Pensata para o professor
Clara Arreguy, 05/04/2001
A gente pensa na professorinha da infância, nos abnegados
profissionais que formaram consciências de tantas
gerações, e quando olha a situação
da categoria na atualidade dá até pena. Quem
aposentou perdeu tanto poder aquisitivo que chegou a um
estado lastimável – a penúria. Os da
ativa se debatem contra os patrões do ensino privado
– cada vez mais em maioria sobre os governos municipais
e estaduais, de onde vinha, antigamente, o melhor ensino.
É engraçado a gente falar em antigamente
e professorinha numa realidade tão crua e cruel
como a que vivem o ensino, a educação, as
escolas, os estudantes, os professores, funcionários.
Mestre era uma palavra que se aplicava a gente de uma
estatura especial, grandes conhecedores não apenas
de fatos e dados, mas principalmente da alma humana. Aqueles
que sabiam, e sabiam falar aos outros. Uns até
exageravam. Etienne, meu tio, mestre de gerações,
gostava de sapecar num aluno que lhe dissesse “eu
acho” o clássico: “Você não
acha nada. Você não sabe nada. Presta atenção
e anota”. Aí também era exagero. Mas
tinha seu charme.
Temos ouvido falar, lido nos jornais e visto na TV casos
de aluno armado em sala de aula, bomba explodindo no pátio,
vizinho traficante usando a escola para expandir seus
negócios, a realidade da violência atravessando
não apenas a porta da escola como a própria
relação professor-aluno, instituição-clientela.
E a comunidade nem sempre se mobiliza para intervir neste
esquema, quebrando a inversão de posições
que coloca o aluno ameaçador a intimidar o impotente
mestre.
Há exceções, claro. As exceções
dadas por quem interpõe entre o candidato a bandido
e sua vítima potencial um outro tipo de jogo: o
jogo da tolerância, do desarmamento. Amor é
a palavra, mas soaria ousado demais admitir que ainda
há professores vocacionados para a função,
que vão além da profissão e compreendem
profundamente a missão que está por trás
da mera relação de trabalho. Calma, ninguém
está falando em sacerdócio, em abdicar de
direitos. A idéia é anterior: existe diferença
entre ser professor e ser qualquer outra coisa? É
possível parar de fingir que se ensina, enquanto
os alunos fingem que aprendem, uns para bater ponto e
auferir o salário, os outros para obedecer à
ordem natural das coisas, que obriga os jovens a irem
à escola? É possível, creio eu.
A discussão em torno da escola plural e da aprovação
ou não de todos os alunos já mobilizou muita
gente com competência e acúmulo teórico
para defender esta ou aquela posição melhor
que eu. Da minha parte, sabendo da pobreza generalizada
da juventude brasileira, me encho de esperança
ao ver que ainda há professores, diretores, funcionários,
até burocratas, que não deixam morrer o
resquício de amor que compunha a natureza do magistério.
Amam aqueles meninos e meninas mal-educados, barulhentos,
agressivos, despreparados, como que ama o futuro do Brasil.
Este presente é o futuro do País, o presente
e o futuro que estamos construindo dia a dia, através
de atos e omissões. Nós, sociedade, poder
público, partidos, igrejas. Portanto, está
em nossas mãos o giz que irá reescrever
esta trama no quadro negro da história.
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