Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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A terceira idade na ponta de lança do inconformismo
Clara Arreguy, 29/04/2000

Os novos tempos em que o Brasil vive, de cabeça para baixo em questões de valores, criaram uma situação paradoxal e engraçada: se nos velhos tempos juventude era sinônimo de rebeldia e protesto, hoje os jovens brasileiros, em sua grande maioria, vivem um estado de total apatia. Enquanto isto os velhos, outrora representantes do conservadorismo, hoje, premidos pelas circunstâncias, assumem a ponta de lança do espírito de luta e inconformismo nacional. Mais um subproduto do descaso, dos mais tratos e da política de arrasa-quarteirão que a chamada globalização impôs a aposentados e trabalhadores brasileiros.

No caso dos aposentados, é clara a política de implosão da previdência social para facilitar a entrada da previdência privada, através dos grandes grupos econômicos, nacionais ou estrangeiros, neste atraente filão. Senão, como explicar a insistência das autoridades em imputar aos beneficiários da previdência a culpa pela sua falência, depois de décadas de má administração, desvios colossais – alguns até apurados, como o daquela mulher que ficou famosa roubando, fugindo e fazendo plástica para mudar de cara e de cor – cujos montantes desviados nunca retornam ao bolso de onde saíram? Seria cômico, não fosse trágico, ler nos mesmos jornais que o governo não tem idéia de onde tirar dinheiro para aumentar o salário de mínimo ou os benefícios dos aposentados e que semana passada desembolsou 10 bilhões para pagamento de encargos da dívida externa. Vão dizer que são rubricas diferentes, que o gasto empenhado numa não pode cobrir despesa da outra. Ora, com vontade política (um chavão muito em moda, afinal toda vontade é política, ou não?) e uma caneta afiada, lá vai a medida provisória determinando que, ao invés dos 10 bilhões para os credores e zero para os aposentados, as cifras serão invertidas... Ou mais bem distribuídas...

Solução há. Os aposentados de hoje são os trabalhadores que recolheram, maiores ou menores quantias, dependendo se eram servidores público ou da iniciativa privada, e não malversaram dinheiro público. Não podem ser punidos nem transformados em meros números na contabilidade nacional. Economia é ciência humana, não exata, já explicaram Celso Furtado, Cristóvam Buarque e outros economistas do bem. Não pode um governo simplesmente excluir da justiça social (substantivo abstrato) todo um segmento da população, e numa inversão de valores que quer fazer dos velhos os exploradores, os “vagabundos” que um ato falho do presidente deixou escapar tempos atrás. Logo eles, que já se sacrificaram a vida toda, dando sua cota de participação para o desenvolvimento do País, acumulando e multiplicando conhecimentos, conduzindo sua geração.

Por isto, hoje, a política neoliberal empurra nosso velhos para a oposição. Nunca antes o Brasil assistiu a esta troca de posições: de um lado a meninada apática, conformada, tocando a vida entre um programa de MTV e uma azarada no shopping, torcendo e rezando para passar no vestibular e arranjar um emprego; de outro a coroada fazendo comício na fila do banco, na fila do sacolão, na roda da praça Sete, identificando-se com categorias profissionais que antes considerava um bando de baderneiros. Isto na classe média, porque na zona da pobreza absoluta a violência já se alastra como cotidiano de uma juventude sem chances e sem futuro, condenada ao tráfico e a outras formas de sobrevivência abaixo da dignidade.

Tirando a parte trágica desta realidade, até dá gosto ver a terceira idade trocando a preocupação com a palavra cruzada pela ação transformadora e cidadã. Mesmo com tantas forças contrárias, nossos velhinhos estão mais uma vez dando na gente orgulho de ser brasileiro.


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