Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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A escolha certa e a escrita da vida
Clara Arreguy, 28/02/2001

De repente, o ano de 1973 surge entre as brumas de um sonho-lembrança. Era uma excursão do colégio, todo mundo, colegas e professoras, num ônibus velho, se dirigindo para a cidade de Catas Altas da Noruega. Podia existir nome mais poético? Não para aquela menina-moça de óculos. Não era a mais bonita da turma – nem de longe. Nem a mais inteligente. Talvez a mais sonhadora, mas mesmo assim, John Lennon vivo, era a única. Felizmente. No meio do passeio, após história e patrimônio cultural, cachoeira. E o filho do prefeito, um moço lindo, meio índio, meio preto, ficou encantado com ela. Lascou-lhe um beijo na boca, na frente de todo mundo. Cinema.

A menina tinha suas veleidades literárias. Chegou em casa e escreveu um conto sobre aquilo tudo que acontecera. Sonhava que seria atriz de televisão. Ou jornalista famosa. Teria um programa na TV. No conto, estava um dia apresentando seu programa quando seria vista pelo filho do prefeito, agora ele próprio o prefeito da cidade de nome poético, e ele diria para sua esposa: “Já beijei esta mulher. Beijei a famosa fulana de tal”. Conto bobo, como tudo que ela escrevia então.

O ano de 1973 ou 1974 voltou assim entre as brumas do sonho, da cachoeira, do conto bobo, depois que estive na casa onde moramos na avenida do Contorno durante 35 anos. A casa está lá. Abriga um curso, mas nosso jardim guarda a grama que plantamos, o jasmim mais cheiroso do mundo, algumas roseiras. A casa só não guarda mais o que fomos e não somos mais. Passeando escondida pelo jardim chorei o que fomos e não somos mais. O que tínhamos e perdemos no torvelinho da vida presente, assustadoramente voraz.

Meu irmão morreu. E só agora descubro que também naquele ano de 1973 ele escrevia com amigos, um publicação, “Loteca”, que era distribuída nas loterias da cidade, com prognósticos sobre os jogos da esportiva, mania nacional na época. Com um lucidez que sugere a antevisão do que se tornaria nosso esporte, ele analisava os times, as táticas, a política em torno dos campeonatos, dos dirigentes, da seleção. Escrevia bem, sabia o que dizia. Em meio às tantas perdas que marcam a temporada, ganhamos de um amigo raro a preciosidade destes exemplares da “Loteca” preservados intactos, presença vivaz do irmão que se foi.

A ditadura comia solta lá fora naquele início de anos 70, com perseguições e tortura. A consciência nacional, no entanto, se forjava da maneira que fosse possível. Naquela época, meu irmão que morreu era mesário nas eleições e fazia, dentro das suas limitações, campanha para voto nulo, para o voto naqueles poucos nomes que destoavam do coro dos intimidados. Com seus cabelos grandes, com seu gosto pela música de qualidade que nascia entre as montanhas de Minas, com sua revolta contra o “sistema” e sua resistência boêmia, apontava um caminho. Havia dois times em campo, naquele momento, e era hora de decidir em que lado jogar.


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