De médico e de louco todo mundo tem um pouco
Clara Arreguy, 08/03/2000
É engraçado como o brasileiro, gostando tanto
de futebol, jogue muito mais futebol de salão do
que de campo – facilidades de ocupar menor espaço,
de poder haver uma quadra em cada escola, em casa esquina,
quase. Mesmo assim, como espetáculo, o futsal não
emplaca tanto quanto o tradicional esporte que leva multidões
aos grandes estádios e milhões à frente
da televisão para assistir a qualquer jogo: local
ou nacional, italiano ou japonês, do seu time ou do
adversário. E o futsal, no qual o Brasil é
uma máquina quase imbatível, não angariou
ainda tanto prestígio.
Penso nisto desde domingo passado, quando assisti à
despedida do técnico Tacão do comando da
seleção brasileira de futsal, onde ficou
11 anos e colecionou todo título e troféu
que disputou. Ganhou simplesmente 16 dos 17 torneios que
teve pela frente e mostrou-se não apenas vitorioso
mas um grande líder, profundamente entendido no
ramo, apesar de vir de uma profissão que não
tem nada a ver com a bola: é dentista.
O técnico Tacão não me conhece,
mas eu o conheci alguns anos atrás, cantando no
palco do Cabaré Mineiro junto com uma turma de
dentistas muito loucos e muito afinados, Bebeto e Seus
Acéfalos, uma banda que tinha humor e música
de sobra para ficar no cenário da arte mas que
não emplacou. Bebeto (assim como seus acéfalos,
suponho) voltou ao seu consultório, depois de uma
breve carreira como locutor de futebol. A noite belo-horizontina
ficou apenas menos engraçada e menos musical. Vida
que segue.
Tacão, que é irmão do Cardeal Dom
Serafim, cantava com seus asseclas, assim como treinava
futebol de salão. Integrava, sem saber, um grande
grupo de profissionais da área de saúde
que se dedica a outros ofício que não cuidar
das nossas bocas, dentes, mentes, corações.
Não entendo muito bem por que, mas são poucas
as áreas profissionais que municiam tanto as artes
como as ciências médicas. Basta anotar alguns
principais artistas da palavra e da cena em Minas Gerais:
Jota Dângelo, o dramaturgo, diretor e ator de gabarito
em todas estas funções foi também
importante anatomista, professor e autor de tratados definitivos
sobre o tem. Ao lado dele nos shows Medicina, começou
a carreira o escritor e dramaturgo Ângelo Machado,
que lecionava aquela cadeira científica à
qual se dedica que entende tudo de libélulas, como
ele. Grande humorista, grande ecologista, Ângelo
Machado é uma das figuras mais inteligentes e agradáveis
da nossa cultura. Não consigo imaginá-lo
de guarda-pó branco, falando sério.
Uma vez entrei sem querer num laboratório e pude
ver meu amigo, o neurocirurgião Jair Raso, ao lado
de dois colegas de especialidade, remexendo o crânio
de um cadáver, com uma alegria que poucas vezes
se vê numa criança diante de um brinquedo
novo. Eles haviam descoberto alguma veia, artéria,
sei lá o que se esconde em meio à nossa
massa cinzenta. Na hora que vi aquilo tive certeza: os
três eram completamente loucos. Pois bem, Jair Raso
ocupa suas horas vagas – se é que as há
– ao teatro, que escreve, dirige, ilumina. E à
filosofia. E à psicanálise. É ou
não é doido? Assim como outro importante
neurocirurgião de Belo Horizonte, Raul Starling,
um senhor ator, fazendo comédia ou papel dramático.
E o que dizer de meu outro amigo, o veterinário
Fernando Ernesto, que por tantas vezes salvou a vida de
uma gatinha que eu tinha? Ele me provou que não
era mentira aquela história de sete vidas dos felinos.
E arrebenta nos palcos quando atua ao lado de seu grupo
Encena, há mais de 15 anos fazendo sucesso.
Grandes figuras como Tacão, Bebeto, Dângelo,
Ângelo, Jair, Raul e Fernando comprovam, para ficar
no campo dos ditados e anexins, que de médico e
de louco todo mundo tem um pouco. Os médico talvez
um pouco mais que nós outros. Mas quando ela dá
de ser loucura da boa, que felicidade para a saúde,
a arte e a cultura.
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