Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Algumas lições de cidadania do povo mexicano
Clara Arreguy, 29/03/2000

Em viagem de trabalho ao México – a matéria será devidamente publicada no caderno de Turismo do ESTADO DE MINAS, nas próximas semanas – pude constatar algumas semelhanças e muitas diferenças entre nossos povos e países. Ninguém se iluda quanto ao inexorável: o mundo está globalizado, portanto, São Paulo, Belo Horizonte, Atenas, Cidade do México e Istambul têm hoje muito mais a ver umas com as outras do que supõem nossas vãs distâncias geográficas e culturais. Em todo o mundo, estão nos altos dos prédios os mesmos neons com as mesmas marcas de cigarro, automóvel e banco.

Mas o que mais chama a atenção entre as diferenças é o sentimento nacional que mobiliza o povo mexicano, país tão rico quanto o Brasil, povo tão pobre quanto o brasileiro. No dia em que passei pela Praça da Constituição – que outrora sediou a capital do povo azteca, Tenochtitlan-México – havia uma multidão nas ruas, entre festejos, camelôs, pipas e alto-falantes. Autoridades entravam e saíam do Palácio Governamental, clima de festa total. Sabem o que era? Eles comemoravam o aniversário da nacionalização do petróleo! O fato me chocou positivamente. Enquanto no Brasil mal se discute a política de privatização e desnacionalização de todo e qualquer setor da economia – incluindo o petróleo, que foi emblemático nas campanhas nacionais dos anos 50 –, e as políticas vão sendo implementadas sob o olhar complacente e derrotado da maior parte da população, no México o povo celebra a conquista de uma fatia de sua soberania.

Este é só um pequeno exemplo. A todo momento encontram-se outros, de amor às tradições e à cultura popular, sem que isto represente passadismo ou conservadorismo retrógrado. É que, talvez com mais acesso à educação do que nós, eles conhecem melhor sua história, uma sucessão de acontecimentos heróicos e trágicos que inclui a história pré-colombiana, as tribos que habitaram a região – tribo-mãe olmeca, os teotihuacanos, zapotecas, aztecas, mayas, etc –, a sangrenta conquista espanhola, a independência, a guerra contra os Estados Unidos (quando perderam o Texas, o Novo México, a Califórnia e o Arizona), a revolução.

Só vendo o orgulho do povo ao falar de heróis como Cuautémoc (o último líder azteca), Miguel Hidalgo (o padre que liderou a guerra de independência), Benito Juárez (o primeiro presidente puramente índio), Zapata, Pacho Villa, os líderes da revolução no início do século XX. Hoje, no Brasil, se perguntar, é capaz de ninguém saber quem foi Tiradentes, Antônio Conselheiro, Luis Carlos Prestes. Da cultura indígena, então, ninguém sabe nada. Está certo que a presença dos índios, em termos de porcentagem, é muito mais forte na população mexicana do que na brasileira. O que não diminui em nada a importância dos primeiros habitantes destas terras na formação desta nacionalidade, hoje famosa pela fusão das raças branca, negra e índia.

Esta a grande lição do povo mexicano para o brasileiro: o amor às suas raízes, à sua cultura, às suas origens. No estado de Jalisco, a população enche a boca para falar que lá é a pátria da tequila, dos mariachis, do charro, de tantas tradições. Para nós, brasileiros, Jalisco é apenas o nome do estádio onde o Brasil disputou as primeiras partidas na Copa de 70. Guadalajara, onde fica o campo, é a capital de Jalisco, uma das maiores cidades do país, com seus mais de 6 milhões de habitantes. Há ainda Monterrey, maior que Guadalajara, a mais rica cidade mexicana. E o rico estado de Chiapas, onde o povo pobre e explorado protagonizou, sob a liderança do comandante Marcos, do Exército Zapatista, uma revolta hoje sufocada e confinada às montanhas.

Preservando sua cultura, sua natureza, suas riquezas humanas e econômicas, o povo mexicano vai apontando algumas lições para o povo brasileiro: que, a despeito de uma seqüência de maus governos – cá e lá, más fadas há, dizia um antigo ditado- a cidadania pode e deve se fortalecer. Que a partir da conquista da auto-estima podemos aprender a nos conduzir por caminhos próprios, autônomos, legítimos, que nos levem ao crescimento como País e como homens.


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