Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Cenas de uma tarde de sábado
Clara Arreguy, 12/03/2001

Andando pelas ruas da cidade neste final de verão, quase outono, com tão poucas águas de março a lembrar a música, estarreço-me com tantas árvores floridas. Não entendo nada de flores, mas gosto de vê-las, aspirar seu perfume, falar delas, pronunciar seus nomes. São buganvílias as minhas preferidas, em que pesem tantas quaresmeiras a exibir diferentes tonalidades, só para dizerem presente à estação e confirmarem sua condição de árvore-símbolo de Belo Horizonte. Das buganvílias – que muitos preferem chamar na versão afrancesada – admiro a simplicidade, a multiplicidade de cores, aquela queda recurvada sobre muros e outros encostos, e os espinhos. Certa vez cheguei a trazer uma muda de buganvília roxinha de Florianópolis. Nada que não tivesse por aqui. Mas foi amor à primeira vista, e a tolerância que a flor teve às horas de avião e aeroporto até chegar a BH comprovou que eu estava certa: ele precisava sair de lá e vir fincar raízes aqui.

Não entendo nada de flores nem da natureza, seus ciclos, seus mistérios. Mas gosto assim mesmo de falar dela. Como não entendo nada da vida, não entendo nada do amor, e mesmo assim gosto – não preciso – falar da vida, da morte, do amor, de Deus, dos mistérios.

Foi assim: havia três meninos e uma menina. Quatro, cinco anos cada. Todos brincavam de escorregar num escorregador na porta de um restaurante, enquanto os pais e tios comiam picanha na chapa. Os meninos já estavam descabelados, suados, descalços. Com aquela deliciosa morrinha de criança brincando. A menina não: linda, olhos azuis arregalados, vestido de pano colorido, sandalinha rosa, não perdia a pose, a elegância. Ela descia sentadinha, dando poucos lances de sua calcinha amarela, sem pôr o dedo no nariz e sem se descompor jamais. Eles, não: desciam sentados, deitados de bruços, de cabeça pra baixo, em pé. Subiam de volta de frente, de costas, se pavoneando para aquela doçura de menina de olhos claros.

Alguns usavam até a desculpa de se mostrar pra titia e pro papai, que não tiravam os olhos: olha esse agora, tia. Duvida que eu faço assim? Os outros ainda bancavam os auto-suficientes, fingindo que não se importavam com o olhar embevecido dos adultos.

Fiquei ali olhando, como que sob o encantamento da cena. A infância capaz de se ocupar, meias-horas a fio, de subir e descer do escorregador. De subir a escadinha aos trancos e barrancos, com aquele equilíbrio precário que ninguém explica como é que não cai. Com aquela alegria e liberdade de quem tem pela frente a tarefa e o desafio de subir e descer, de inventar caminhos e movimentos. Com a sabedoria de que, para ser feliz, não há meta e sim meio. Não há fim, somente percurso. Não há solução, somente construção. É preciso aprender com os meninos.


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