Cenas de uma tarde de sábado
Clara Arreguy, 12/03/2001
Andando pelas ruas da cidade neste final de verão,
quase outono, com tão poucas águas de março
a lembrar a música, estarreço-me com tantas
árvores floridas. Não entendo nada de flores,
mas gosto de vê-las, aspirar seu perfume, falar delas,
pronunciar seus nomes. São buganvílias as
minhas preferidas, em que pesem tantas quaresmeiras a exibir
diferentes tonalidades, só para dizerem presente
à estação e confirmarem sua condição
de árvore-símbolo de Belo Horizonte. Das buganvílias
– que muitos preferem chamar na versão afrancesada
– admiro a simplicidade, a multiplicidade de cores,
aquela queda recurvada sobre muros e outros encostos, e
os espinhos. Certa vez cheguei a trazer uma muda de buganvília
roxinha de Florianópolis. Nada que não tivesse
por aqui. Mas foi amor à primeira vista, e a tolerância
que a flor teve às horas de avião e aeroporto
até chegar a BH comprovou que eu estava certa: ele
precisava sair de lá e vir fincar raízes aqui.
Não entendo nada de flores nem da natureza, seus
ciclos, seus mistérios. Mas gosto assim mesmo de
falar dela. Como não entendo nada da vida, não
entendo nada do amor, e mesmo assim gosto – não
preciso – falar da vida, da morte, do amor, de Deus,
dos mistérios.
Foi assim: havia três meninos e uma menina. Quatro,
cinco anos cada. Todos brincavam de escorregar num escorregador
na porta de um restaurante, enquanto os pais e tios comiam
picanha na chapa. Os meninos já estavam descabelados,
suados, descalços. Com aquela deliciosa morrinha
de criança brincando. A menina não: linda,
olhos azuis arregalados, vestido de pano colorido, sandalinha
rosa, não perdia a pose, a elegância. Ela
descia sentadinha, dando poucos lances de sua calcinha
amarela, sem pôr o dedo no nariz e sem se descompor
jamais. Eles, não: desciam sentados, deitados de
bruços, de cabeça pra baixo, em pé.
Subiam de volta de frente, de costas, se pavoneando para
aquela doçura de menina de olhos claros.
Alguns usavam até a desculpa de se mostrar pra
titia e pro papai, que não tiravam os olhos: olha
esse agora, tia. Duvida que eu faço assim? Os outros
ainda bancavam os auto-suficientes, fingindo que não
se importavam com o olhar embevecido dos adultos.
Fiquei ali olhando, como que sob o encantamento da cena.
A infância capaz de se ocupar, meias-horas a fio,
de subir e descer do escorregador. De subir a escadinha
aos trancos e barrancos, com aquele equilíbrio
precário que ninguém explica como é
que não cai. Com aquela alegria e liberdade de
quem tem pela frente a tarefa e o desafio de subir e descer,
de inventar caminhos e movimentos. Com a sabedoria de
que, para ser feliz, não há meta e sim meio.
Não há fim, somente percurso. Não
há solução, somente construção.
É preciso aprender com os meninos.
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