Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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O perigo real de dormir com seu inimigo
Clara Arreguy, 15/03/2000

O mais recente escândalo nacional, as denúncias de dona Nicéia Pitta contra o ex-marido, o prefeito de São Paulo Celso Pitta, lembra um filme de suspense de nome “Dormindo com o Inimigo” e prova que mais uma vez a vida íntima imita a arte. Em meio ao novo mar de lama que emerge regurgitado pela ira que se seguiu ao deslance do casamento dos Pitta, não deixa de ter sua dose de ironia: antigamente, os inimigos moravam em outra rua, não passavam na calçada da gente, não casavam com as filhas da gente. De uns tempos pra cá, vide Pedro Collor e as denúncias que vieram desembocar no impeachment, para ficar nos nomes de filme, o perigo é real e imediato.

Não que isso diminua o teor e a gravidade das revelações de dona Nicéia. Acusá-la de rancor por causa da separação cheira àqueles velhos argumentos contra mulheres: são mal-amadas, estão precisando de homem, isso é porque eu a desprezei... Tal machismo não merece nem comentários. Está certo que tudo que ela contou já vinha sendo alvo de investigações (tímidas), aquele tipo de história que todo mundo sabe mas não tem como provar. A diferença é vir de dentro de casa, da cama do acusado, a confirmação. Tal qual Pedro Collor, dona Nicéia nomina todos os bois, cifras e métodos. Vem todas as informações básicas.

Já virou comentário geral: ao abrir a boca com tal despudor, a ex-mulher do prefeito corre risco de vida. Quem não se lembra do destino de dona Elma, a mulher de Paulo César Farias, que soltou os cachorros sobre a família de Collor e teve morte súbita e misteriosa pouco depois? E o próprio irmão do ex-presidente, também morto por uma doença avassaladora? E mesmo do PC Farias (assassinado dentro de casa, na cama com sua namorada, Suzana Marcolino, que durante um tempo foi considerada a culpada do crime), cujo inquérito finalmente indica alguém que teria interesse em silenciá-lo – o irmão dele, deputado Augusto Farias, também freqüentador das CPIs do narcotráfico...

Vejam bem, são maridos, irmãos, namoradas, ex-mulheres, os que traem, entregam, matam. As disputas de poder, dinheiro, ego, que no Brasil neoliberado já não se importam com respeito a leis, códigos morais ou éticos, hoje desprezam também aqueles laços familiares antigamente considerados sagrados. A força do sangue, onde não sobrevive nenhum valor, também já não vale nada. O império que parece comandar o País do subsolo de um poder paralelo se organiza em estruturas mais próximas daquelas histórias de gângsters do que uma face visível em partidos, grupos econômicos e organizações políticas ou civis. É assustador.

Falando assim até parece que estamos em Chicago dos anos 30 ou faroeste do século passado. É claro que não. É claro que estruturas democráticas resistem a duras penas, no Congresso, nas entidades de classe, em instituições civis como a OAB, de tanta atividade em épocas passadas e que agora volta a agir, pedindo o impeachment de Celso Pitta. Nesse meio tempo, entre a ditadura militar e o Brasil globalizado do ano 2000, enquanto os grandes grupos multinacionais, sob os auspícios de partidos e políticos brasileiros, junto com uma estrutura subterrânea de corrupção tomaram conta do Brasil, outras forças do povo se organizam e tentam mostrar que o País tem jeito sim. Que podemos recuperar as rédeas de nosso desenvolvimento e devolver à Nação a auto-estima perdida. É mais difícil quando nos sentimos ilhas num mar de lama, cercados pelo cheiro de pizza que acompanha todos os escândalos. Mas o povo não tem nada com isto. E segue lutando pela vida e pela dignidade, apesar de tudo.


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