Crônicas publicadas no "Estado de Minas" entre 1998 e 2002
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Saudades de um futuro que acabou chegando
Clara Arreguy, 31/12/2000

A gente era pequeno e Belo Horizonte enorme, era maior ainda que a gente. A gente tinha nascido no finalzinho dos anos 50 e pensava que seria tão velho quando o ano 2000 chegasse, que o futuro iria modificar tudo à nossa volta. Semana passada, dando uma voltinha pelo Centro, senti-me de novo naquela antiga e pequena cidade aonde passei minha infância. Entre a Rodoviária e a Praça Sete. Entre a Rio de Janeiro e a Tupis. Entre o Cine Jaques e o Tamoio, entre o Pep’s e o dentista no Acaiaca. Ouvindo Beatles e pensando onde é que a gente estaria quando o próximo milênio chegasse.

O próximo milênio chegou e o Centro ficou intransitável. No admirável mundo novo da megalópole, o povo empobrecido virou miserável, passou a habitar a rua, a ocupar a calçada, a assediar o passante, a inviabilizar o passeio. Pobre o povo brasileiro, sem renda, sem chance, sem esperança. A classe média, aquela que não sucumbiu tragada pelo buraco negro do desemprego, a cada dia que passa se isola mais em seus bairros e condomínios superprotegidos, com medo do homem da rua. O mito do “homem do saco” que apavorava os meninos da pequena Belo Horizonte, naqueles anos 60, virou a paranóia do pivete, do ladrão, do seqüestro-relâmpago. Isto é o futuro chegando.

Nas nossas fantasias futuristas, máquinas inteligentes rodeariam as pessoas. Aconteceu. Não tão inteligentes quanto imaginávamos, mas com boa memória, lá isso são. O portão eletrônico e o telefone ainda não vêm com telinhas acopladas – pelo menos nas casas classe-média – mas isso não demora. Na televisão os avanços foram enormes. A vida real em tempo real. A guerra em tempo real. A cultura em tempo real.

Aí entrou em cena uma personagem da minha infância que nunca pensei que fosse estar cantando rock and roll pulando no maior gás 40 anos depois: era Paul McCartney lançando seu disco “Run Devil Run”, todo feito do melhor rock dos anos 50 e 60, num show gravado no Cavern Club de Liverpol. O ídolo enrugado e curtido da dor da perda de sua querida Linda deu a volta por cima da saudade e da idade. Trocou a depressão pela música, o recolhimento pelo contato com seu público. Sua energia criadora se transmutou na voz mais potente em plena forma aos 60 anos.

E ver Paul McCartney esbanjando vida e saúde física e mental me lembrou Roberto Carlos, outro ídolo da infância distante. Os dois, em idades próximas e com importância semelhante no imaginário de meio mundo, passaram por problemas parecidos, perderam suas companheiras, o amor de suas vidas, e tocaram para frente. Enfrentaram a dor da perda, recuperaram a auto-estima, fazendo da arte a saída para a sobrevivência. Lições de grandes artistas, daqueles que a gente, quando era pequena, pensava que nos acompanhariam até o próximo milênio.

É impressionante chegar a 2001 tendo como modelos roqueiros que foram rebeldes, deram guinadas em suas carreiras, souberam viver conforme cada tempo, sem parar no passado, sem pressa de abraçar o futuro. O futuro, coitados de nós, traz tantos avanços quanto retrocessos. O que não mudou foi a nossa necessidade de encarar a luta como único meio de transformar o mundo, dando uma chance à alegria e à justiça. Com urgência, sob pena de não legarmos nada que preste às crianças do próximo milênio.


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