Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Quero dizer que acredito em política
Clara Arreguy, 06/07/2000

Eu acredito em política. Parece frase de plástico de carro, tipo “eu acredito em disco voador”, ou “Papai Noel: eu acredito”, mas é sério. Eu acredito em política. Soa estranho, engraçado, mas é a mais pura verdade. E soa assim tão esquisito acreditar, gostar mesmo de política. Porque, com a crise institucional generalizada, tornou-se quase normal no Brasil jogar a criança fora com a água suja da bacia. E como a água anda suja! Só que muita gente não percebe aquela máxima comum no meu tempo de movimento estudantil: tudo é político. Não gostar de política, ou deixar de lado qualquer militância em favor do que na época chamávamos “política do corpo”, era também uma forma de ver o mundo, e política.

Hoje, as crises são mais gerais ainda do que eram naquele tempo, quando nos faltava liberdade, não havia espaço. Forçávamos e cavávamos qualquer espacinho de atuação, conquistando milímetro a milímetro o direito de expressão, o sagrado direito à crítica. Hoje, em tese, elegemos quem queremos, os partidos são todos permitidos, e as instituições formais da democracia foram tomadas de assalto pelas elites da bandidagem emergente, que dividem com as elites tradicionais o comando dos rumos do País. Andamos para trás, então? Não. Andamos para a frente. Hoje a representação formal no Congresso e nos outros fóruns eletivos comporta grupos, segmentos, minorias, representações. Com voz e voto de repercussão nacional.

Mas quando falei que ainda acredito em política não estava dizendo dessa representação formal, e sim de uma concepção mais ampla da política. Para mim, está aí a maior evolução do nosso povo, dos tempos da ditadura pra cá. As pessoas e grupos estão amadurecendo e tornando suas relações no mundo a cada dia mais políticas, no sentido de mais coletivas, mais comprometidas. Hoje, nas igrejas e nos bairros, nas associações e nas repartições, cresce cada vez mais a compreensão de que não haverá solução para o Brasil ou para o mundo por um passe de mágica, por boa vontade de algum bom governante, por milagre de um santo brasileiro. Até nas homilias os padres – e não apenas aqueles antigos padres “vermelhos”, como eram chamados os militantes da Teologia da Libertação – estão mandando ver num discurso que procura envolver o rebanho-eleitorado na responsabilidade social. Isto é bem bacana.

Não quero aceitar com isto aquela desculpa esfarrapada do presidente da República, quando disse que a violência era responsabilidade de cada cidadão. Como bem respondeu o jornalista Jânio de Freitas, colunista da “Folha de S. Paulo”, os grandes impulsionadores da violência no Brasil são o narcotráfico e o contrabando de armas a ela ligados, atividades essas cujo combate é atribuição da Polícia Federal, ou seja, do governo. Então, não adianta o governo dizer que a população tem sua cota de responsabilidade porque não há o que fazer nesse caso. Só uma política de prioridades, o que inclui verbas, ações, etc., pode atacar o problema. E nesse caso, as esferas legislativas do Congresso e as Assembléias estaduais estão fazendo sua parte, levantando a banda podre que se escondia nos subterrâneos da vida nacional.

Ah, mas não era só disto que eu queria falar. Queria dizer que gosto de política quando vejo duas associações de moradores se juntarem para pedir um mirante na divisa entre a Serra e o São Lucas. Gosto de política quando vejo Marisa Monte se dedicar a uma gravadora que valoriza a velha guarda das escolas de samba. Gosto de política quando vejo as paradas de orgulho gay. Gosto de política quando assisto às comunidades pobres enfrentando a violência em seus bairros com oficinas de arte e espetáculos de dança. Acredito em política quando vejo centenas de obras sendo realizadas por graça da demanda das populações organizadas nas assembléias do orçamento participativo. Acredito em política quando vejo um jogador de futebol vibrar, depois de um gol, mostrando uma camiseta escondida embaixo do uniforme com alguma frase inscrita, seja inteligente ou boba, uma declaração de amor ou de apoio ao pior político. Acho que assim, se manifestando, bolando uma mensagem para dizer aos outros, pessoas antes tidas como alienadas, como os craques da bola, mostram que pensam, agem, se comprometem. E é disso que mais estamos precisando no nosso País.


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