Algumas lições de cidadania do povo mexicano
Clara Arreguy, 29/03/2000
Em viagem de trabalho ao México – a matéria
será devidamente publicada no caderno de Turismo
do ESTADO DE MINAS, nas próximas semanas –
pude constatar algumas semelhanças e muitas diferenças
entre nossos povos e países. Ninguém se iluda
quanto ao inexorável: o mundo está globalizado,
portanto, São Paulo, Belo Horizonte, Atenas, Cidade
do México e Istambul têm hoje muito mais a
ver umas com as outras do que supõem nossas vãs
distâncias geográficas e culturais. Em todo
o mundo, estão nos altos dos prédios os mesmos
neons com as mesmas marcas de cigarro, automóvel
e banco.
Mas o que mais chama a atenção entre as
diferenças é o sentimento nacional que mobiliza
o povo mexicano, país tão rico quanto o
Brasil, povo tão pobre quanto o brasileiro. No
dia em que passei pela Praça da Constituição
– que outrora sediou a capital do povo azteca, Tenochtitlan-México
– havia uma multidão nas ruas, entre festejos,
camelôs, pipas e alto-falantes. Autoridades entravam
e saíam do Palácio Governamental, clima
de festa total. Sabem o que era? Eles comemoravam o aniversário
da nacionalização do petróleo! O
fato me chocou positivamente. Enquanto no Brasil mal se
discute a política de privatização
e desnacionalização de todo e qualquer setor
da economia – incluindo o petróleo, que foi
emblemático nas campanhas nacionais dos anos 50
–, e as políticas vão sendo implementadas
sob o olhar complacente e derrotado da maior parte da
população, no México o povo celebra
a conquista de uma fatia de sua soberania.
Este é só um pequeno exemplo. A todo momento
encontram-se outros, de amor às tradições
e à cultura popular, sem que isto represente passadismo
ou conservadorismo retrógrado. É que, talvez
com mais acesso à educação do que
nós, eles conhecem melhor sua história,
uma sucessão de acontecimentos heróicos
e trágicos que inclui a história pré-colombiana,
as tribos que habitaram a região – tribo-mãe
olmeca, os teotihuacanos, zapotecas, aztecas, mayas, etc
–, a sangrenta conquista espanhola, a independência,
a guerra contra os Estados Unidos (quando perderam o Texas,
o Novo México, a Califórnia e o Arizona),
a revolução.
Só vendo o orgulho do povo ao falar de heróis
como Cuautémoc (o último líder azteca),
Miguel Hidalgo (o padre que liderou a guerra de independência),
Benito Juárez (o primeiro presidente puramente
índio), Zapata, Pacho Villa, os líderes
da revolução no início do século
XX. Hoje, no Brasil, se perguntar, é capaz de ninguém
saber quem foi Tiradentes, Antônio Conselheiro,
Luis Carlos Prestes. Da cultura indígena, então,
ninguém sabe nada. Está certo que a presença
dos índios, em termos de porcentagem, é
muito mais forte na população mexicana do
que na brasileira. O que não diminui em nada a
importância dos primeiros habitantes destas terras
na formação desta nacionalidade, hoje famosa
pela fusão das raças branca, negra e índia.
Esta a grande lição do povo mexicano para
o brasileiro: o amor às suas raízes, à
sua cultura, às suas origens. No estado de Jalisco,
a população enche a boca para falar que
lá é a pátria da tequila, dos mariachis,
do charro, de tantas tradições. Para nós,
brasileiros, Jalisco é apenas o nome do estádio
onde o Brasil disputou as primeiras partidas na Copa de
70. Guadalajara, onde fica o campo, é a capital
de Jalisco, uma das maiores cidades do país, com
seus mais de 6 milhões de habitantes. Há
ainda Monterrey, maior que Guadalajara, a mais rica cidade
mexicana. E o rico estado de Chiapas, onde o povo pobre
e explorado protagonizou, sob a liderança do comandante
Marcos, do Exército Zapatista, uma revolta hoje
sufocada e confinada às montanhas.
Preservando sua cultura, sua natureza, suas riquezas
humanas e econômicas, o povo mexicano vai apontando
algumas lições para o povo brasileiro: que,
a despeito de uma seqüência de maus governos
– cá e lá, más fadas há,
dizia um antigo ditado- a cidadania pode e deve se fortalecer.
Que a partir da conquista da auto-estima podemos aprender
a nos conduzir por caminhos próprios, autônomos,
legítimos, que nos levem ao crescimento como País
e como homens.
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