Bandidos em todas as esferas de poder
Clara Arreguy, 17/12/2000
“Agora já não é normal/ O
que dá de malandro regular, profissional/ Malandro
com aparato de malandro oficial/ Malandro candidato a
malandro federal/ Malandro com retrato na coluna social/
Malandro com contrato, com gravata e capital/ Que nunca
se dá mal...” Quem ouvisse esses versos de
Chico Buarque, nos idos dos anos 70/80, não poderia
julgar que o poeta fosse em profeta com tamanha visão
do futuro. O que se vê no Brasil de hoje suplanta
qualquer previsão pessimista que os inimigos da
ditadura militar podiam fazer na época. É
claro que a ironia de alguns certamente deve ter vaticinado:
“Depois de mim virá quem me fará”,
mas quem diria que chegaríamos a tal ponto...
Para o leitor menos atento, uma informação:
o noticiário dos jornais, normalmente, se divide
por editorias: cultura, esporte, política, economia,
polícia, etc. Certos assuntos têm fronteiras
muito próximas, confusas até, entre competências,
e daí muitas vezes haver duplicidade de abordagem.
Na atualidade, isto tudo foi para o espaço. Com
a vida nacional invadida por bandidos de todos os tipos,
estilos e modalidades de atuação, política
virou polícia, economia virou polícia, esporte
virou polícia. O Brasil inteiro virou um grande
caso de polícia. Nem na polícia dá
pra gente confiar. Novamente recorrendo ao profético
compositor, “chama o ladrão!”.
Mas a quê, afinal, se deve esta verdadeira tomada
de poder pela bandidagem, hoje facilmente encontrada nas
esferas do executivo, do legislativo, do judiciário,
em empresas com cara de sérias, no comando de clubes
esportivos e federações, entre os bem-nascidos
e os bem-vestidos. Obviamente que o fenômeno não
é de hoje. E que a mal lembrada ditadura sedimentou
práticas, como a corrpução, que já
existiam e eram combatidas por algumas elites conservadoras
mas de estirpe pelo menos honesta. O autoritarismo consolidou
o poder de um tipo de gente – até torturadores
– que ainda hoje aparece me cargos de comando. E
assim, como um vírus, como um câncer, o banditismo
vem-se espalhando pelos mais diversos setores, corroendo
instituições e relações, esfarelando
a própria sociedade.
O que fazer diante de poderes tão arraigados e
tão fortemente disseminados por todo lado é
um desafio para quem ainda tem esperanças numa
vida mais humana, justa e ética. As CPIs, por exemplo,
que chegam a perder visibilidade de tanto que proliferam,
não deixam de ser um caminho. Por mais que percam
a força depois que se encerram as investigações,
naqueles fóruns conduzidos por gente do bem é
possível mapear ao menos uma parte da sujeira –
vide o encerramento das CPIs do narcotráfico nos
planos federal e estadual, que identificaram criminosos
até então insuspeitos e apontaram para a
Justiça rumos para a investigação
e indiciamento. Ao ver as recém-divulgadas listas
de bandidos infiltrados no Congresso Nacional, na Assembléia
Legislativa, em ministérios e outras esferas públicas,
dá esperança de termos em ação
aquilo que os filmes americanos chamam de good guys combatendo
os bad guys – há enfim, quem se mobilize
e, corajosamente, enfrente a besta. É perigoso,
os maus se organizam melhor que os bons, em máfias,
em violentas gangues que deixam no chinelo os estereótipos
que nos acostumamos a ver no cinema. “É preciso
estar atento e forte”, pode-se concluir, recorrendo
agora a outro grande poeta da canção popular.
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