola plural e da aprovação ou não de todos os alunos já mobilizou muita gente com competência e acúmulo teórico para defender esta ou aquela posição melhor que eu. Da minha parte, sabendo da pobreza generalizada da juventude brasileira, me encho de esperança ao ver que ainda há professores, diretores, funcionários, até burocratas, que não deixam morrer o resquício de amor que compunha a natureza do magistério. Amam aqueles meninos e meninas mal-educados, barulhentos, agressivos, despreparados, como que ama o futuro do Brasil. Este presente é o futuro do País, o presente e o futuro que estamos construindo dia a dia, através de atos e omissões. Nós, sociedade, poder público, partidos, igrejas. Portanto, está em nossas mãos o giz que irá reescrever esta trama no quadro negro da história.


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