Erro de português de ou exclusão social
Clara Arreguy, 12/04/2000
Certas palavras têm uma sonoridade tão particular
e tão cheia de um sentido próprio que deveriam,
por decreto, mudar de significado. Por exemplo: Chapultepec,
o nome do maior parque da Cidade do México, só
poderia traduzir uma onomatopéia para “trupicão
seguido de queda”. Ridícula é outra
que deveria assumir outro significado: “ferida de
caráter ridículo”. Equinócio
poderia ter duplo sentido: “elegância própria
dos eqüinos” ou “mancha roxa provocada
por forte impacto”. Estas mudanças de sentido
seriam ditadas arbitrariamente pelos poetas e cronistas
da vez. Nada de comissão de sábios nomeada
para este fim, nem de projeto de lei propondo regulamentação
pelo Congresso Nacional. As palavras, assim como quem as
manipula ou pronuncia, seriam livres para flutuar ao sabor
dos ventos da imaginação.
Esta brincadeira me vem à mente desde que o ESTADO
DE MINAS publicou no caderno Pensar, um importante artigo
do professor de lingüística Marcos Bagno sobre
o erro de português, que ele acredita que não
exista. Li o livro do mestre paulista e tive que dar minha
mão à palmatória. Para ele, a língua,
como qualquer outra ciência, é viva e livre,
portanto não está sujeita aos grilhões
das gramáticas e dos gramáticos. É
claro que a norma culta, aquela que rege a ortografia,
a pontuação, a sintaxe, etc, continua existindo,
e o autor do livro “Preconceitos Lingüísticos”
é o primeiro a, na maior humildade, escrever bem,
elegante e corretissimamente.
O que ele quer demonstrar, no entanto, é outra
coisa: que comunicação é política,
existe um fator de dominação e poder na
relação entre quem sabe português
e quem supostamente não sabe, quem fala errado
– que para ele nada mais é que a exclusão
do diferente. Assim, para sulistas de classe média,
o sotaque nordestino seria brega, a troca de “cl”
por “cr” (Cláudia por Cráudia)
feia e condenável, e isto vem sendo reforçado
ao longo do tempo, num desconhecimento de fenômenos
lingüísticos muito antigos que vêm provocando,
na língua portuguesa, este tipo de transformação.
Vide a palavra “branco”, que em espanhol é
blanco, em francês blanche, etc.
Fica fácil para as elites chamar de errados os
pobres, os negros, os moradores de periferia (do País
ou das cidades) e arrogar-se a correção
e a beleza da pronúncia. Para Marcos Bagno, e cada
dia concordo mais com suas proposições,
não existe erro de português porque, quando
alguém escreve na porta de sua biloca “loginha
de artezanato”, a comunicação está
plenamente realizada, atendendo portanto aos seus fins.
Acredito que, quanto a isto, ele tenha total razão.
Acho, no entanto, que existe erro sim, e este se dá
quando, por limitações dadas pela própria
exclusão, a pessoa não consegue comunicar-se
a contento. Tem uma propaganda que exemplifica bem estes
casos: o gênio manda a moça fazer um pedido,
ela pede um homem mais velho, que a ouça e perdoe
todos os seus defeitos, ele lhe manda de pronto o velho
padre da paróquia.
É triste assistir ao esforço de pessoas
mais simples quando vão a uma repartição
pública tentar resolver algum problema –
uma conta atrasada, a regularização de um
documento, qualquer coisa do gênero. Nem sempre
a pessoa sabe onde deve ir, que providências precisa
tomar, e mesmo qual é efetivamente seu problema.
Às vezes a pobre senhora consome horas do seu dia
trocando de fila, sendo mal atendida num guichê,
por alguém cuja escolaridade de dois ou três
anos a mais lhe permite a arrogância e a má
vontade.
No nosso País estamos carentes demais, das coisas
mais variadas. Uma não seria tão inatingível:
o entendimento de quanto de exclusão social pode
ser combatida sem nenhuma medida oficial. Bastaria a sociedade,
individual e coletivamente, abrir sua mente e seu coração
para a aceitação do diferente, do aparentemente
menor, mais fraco, mais ignorante. Vêm dos pequeninos
– quantas vezes isto já foi provado e comprovado
– as melhores e mais sábias lições.
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