O perigo real de dormir com seu inimigo
Clara Arreguy, 15/03/2000
O mais recente escândalo nacional, as denúncias
de dona Nicéia Pitta contra o ex-marido, o prefeito
de São Paulo Celso Pitta, lembra um filme de suspense
de nome “Dormindo com o Inimigo” e prova que
mais uma vez a vida íntima imita a arte. Em meio
ao novo mar de lama que emerge regurgitado pela ira que
se seguiu ao deslance do casamento dos Pitta, não
deixa de ter sua dose de ironia: antigamente, os inimigos
moravam em outra rua, não passavam na calçada
da gente, não casavam com as filhas da gente. De
uns tempos pra cá, vide Pedro Collor e as denúncias
que vieram desembocar no impeachment, para ficar nos nomes
de filme, o perigo é real e imediato.
Não que isso diminua o teor e a gravidade das
revelações de dona Nicéia. Acusá-la
de rancor por causa da separação cheira
àqueles velhos argumentos contra mulheres: são
mal-amadas, estão precisando de homem, isso é
porque eu a desprezei... Tal machismo não merece
nem comentários. Está certo que tudo que
ela contou já vinha sendo alvo de investigações
(tímidas), aquele tipo de história que todo
mundo sabe mas não tem como provar. A diferença
é vir de dentro de casa, da cama do acusado, a
confirmação. Tal qual Pedro Collor, dona
Nicéia nomina todos os bois, cifras e métodos.
Vem todas as informações básicas.
Já virou comentário geral: ao abrir a boca
com tal despudor, a ex-mulher do prefeito corre risco
de vida. Quem não se lembra do destino de dona
Elma, a mulher de Paulo César Farias, que soltou
os cachorros sobre a família de Collor e teve morte
súbita e misteriosa pouco depois? E o próprio
irmão do ex-presidente, também morto por
uma doença avassaladora? E mesmo do PC Farias (assassinado
dentro de casa, na cama com sua namorada, Suzana Marcolino,
que durante um tempo foi considerada a culpada do crime),
cujo inquérito finalmente indica alguém
que teria interesse em silenciá-lo – o irmão
dele, deputado Augusto Farias, também freqüentador
das CPIs do narcotráfico...
Vejam bem, são maridos, irmãos, namoradas,
ex-mulheres, os que traem, entregam, matam. As disputas
de poder, dinheiro, ego, que no Brasil neoliberado já
não se importam com respeito a leis, códigos
morais ou éticos, hoje desprezam também
aqueles laços familiares antigamente considerados
sagrados. A força do sangue, onde não sobrevive
nenhum valor, também já não vale
nada. O império que parece comandar o País
do subsolo de um poder paralelo se organiza em estruturas
mais próximas daquelas histórias de gângsters
do que uma face visível em partidos, grupos econômicos
e organizações políticas ou civis.
É assustador.
Falando assim até parece que estamos em Chicago
dos anos 30 ou faroeste do século passado. É
claro que não. É claro que estruturas democráticas
resistem a duras penas, no Congresso, nas entidades de
classe, em instituições civis como a OAB,
de tanta atividade em épocas passadas e que agora
volta a agir, pedindo o impeachment de Celso Pitta. Nesse
meio tempo, entre a ditadura militar e o Brasil globalizado
do ano 2000, enquanto os grandes grupos multinacionais,
sob os auspícios de partidos e políticos
brasileiros, junto com uma estrutura subterrânea
de corrupção tomaram conta do Brasil, outras
forças do povo se organizam e tentam mostrar que
o País tem jeito sim. Que podemos recuperar as
rédeas de nosso desenvolvimento e devolver à
Nação a auto-estima perdida. É mais
difícil quando nos sentimos ilhas num mar de lama,
cercados pelo cheiro de pizza que acompanha todos os escândalos.
Mas o povo não tem nada com isto. E segue lutando
pela vida e pela dignidade, apesar de tudo.
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