A escolha certa e a escrita da vida
Clara Arreguy, 28/02/2001
De repente, o ano de 1973 surge entre as brumas de um sonho-lembrança.
Era uma excursão do colégio, todo mundo, colegas
e professoras, num ônibus velho, se dirigindo para
a cidade de Catas Altas da Noruega. Podia existir nome mais
poético? Não para aquela menina-moça
de óculos. Não era a mais bonita da turma
– nem de longe. Nem a mais inteligente. Talvez a mais
sonhadora, mas mesmo assim, John Lennon vivo, era a única.
Felizmente. No meio do passeio, após história
e patrimônio cultural, cachoeira. E o filho do prefeito,
um moço lindo, meio índio, meio preto, ficou
encantado com ela. Lascou-lhe um beijo na boca, na frente
de todo mundo. Cinema.
A menina tinha suas veleidades literárias. Chegou
em casa e escreveu um conto sobre aquilo tudo que acontecera.
Sonhava que seria atriz de televisão. Ou jornalista
famosa. Teria um programa na TV. No conto, estava um dia
apresentando seu programa quando seria vista pelo filho
do prefeito, agora ele próprio o prefeito da cidade
de nome poético, e ele diria para sua esposa: “Já
beijei esta mulher. Beijei a famosa fulana de tal”.
Conto bobo, como tudo que ela escrevia então.
O ano de 1973 ou 1974 voltou assim entre as brumas do
sonho, da cachoeira, do conto bobo, depois que estive
na casa onde moramos na avenida do Contorno durante 35
anos. A casa está lá. Abriga um curso, mas
nosso jardim guarda a grama que plantamos, o jasmim mais
cheiroso do mundo, algumas roseiras. A casa só
não guarda mais o que fomos e não somos
mais. Passeando escondida pelo jardim chorei o que fomos
e não somos mais. O que tínhamos e perdemos
no torvelinho da vida presente, assustadoramente voraz.
Meu irmão morreu. E só agora descubro que
também naquele ano de 1973 ele escrevia com amigos,
um publicação, “Loteca”, que
era distribuída nas loterias da cidade, com prognósticos
sobre os jogos da esportiva, mania nacional na época.
Com um lucidez que sugere a antevisão do que se
tornaria nosso esporte, ele analisava os times, as táticas,
a política em torno dos campeonatos, dos dirigentes,
da seleção. Escrevia bem, sabia o que dizia.
Em meio às tantas perdas que marcam a temporada,
ganhamos de um amigo raro a preciosidade destes exemplares
da “Loteca” preservados intactos, presença
vivaz do irmão que se foi.
A ditadura comia solta lá fora naquele início
de anos 70, com perseguições e tortura.
A consciência nacional, no entanto, se forjava da
maneira que fosse possível. Naquela época,
meu irmão que morreu era mesário nas eleições
e fazia, dentro das suas limitações, campanha
para voto nulo, para o voto naqueles poucos nomes que
destoavam do coro dos intimidados. Com seus cabelos grandes,
com seu gosto pela música de qualidade que nascia
entre as montanhas de Minas, com sua revolta contra o
“sistema” e sua resistência boêmia,
apontava um caminho. Havia dois times em campo, naquele
momento, e era hora de decidir em que lado jogar.
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