Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Anedotas de uma família de revisores
Clara Arreguy, 24/12/2000

Era uma família de revisores. Gente de jornal, de escola, agência e editora. A linguagem que usavam, em casa, no serviço ou na rua, era essa e só essa. Papel era lauda. Corrigir era copidescar. O vício constante de consertar, de buscar a concisão e a objetividade. Do velho avô à jovem senhora, do moço profissional de agência de propaganda à recém-formada, todo mundo revisor. Quando alguém, na hora de contar um caso comprido, custava muito a entrar no assunto, o protesto era geral: “Salta o nariz de cera e vai logo pro lead!”. Assim, com essa mesma petulância.

O mais engraçado era a mania de ficar corrigindo os outros. Uma das mais antigas revisoras da família gabava-se de devolver a um barnabé, do alto de sua sapiência: “A senhora me dá sua rúbrica?”. E ela: “Não, só dou a minha rubrica!”. A implicância de outro rapaz era com a maquininha de estacionamento de um shopping: “Insira seu cartão”. Ao que ele sempre respondia furibundo: “Não insiro porque este verbo é defectivo e portanto não comporta essa conjugação!”. Eram assim os rompantes da família de revisores.

Uma lá era subeditora num jornal e vivia de acentuar e pontuar o que os outros esqueciam. Implicante, não deixava por menos. A cada vez que um jovem repórter pedia o telefone “pra mim ligar”, ela tascava a resposta: “Mim não liga. É pra eu ligar!”. A outra tia se roía de engulhos toda vez que ouvia sua depiladora falar que “suas axilas estava irritada”. Ou a empregada pedir “o ovos” para fazer um bolo. Ah, os plurais. Tão maltratados na linguagem escrita, e na oral, então, nem se fale...

Ah, uma das tias (desculpem-me, mas tia era o que mais tinha a tal família) não só revisava a fala, como até o raciocínio dos circundantes. A última que soube dela era ensinar filosofia à cozinheira. “Você precisa exercitar o pensamento, única maneira de se superar e obter melhor compreensão do mundo e da vida. Pense sempre: os objetos usados cotidianamente devem ser guardados nas gavetas mais próximas. Os de uso eventual, nas de mais difícil acesso. Assim.”

A família de revisores era chata desse jeito mas não primava só pela implicância e pela pretensa superioridade. Era também formada por estudiosos, alguns até de mestrado e doutorado na universidade. Na verdade, essa mania de português bem escrito e bem falado era herança de uma formação cuidadosa na infância, nos tempos da boa e velha escola pública de preocupação global com a pessoa, e não apenas com desempenho em vestibular. Eles gostavam de estudar. Mas também gostavam de gente. E com isso alguns deles começaram a tratar seu estudo mais como ciência humana do que como repetição de matéria estanque.

Começaram a tomar contato com a lingüística mais social, mais antropológica, menos burocrática. Alguns deles – uns mais velhos, outros mais novos, a questão não era mais etária – foram percebendo a arrogância e a prepotência escondidas por trás da postura de revisar compulsivamente a vida alheia e passaram a adotar uma nova relação com as pessoas – as de fala correta e as “erradas”. Perceberam o quão político era o uso do conhecimento e da palavra para dominar, subjugar, humilhar mesmo os supostamente inferiores. Conscientizaram-se, enfim, de que amar seu povo implicava também respeitar sua fala própria, seu modo particular de se expressar, com suas facilidades e dificuldades. E viram que o que faz lindo este Brasil é a multiplicidade e a diferença. Sem necessidade de tanta revisão.


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