Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Erro de português de ou exclusão social
Clara Arreguy, 12/04/2000

Certas palavras têm uma sonoridade tão particular e tão cheia de um sentido próprio que deveriam, por decreto, mudar de significado. Por exemplo: Chapultepec, o nome do maior parque da Cidade do México, só poderia traduzir uma onomatopéia para “trupicão seguido de queda”. Ridícula é outra que deveria assumir outro significado: “ferida de caráter ridículo”. Equinócio poderia ter duplo sentido: “elegância própria dos eqüinos” ou “mancha roxa provocada por forte impacto”. Estas mudanças de sentido seriam ditadas arbitrariamente pelos poetas e cronistas da vez. Nada de comissão de sábios nomeada para este fim, nem de projeto de lei propondo regulamentação pelo Congresso Nacional. As palavras, assim como quem as manipula ou pronuncia, seriam livres para flutuar ao sabor dos ventos da imaginação.

Esta brincadeira me vem à mente desde que o ESTADO DE MINAS publicou no caderno Pensar, um importante artigo do professor de lingüística Marcos Bagno sobre o erro de português, que ele acredita que não exista. Li o livro do mestre paulista e tive que dar minha mão à palmatória. Para ele, a língua, como qualquer outra ciência, é viva e livre, portanto não está sujeita aos grilhões das gramáticas e dos gramáticos. É claro que a norma culta, aquela que rege a ortografia, a pontuação, a sintaxe, etc, continua existindo, e o autor do livro “Preconceitos Lingüísticos” é o primeiro a, na maior humildade, escrever bem, elegante e corretissimamente.

O que ele quer demonstrar, no entanto, é outra coisa: que comunicação é política, existe um fator de dominação e poder na relação entre quem sabe português e quem supostamente não sabe, quem fala errado – que para ele nada mais é que a exclusão do diferente. Assim, para sulistas de classe média, o sotaque nordestino seria brega, a troca de “cl” por “cr” (Cláudia por Cráudia) feia e condenável, e isto vem sendo reforçado ao longo do tempo, num desconhecimento de fenômenos lingüísticos muito antigos que vêm provocando, na língua portuguesa, este tipo de transformação. Vide a palavra “branco”, que em espanhol é blanco, em francês blanche, etc.

Fica fácil para as elites chamar de errados os pobres, os negros, os moradores de periferia (do País ou das cidades) e arrogar-se a correção e a beleza da pronúncia. Para Marcos Bagno, e cada dia concordo mais com suas proposições, não existe erro de português porque, quando alguém escreve na porta de sua biloca “loginha de artezanato”, a comunicação está plenamente realizada, atendendo portanto aos seus fins. Acredito que, quanto a isto, ele tenha total razão. Acho, no entanto, que existe erro sim, e este se dá quando, por limitações dadas pela própria exclusão, a pessoa não consegue comunicar-se a contento. Tem uma propaganda que exemplifica bem estes casos: o gênio manda a moça fazer um pedido, ela pede um homem mais velho, que a ouça e perdoe todos os seus defeitos, ele lhe manda de pronto o velho padre da paróquia.

É triste assistir ao esforço de pessoas mais simples quando vão a uma repartição pública tentar resolver algum problema – uma conta atrasada, a regularização de um documento, qualquer coisa do gênero. Nem sempre a pessoa sabe onde deve ir, que providências precisa tomar, e mesmo qual é efetivamente seu problema. Às vezes a pobre senhora consome horas do seu dia trocando de fila, sendo mal atendida num guichê, por alguém cuja escolaridade de dois ou três anos a mais lhe permite a arrogância e a má vontade.

No nosso País estamos carentes demais, das coisas mais variadas. Uma não seria tão inatingível: o entendimento de quanto de exclusão social pode ser combatida sem nenhuma medida oficial. Bastaria a sociedade, individual e coletivamente, abrir sua mente e seu coração para a aceitação do diferente, do aparentemente menor, mais fraco, mais ignorante. Vêm dos pequeninos – quantas vezes isto já foi provado e comprovado – as melhores e mais sábias lições.


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