Matérias jornalísticas
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Regras para a dominação
Clara Arreguy, 03/11/00
Estado de Minas

Marcos Bagno denuncia em seu
novo livro como a língua pode ser
uma arma de exclusão social


O escritor Marcos Bagno era mais conhecido por sua obra infanto-juvenil – aqui em Belo Horizonte, seu texto “O Papel Roxo da Maçã” ganhou o prêmio João de Barro em 1989 e foi adaptado para o teatro, numa montagem que circulou anos, com sucesso. De uns anos para cá, porém, seu trabalho como lingüista vem conquistando ouvidos e olhos atentos. Afinal, na contramão dos costumeiros críticos da “invasão” da língua portuguesa por estrangeirismos, e do ferrenho combate ao chamado “mau português”, Marcos Bagno vem empreendendo uma verdadeira guerra de guerrilha contra os gramáticos oficiais, contra os preconceitos contra o povo brasileiro, contra um constante ataque à auto-estima do brasileiro.

Para Marcos Bagno, assim como outras ideologias, a “língua culta” é também uma forma de dominação. Considerar erro de português o modo de expressão da maioria das pessoas não passa de um meio a mais de controle e submissão do povo. Em livros como “Preconceito Lingüístico: O que é, como se faz”, lançado ano passado, o escritor já dissecava a relação política e ideológica existente no trato com o idioma, e com os falantes dele. Agora, em seu novo trabalho, “Dramática da Língua Portuguesa – Tradição gramatical, mídia & exclusão social” (Edições Loyola, 328 páginas), a polêmica prossegue, com a denúncia pelo autor dos “comandos paragramaticais”, da gramática tradicional e normativa e, com especial furor, dos profissionais do patrulhamento na mídia, aqueles professores de português que vão para a televisão mostrar como falamos mal, como a língua escrita e falada está contaminada pelo erro. Para ele, nada mais que exercício de dominação e exclusão social.


MARCOS BAGNO
“Não podemos confundir língua com gramática”

ESTADO DE MINAS – Quais os avanços em sua “tese” depois do Preconceito Lingüístico?
Marcos Bagno – A tese representa um aprofundamento mais detalhado dos temas abordados no livro “Preconceito Lingüístico: O que é, como se faz”. O livro foi escrito com vistas a um público mais amplo, não necessariamente engajado na área da lingüística ou do ensino. A tese, evidentemente, tem um caráter mais técnico. Mesmo assim, como sempre procuro escrever de um modo que possa ser lido por um leigo não especializado, acredito que a “Dramática da Língua Portuguesa” (que é o livro oriundo da tese) poderá despertar o interesse de muita gente. O subtítulo, na minha opinião, mostra bem o quanto o trabalho pretende ser abrangente: “Tradição gramatical, mídia & exclusão social”. Tem, portanto, uma vertente lingüístico- pedagógica, uma voltada para a área da comunicação e outra para as questões sociológicas e políticas. De fato, tento mostrar de que modo estas três dimensões estão muito interligadas quando se trata de estudar os problemas ideológicos envolvidos na questão da língua.

EM – Como o ensino da língua tem sido usado para dominação política?
Bagno – Por meio da função tradicional da escola, que é a de inculcar nos alunos a ideologia das classes dominantes. Na escola tradicional, tenta-se mostrar a sociedade de um modo idealizado, homogêneo, unitário. Nessa sociedade ideal, todos os casais são felizes e exclusivamente heterossexuais e monogâmicos, a religião perfeita é a católica romana, nossa história não tem grandes dramas nem derramamentos de sangue (somos um povo pacífico), as três raças aqui convivem em perfeita harmonia e a língua que falamos é uma só, de norte a sul, homogênea e compacta. Os professores têm muita dificuldade de lidar com temas conflituosos justamente porque foram educados nesse padrão idealizado, unitário. Falar de homossexualidade, racismo, drogas, pluralidade religiosa, ateísmo, conflitos sociais, guerras dissimuladas e variação lingüística é sempre muito difícil.

