Saudades de um futuro que acabou chegando
Clara Arreguy, 31/12/2000
A gente era pequeno e Belo Horizonte enorme, era maior ainda
que a gente. A gente tinha nascido no finalzinho dos anos
50 e pensava que seria tão velho quando o ano 2000
chegasse, que o futuro iria modificar tudo à nossa
volta. Semana passada, dando uma voltinha pelo Centro, senti-me
de novo naquela antiga e pequena cidade aonde passei minha
infância. Entre a Rodoviária e a Praça
Sete. Entre a Rio de Janeiro e a Tupis. Entre o Cine Jaques
e o Tamoio, entre o Pep’s e o dentista no Acaiaca.
Ouvindo Beatles e pensando onde é que a gente estaria
quando o próximo milênio chegasse.
O próximo milênio chegou e o Centro ficou
intransitável. No admirável mundo novo da
megalópole, o povo empobrecido virou miserável,
passou a habitar a rua, a ocupar a calçada, a assediar
o passante, a inviabilizar o passeio. Pobre o povo brasileiro,
sem renda, sem chance, sem esperança. A classe
média, aquela que não sucumbiu tragada pelo
buraco negro do desemprego, a cada dia que passa se isola
mais em seus bairros e condomínios superprotegidos,
com medo do homem da rua. O mito do “homem do saco”
que apavorava os meninos da pequena Belo Horizonte, naqueles
anos 60, virou a paranóia do pivete, do ladrão,
do seqüestro-relâmpago. Isto é o futuro
chegando.
Nas nossas fantasias futuristas, máquinas inteligentes
rodeariam as pessoas. Aconteceu. Não tão
inteligentes quanto imaginávamos, mas com boa memória,
lá isso são. O portão eletrônico
e o telefone ainda não vêm com telinhas acopladas
– pelo menos nas casas classe-média –
mas isso não demora. Na televisão os avanços
foram enormes. A vida real em tempo real. A guerra em
tempo real. A cultura em tempo real.
Aí entrou em cena uma personagem da minha infância
que nunca pensei que fosse estar cantando rock and roll
pulando no maior gás 40 anos depois: era Paul McCartney
lançando seu disco “Run Devil Run”,
todo feito do melhor rock dos anos 50 e 60, num show gravado
no Cavern Club de Liverpol. O ídolo enrugado e
curtido da dor da perda de sua querida Linda deu a volta
por cima da saudade e da idade. Trocou a depressão
pela música, o recolhimento pelo contato com seu
público. Sua energia criadora se transmutou na
voz mais potente em plena forma aos 60 anos.
E ver Paul McCartney esbanjando vida e saúde física
e mental me lembrou Roberto Carlos, outro ídolo
da infância distante. Os dois, em idades próximas
e com importância semelhante no imaginário
de meio mundo, passaram por problemas parecidos, perderam
suas companheiras, o amor de suas vidas, e tocaram para
frente. Enfrentaram a dor da perda, recuperaram a auto-estima,
fazendo da arte a saída para a sobrevivência.
Lições de grandes artistas, daqueles que
a gente, quando era pequena, pensava que nos acompanhariam
até o próximo milênio.
É impressionante chegar a 2001 tendo como modelos
roqueiros que foram rebeldes, deram guinadas em suas carreiras,
souberam viver conforme cada tempo, sem parar no passado,
sem pressa de abraçar o futuro. O futuro, coitados
de nós, traz tantos avanços quanto retrocessos.
O que não mudou foi a nossa necessidade de encarar
a luta como único meio de transformar o mundo,
dando uma chance à alegria e à justiça.
Com urgência, sob pena de não legarmos nada
que preste às crianças do próximo
milênio.
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