Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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No Brasil, quem governa é uma emissora de TV
Clara Arreguy, 23/02/2000

Só mesmo num país que não tem governo um evento da importância das comemorações do Brasil 500 é assumido pela Rede Globo. Não é isso que está acontecendo? Quem forjou um conceito e o vem implementando é a maior emissora de TV do País, e não o governo. Quem está desenvolvendo projetos – relatados diariamente no “Jornal Nacional”, todos direta ou indiretamente relacionados com melhorias na área de educação –, quem dá o tom, quem criou a marca e a divulga, tudo está nas mãos da televisão. O governo abriu mão de seu papel na condução desde processo, como tem feito em tantos outros, tão ou mais importantes.

No campo do imaginário nacional, da ação sobre o simplório, definitivamente não temos governo. Mal e porcamente, no últimos anos os governantes se ocupam apenas e tão somente de economia. Não há assunto ou questão que lhes interesse. As comemorações dos 500 anos do descobrimento, que poderiam ter ensejado um grande debate nacional em torno da nossa vocação, nosso destino, nosso futuro, nossas perspectivas e possibilidades, estão permitindo pouco mais do que a contagem regressiva e a observação do relógião do Hans Donner, instalado em diversas cidades do País – entre as quais BH, na Praça do Papa. E param por aí.

Alguns anos atrás até que o governo ensaiou passos em direção a um conceito para efeméride dos 500 anos. O evento ficaria no âmbito do Itamaraty, órgão subitamente freqüentado por pessoal com formação mais sólida do que alguns ministérios. Depois, a comissão foi extinta e o assunto passou às mãos do Ministério dos Esportes e Turismo, encabeçado pelo “impoluto” Rafael Grega (freqüentador do noticiário do escândalo dos bingos, entre outros). Politicamente, a condução já vinha sendo conservadora, de muito ufanismo e pouca crítica – como por exemplo a falta de uma leitura de perspectiva histórica mais profunda, que situasse o contexto da chegada dos portugueses, os efeitos devastadores da civilização européia sobre as sociedades indígenas, o genocídio. Até acenas para as nações sobreviventes na região de Porto Segura, na Bahia, com novos apitos e balangandãs, foi tentado pelos organizadores das celebrações, para envolver os índios no clima de festa e não permitir protestos. Agora sob nova direção, nem debate, nem reflexão histórica. Sobrou apenas o oba-oba – e olhe que algumas iniciativas esparsas vêm sendo encaminhadas, principalmente pelas universidades e pelo mercado editorial, aquecido pelas boas vendas de livros sobre temas históricos – Eduardo Bueno e seus três campeões de vendagem que o digam. Aqui, no ESTADO DE MINAS, o caderno Pensar editou uma série de artigos sobre o tema, entre agosto e outubro do ano passado, questionando desde o sentido das comemorações em si, a falta de uma visão crítica, o significado do 22 de abril de 1500 na formação da identidade nacional, até aspectos da história do Brasil nestes cinco séculos, o impacto sobre os índios e negros, a evolução da nossa música, das artes cênicas, da literatura, a importância da lingua portuguesa, etc. Para viabilizar as oito edições e quase 30 artigos, tivemos a parceria dos Correios, única instituição estatal que parece realmente ocupada com este debate, e que patrocina projeto semelhante no rádio, “Em Minas são outros 500”, sobre o papel de Minas Gerais na cultura brasileira.

Isto tudo só para comprovar mais uma vez que o Brasil não tem governo. Como se o ufanismo do Brasil 500 tivesse mais que importância simbólica na valorização da auto-estima nacional, tão baixa nos últimos tempos. Culpa destes mesmos (des)governantes, que fazem de tudo para nos convencer de que temos mais é que vender o resto do País às multinacionais que estaremos em melhores mãos. Está no noticiário de ontem: os sistemas de telefonia e energia elétrica privatizados pioraram, o que funcionava não funciona mais, as agências nacionais criadas para fiscalizar e regular os serviços também não cumprem seu papel. Então tá.


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