EM – O que podem fazer professores de português, jornalistas e artistas que lidam com a linguagem, para não reproduzir a ordem da dominação?
Bagno – Procurar informação a respeito dos fenômenos de linguagem junto aos verdadeiros especialistas da área, os lingüistas. Infelizmente, quando alguém vai emitir alguma opinião neste campo, sempre recorre aos gramáticos normativos ou, pior, aos pseudogramáticos que infestam a mídia brasileira contemporânea. Os lingüistas, também, infelizmente, não têm feito muito esforço para levar suas descobertas a um público maior. São raras as exceções, e entre elas cabe mencionar o professor Sírio Possenti, da Unicamp, que tem publicado livros deliciosos de ler, que qualquer pessoa inteligente é capaz de entender sem precisar ser professor de português.

EM – Como o homem comum, leitor de jornal, pode “resistir” a esta dominação?
Bagno – Francamente, não sei. A questão aqui é, basicamente, a da ideologia, no sentido clássico marxista do termo. A ideologia faz parte de nós, está muito entranhada no ser social e individual. Tomar consciência dela, criticá-la, combatê-la e tentar construir a sua própria ideologia... são tarefas árduas, que quase sempre exigem uma revolução social.

EM – Quais os principais pontos da “subversão” que você propõe no ensino da língua?
Bagno – Antes de tudo, parar definitivamente de confundir língua com gramática. Depois, parar de ensinar gramática na escola: já está provado que isso não serve para absolutamente nada. Saber classificar as palavras segundo a nomenclatura oficial tradicional e conhecer as partes da oração são conhecimentos irrelevantes para quem deseja se tornar um bom leitor e produtor de textos. Em seguida, apresentar na escola o painel multifacetado da língua falada no Brasil, levar para dentro da sala de aula todo tipo de texto, oral e escrito, de todos os gêneros, para que o aluno perceba que a língua nunca está pronta e acabada, que é uma coisa em constante mutação. Finalmente, introduzir na escola a prática da pesquisa lingüística. Em vez de se limitar a entregar o “ponto” de gramática já pronto, apresentá-lo e contrastá-lo com o uso real e autêntico da língua pelos falantes. Isso permitirá criticar a normapadrão obsoleta ainda em vigor, admitir que em muitos aspectos o padrão real já mudou e que é preciso reconhecer como válidas e legítimas muitas construções que já fazem parte da língua do brasileiro (inclusive dos cultos), mas que a gramática tradicional e os gramatiqueiros da mídia continuam classificando de “erros”.

EM – Você acha que a chamada invasão da língua pelos estrangeirismos, em particular os anglicismos, é um problema?
Bagno – A resposta é não! O problema são outras invasões: econômicas, políticas, territoriais, culturais, etc. O projeto do deputado Aldo Rebelo, que tenta coibir o uso dos anglicismos, tem sido duramente criticado pelos lingüistas por causa de suas bases anticientíficas e de seus inúmeros equívocos políticos e ideológicos.

EM – Você não acha que, mesmo admitindo a existência do preconceito lingüístico, o povo brasileiro tem problemas de comunicação gerados pela ignorância, pela pobreza, etc?
Bagno – Sim. Daí minha grande preocupação de conectar sempre a questão do ensino da língua e do preconceito lingüístico à problemática séria da exclusão social, que no Brasil é a maior do mundo. Temos também um dos piores sistemas educacionais do planeta. Basta lembra que mais da metade da nossa população jovem, que deveria estar freqüentando o curso médio (antigo segundo grau), simplesmente está fora da escola. É um escândalo difícil de qualificar! Como já escreveu muito bem a professora Magda Soares
no seu clássico “Linguagem e Escola: Uma perspectiva social”, é uma ilusão achar que os problemas dos nossos alunos são meramente “pedagógicos”. São, antes de mais nada, problemas políticos e sociais gravíssimos Não basta implementar novas técnicas de ensino, reformar o sistema educacional existente, nem, muito menos, submeter todas as escolas aos processos de avaliação inventados pelo atual governo. Buscar supostas soluções no final do processo educacional é uma falácia, típica da ideologia tucana. As bases gerais da sociedade é que estão deterioradas, as crianças têm fome, os pais não têm emprego, os camponeses não têm terra, o governo não tem vergonha na cara.



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