A terceira idade na ponta de lança do inconformismo
Clara Arreguy, 29/04/2000
Os novos tempos em que o Brasil vive, de cabeça para
baixo em questões de valores, criaram uma situação
paradoxal e engraçada: se nos velhos tempos juventude
era sinônimo de rebeldia e protesto, hoje os jovens
brasileiros, em sua grande maioria, vivem um estado de total
apatia. Enquanto isto os velhos, outrora representantes
do conservadorismo, hoje, premidos pelas circunstâncias,
assumem a ponta de lança do espírito de luta
e inconformismo nacional. Mais um subproduto do descaso,
dos mais tratos e da política de arrasa-quarteirão
que a chamada globalização impôs a aposentados
e trabalhadores brasileiros.
No caso dos aposentados, é clara a política
de implosão da previdência social para facilitar
a entrada da previdência privada, através
dos grandes grupos econômicos, nacionais ou estrangeiros,
neste atraente filão. Senão, como explicar
a insistência das autoridades em imputar aos beneficiários
da previdência a culpa pela sua falência,
depois de décadas de má administração,
desvios colossais – alguns até apurados,
como o daquela mulher que ficou famosa roubando, fugindo
e fazendo plástica para mudar de cara e de cor
– cujos montantes desviados nunca retornam ao bolso
de onde saíram? Seria cômico, não
fosse trágico, ler nos mesmos jornais que o governo
não tem idéia de onde tirar dinheiro para
aumentar o salário de mínimo ou os benefícios
dos aposentados e que semana passada desembolsou 10 bilhões
para pagamento de encargos da dívida externa. Vão
dizer que são rubricas diferentes, que o gasto
empenhado numa não pode cobrir despesa da outra.
Ora, com vontade política (um chavão muito
em moda, afinal toda vontade é política,
ou não?) e uma caneta afiada, lá vai a medida
provisória determinando que, ao invés dos
10 bilhões para os credores e zero para os aposentados,
as cifras serão invertidas... Ou mais bem distribuídas...
Solução há. Os aposentados de hoje
são os trabalhadores que recolheram, maiores ou
menores quantias, dependendo se eram servidores público
ou da iniciativa privada, e não malversaram dinheiro
público. Não podem ser punidos nem transformados
em meros números na contabilidade nacional. Economia
é ciência humana, não exata, já
explicaram Celso Furtado, Cristóvam Buarque e outros
economistas do bem. Não pode um governo simplesmente
excluir da justiça social (substantivo abstrato)
todo um segmento da população, e numa inversão
de valores que quer fazer dos velhos os exploradores,
os “vagabundos” que um ato falho do presidente
deixou escapar tempos atrás. Logo eles, que já
se sacrificaram a vida toda, dando sua cota de participação
para o desenvolvimento do País, acumulando e multiplicando
conhecimentos, conduzindo sua geração.
Por isto, hoje, a política neoliberal empurra
nosso velhos para a oposição. Nunca antes
o Brasil assistiu a esta troca de posições:
de um lado a meninada apática, conformada, tocando
a vida entre um programa de MTV e uma azarada no shopping,
torcendo e rezando para passar no vestibular e arranjar
um emprego; de outro a coroada fazendo comício
na fila do banco, na fila do sacolão, na roda da
praça Sete, identificando-se com categorias profissionais
que antes considerava um bando de baderneiros. Isto na
classe média, porque na zona da pobreza absoluta
a violência já se alastra como cotidiano
de uma juventude sem chances e sem futuro, condenada ao
tráfico e a outras formas de sobrevivência
abaixo da dignidade.
Tirando a parte trágica desta realidade, até
dá gosto ver a terceira idade trocando a preocupação
com a palavra cruzada pela ação transformadora
e cidadã. Mesmo com tantas forças contrárias,
nossos velhinhos estão mais uma vez dando na gente
orgulho de ser brasileiro.
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