Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Bandidos em todas as esferas de poder
Clara Arreguy, 17/12/2000

“Agora já não é normal/ O que dá de malandro regular, profissional/ Malandro com aparato de malandro oficial/ Malandro candidato a malandro federal/ Malandro com retrato na coluna social/ Malandro com contrato, com gravata e capital/ Que nunca se dá mal...” Quem ouvisse esses versos de Chico Buarque, nos idos dos anos 70/80, não poderia julgar que o poeta fosse em profeta com tamanha visão do futuro. O que se vê no Brasil de hoje suplanta qualquer previsão pessimista que os inimigos da ditadura militar podiam fazer na época. É claro que a ironia de alguns certamente deve ter vaticinado: “Depois de mim virá quem me fará”, mas quem diria que chegaríamos a tal ponto...

Para o leitor menos atento, uma informação: o noticiário dos jornais, normalmente, se divide por editorias: cultura, esporte, política, economia, polícia, etc. Certos assuntos têm fronteiras muito próximas, confusas até, entre competências, e daí muitas vezes haver duplicidade de abordagem. Na atualidade, isto tudo foi para o espaço. Com a vida nacional invadida por bandidos de todos os tipos, estilos e modalidades de atuação, política virou polícia, economia virou polícia, esporte virou polícia. O Brasil inteiro virou um grande caso de polícia. Nem na polícia dá pra gente confiar. Novamente recorrendo ao profético compositor, “chama o ladrão!”.

Mas a quê, afinal, se deve esta verdadeira tomada de poder pela bandidagem, hoje facilmente encontrada nas esferas do executivo, do legislativo, do judiciário, em empresas com cara de sérias, no comando de clubes esportivos e federações, entre os bem-nascidos e os bem-vestidos. Obviamente que o fenômeno não é de hoje. E que a mal lembrada ditadura sedimentou práticas, como a corrpução, que já existiam e eram combatidas por algumas elites conservadoras mas de estirpe pelo menos honesta. O autoritarismo consolidou o poder de um tipo de gente – até torturadores – que ainda hoje aparece me cargos de comando. E assim, como um vírus, como um câncer, o banditismo vem-se espalhando pelos mais diversos setores, corroendo instituições e relações, esfarelando a própria sociedade.

O que fazer diante de poderes tão arraigados e tão fortemente disseminados por todo lado é um desafio para quem ainda tem esperanças numa vida mais humana, justa e ética. As CPIs, por exemplo, que chegam a perder visibilidade de tanto que proliferam, não deixam de ser um caminho. Por mais que percam a força depois que se encerram as investigações, naqueles fóruns conduzidos por gente do bem é possível mapear ao menos uma parte da sujeira – vide o encerramento das CPIs do narcotráfico nos planos federal e estadual, que identificaram criminosos até então insuspeitos e apontaram para a Justiça rumos para a investigação e indiciamento. Ao ver as recém-divulgadas listas de bandidos infiltrados no Congresso Nacional, na Assembléia Legislativa, em ministérios e outras esferas públicas, dá esperança de termos em ação aquilo que os filmes americanos chamam de good guys combatendo os bad guys – há enfim, quem se mobilize e, corajosamente, enfrente a besta. É perigoso, os maus se organizam melhor que os bons, em máfias, em violentas gangues que deixam no chinelo os estereótipos que nos acostumamos a ver no cinema. “É preciso estar atento e forte”, pode-se concluir, recorrendo agora a outro grande poeta da canção popular.


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