Quero dizer que acredito em política
Clara Arreguy, 06/07/2000
Eu acredito em política. Parece frase de plástico
de carro, tipo “eu acredito em disco voador”,
ou “Papai Noel: eu acredito”, mas é sério.
Eu acredito em política. Soa estranho, engraçado,
mas é a mais pura verdade. E soa assim tão
esquisito acreditar, gostar mesmo de política. Porque,
com a crise institucional generalizada, tornou-se quase
normal no Brasil jogar a criança fora com a água
suja da bacia. E como a água anda suja! Só
que muita gente não percebe aquela máxima
comum no meu tempo de movimento estudantil: tudo é
político. Não gostar de política, ou
deixar de lado qualquer militância em favor do que
na época chamávamos “política
do corpo”, era também uma forma de ver o mundo,
e política.
Hoje, as crises são mais gerais ainda do que eram
naquele tempo, quando nos faltava liberdade, não
havia espaço. Forçávamos e cavávamos
qualquer espacinho de atuação, conquistando
milímetro a milímetro o direito de expressão,
o sagrado direito à crítica. Hoje, em tese,
elegemos quem queremos, os partidos são todos permitidos,
e as instituições formais da democracia
foram tomadas de assalto pelas elites da bandidagem emergente,
que dividem com as elites tradicionais o comando dos rumos
do País. Andamos para trás, então?
Não. Andamos para a frente. Hoje a representação
formal no Congresso e nos outros fóruns eletivos
comporta grupos, segmentos, minorias, representações.
Com voz e voto de repercussão nacional.
Mas quando falei que ainda acredito em política
não estava dizendo dessa representação
formal, e sim de uma concepção mais ampla
da política. Para mim, está aí a
maior evolução do nosso povo, dos tempos
da ditadura pra cá. As pessoas e grupos estão
amadurecendo e tornando suas relações no
mundo a cada dia mais políticas, no sentido de
mais coletivas, mais comprometidas. Hoje, nas igrejas
e nos bairros, nas associações e nas repartições,
cresce cada vez mais a compreensão de que não
haverá solução para o Brasil ou para
o mundo por um passe de mágica, por boa vontade
de algum bom governante, por milagre de um santo brasileiro.
Até nas homilias os padres – e não
apenas aqueles antigos padres “vermelhos”,
como eram chamados os militantes da Teologia da Libertação
– estão mandando ver num discurso que procura
envolver o rebanho-eleitorado na responsabilidade social.
Isto é bem bacana.
Não quero aceitar com isto aquela desculpa esfarrapada
do presidente da República, quando disse que a
violência era responsabilidade de cada cidadão.
Como bem respondeu o jornalista Jânio de Freitas,
colunista da “Folha de S. Paulo”, os grandes
impulsionadores da violência no Brasil são
o narcotráfico e o contrabando de armas a ela ligados,
atividades essas cujo combate é atribuição
da Polícia Federal, ou seja, do governo. Então,
não adianta o governo dizer que a população
tem sua cota de responsabilidade porque não há
o que fazer nesse caso. Só uma política
de prioridades, o que inclui verbas, ações,
etc., pode atacar o problema. E nesse caso, as esferas
legislativas do Congresso e as Assembléias estaduais
estão fazendo sua parte, levantando a banda podre
que se escondia nos subterrâneos da vida nacional.
Ah, mas não era só disto que eu queria
falar. Queria dizer que gosto de política quando
vejo duas associações de moradores se juntarem
para pedir um mirante na divisa entre a Serra e o São
Lucas. Gosto de política quando vejo Marisa Monte
se dedicar a uma gravadora que valoriza a velha guarda
das escolas de samba. Gosto de política quando
vejo as paradas de orgulho gay. Gosto de política
quando assisto às comunidades pobres enfrentando
a violência em seus bairros com oficinas de arte
e espetáculos de dança. Acredito em política
quando vejo centenas de obras sendo realizadas por graça
da demanda das populações organizadas nas
assembléias do orçamento participativo.
Acredito em política quando vejo um jogador de
futebol vibrar, depois de um gol, mostrando uma camiseta
escondida embaixo do uniforme com alguma frase inscrita,
seja inteligente ou boba, uma declaração
de amor ou de apoio ao pior político. Acho que
assim, se manifestando, bolando uma mensagem para dizer
aos outros, pessoas antes tidas como alienadas, como os
craques da bola, mostram que pensam, agem, se comprometem.
E é disso que mais estamos precisando no nosso
País.
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