Anedotas de uma família de revisores
Clara Arreguy, 24/12/2000
Era uma família de revisores. Gente de jornal, de
escola, agência e editora. A linguagem que usavam,
em casa, no serviço ou na rua, era essa e só
essa. Papel era lauda. Corrigir era copidescar. O vício
constante de consertar, de buscar a concisão e a
objetividade. Do velho avô à jovem senhora,
do moço profissional de agência de propaganda
à recém-formada, todo mundo revisor. Quando
alguém, na hora de contar um caso comprido, custava
muito a entrar no assunto, o protesto era geral: “Salta
o nariz de cera e vai logo pro lead!”. Assim, com
essa mesma petulância.
O mais engraçado era a mania de ficar corrigindo
os outros. Uma das mais antigas revisoras da família
gabava-se de devolver a um barnabé, do alto de
sua sapiência: “A senhora me dá sua
rúbrica?”. E ela: “Não, só
dou a minha rubrica!”. A implicância de outro
rapaz era com a maquininha de estacionamento de um shopping:
“Insira seu cartão”. Ao que ele sempre
respondia furibundo: “Não insiro porque este
verbo é defectivo e portanto não comporta
essa conjugação!”. Eram assim os rompantes
da família de revisores.
Uma lá era subeditora num jornal e vivia de acentuar
e pontuar o que os outros esqueciam. Implicante, não
deixava por menos. A cada vez que um jovem repórter
pedia o telefone “pra mim ligar”, ela tascava
a resposta: “Mim não liga. É pra eu
ligar!”. A outra tia se roía de engulhos
toda vez que ouvia sua depiladora falar que “suas
axilas estava irritada”. Ou a empregada pedir “o
ovos” para fazer um bolo. Ah, os plurais. Tão
maltratados na linguagem escrita, e na oral, então,
nem se fale...
Ah, uma das tias (desculpem-me, mas tia era o que mais
tinha a tal família) não só revisava
a fala, como até o raciocínio dos circundantes.
A última que soube dela era ensinar filosofia à
cozinheira. “Você precisa exercitar o pensamento,
única maneira de se superar e obter melhor compreensão
do mundo e da vida. Pense sempre: os objetos usados cotidianamente
devem ser guardados nas gavetas mais próximas.
Os de uso eventual, nas de mais difícil acesso.
Assim.”
A família de revisores era chata desse jeito mas
não primava só pela implicância e
pela pretensa superioridade. Era também formada
por estudiosos, alguns até de mestrado e doutorado
na universidade. Na verdade, essa mania de português
bem escrito e bem falado era herança de uma formação
cuidadosa na infância, nos tempos da boa e velha
escola pública de preocupação global
com a pessoa, e não apenas com desempenho em vestibular.
Eles gostavam de estudar. Mas também gostavam de
gente. E com isso alguns deles começaram a tratar
seu estudo mais como ciência humana do que como
repetição de matéria estanque.
Começaram a tomar contato com a lingüística
mais social, mais antropológica, menos burocrática.
Alguns deles – uns mais velhos, outros mais novos,
a questão não era mais etária –
foram percebendo a arrogância e a prepotência
escondidas por trás da postura de revisar compulsivamente
a vida alheia e passaram a adotar uma nova relação
com as pessoas – as de fala correta e as “erradas”.
Perceberam o quão político era o uso do
conhecimento e da palavra para dominar, subjugar, humilhar
mesmo os supostamente inferiores. Conscientizaram-se,
enfim, de que amar seu povo implicava também respeitar
sua fala própria, seu modo particular de se expressar,
com suas facilidades e dificuldades. E viram que o que
faz lindo este Brasil é a multiplicidade e a diferença.
Sem necessidade de tanta revisão.
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