No Brasil, quem governa é uma emissora de TV
Clara Arreguy, 23/02/2000
Só mesmo num país que não tem governo
um evento da importância das comemorações
do Brasil 500 é assumido pela Rede Globo. Não
é isso que está acontecendo? Quem forjou um
conceito e o vem implementando é a maior emissora
de TV do País, e não o governo. Quem está
desenvolvendo projetos – relatados diariamente no
“Jornal Nacional”, todos direta ou indiretamente
relacionados com melhorias na área de educação
–, quem dá o tom, quem criou a marca e a divulga,
tudo está nas mãos da televisão. O
governo abriu mão de seu papel na condução
desde processo, como tem feito em tantos outros, tão
ou mais importantes.
No campo do imaginário nacional, da ação
sobre o simplório, definitivamente não temos
governo. Mal e porcamente, no últimos anos os governantes
se ocupam apenas e tão somente de economia. Não
há assunto ou questão que lhes interesse.
As comemorações dos 500 anos do descobrimento,
que poderiam ter ensejado um grande debate nacional em
torno da nossa vocação, nosso destino, nosso
futuro, nossas perspectivas e possibilidades, estão
permitindo pouco mais do que a contagem regressiva e a
observação do relógião do
Hans Donner, instalado em diversas cidades do País
– entre as quais BH, na Praça do Papa. E
param por aí.
Alguns anos atrás até que o governo ensaiou
passos em direção a um conceito para efeméride
dos 500 anos. O evento ficaria no âmbito do Itamaraty,
órgão subitamente freqüentado por pessoal
com formação mais sólida do que alguns
ministérios. Depois, a comissão foi extinta
e o assunto passou às mãos do Ministério
dos Esportes e Turismo, encabeçado pelo “impoluto”
Rafael Grega (freqüentador do noticiário do
escândalo dos bingos, entre outros). Politicamente,
a condução já vinha sendo conservadora,
de muito ufanismo e pouca crítica – como
por exemplo a falta de uma leitura de perspectiva histórica
mais profunda, que situasse o contexto da chegada dos
portugueses, os efeitos devastadores da civilização
européia sobre as sociedades indígenas,
o genocídio. Até acenas para as nações
sobreviventes na região de Porto Segura, na Bahia,
com novos apitos e balangandãs, foi tentado pelos
organizadores das celebrações, para envolver
os índios no clima de festa e não permitir
protestos. Agora sob nova direção, nem debate,
nem reflexão histórica. Sobrou apenas o
oba-oba – e olhe que algumas iniciativas esparsas
vêm sendo encaminhadas, principalmente pelas universidades
e pelo mercado editorial, aquecido pelas boas vendas de
livros sobre temas históricos – Eduardo Bueno
e seus três campeões de vendagem que o digam.
Aqui, no ESTADO DE MINAS, o caderno Pensar editou uma
série de artigos sobre o tema, entre agosto e outubro
do ano passado, questionando desde o sentido das comemorações
em si, a falta de uma visão crítica, o significado
do 22 de abril de 1500 na formação da identidade
nacional, até aspectos da história do Brasil
nestes cinco séculos, o impacto sobre os índios
e negros, a evolução da nossa música,
das artes cênicas, da literatura, a importância
da lingua portuguesa, etc. Para viabilizar as oito edições
e quase 30 artigos, tivemos a parceria dos Correios, única
instituição estatal que parece realmente
ocupada com este debate, e que patrocina projeto semelhante
no rádio, “Em Minas são outros 500”,
sobre o papel de Minas Gerais na cultura brasileira.
Isto tudo só para comprovar mais uma vez que o
Brasil não tem governo. Como se o ufanismo do Brasil
500 tivesse mais que importância simbólica
na valorização da auto-estima nacional,
tão baixa nos últimos tempos. Culpa destes
mesmos (des)governantes, que fazem de tudo para nos convencer
de que temos mais é que vender o resto do País
às multinacionais que estaremos em melhores mãos.
Está no noticiário de ontem: os sistemas
de telefonia e energia elétrica privatizados pioraram,
o que funcionava não funciona mais, as agências
nacionais criadas para fiscalizar e regular os serviços
também não cumprem seu papel. Então
tá.
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