E
a paixão virou negócio
Clara Arreguy, 27/02/99
Estado de Minas
Livro do jornalista David Yallop
disseca as relações nem sempre transparentes
de João Havelange
dentro e fora de campo
Todo brasileiro acha ou tem certeza de que existe corrupção
no futebol, de que alguns – ou muitos, ou todos
– dos resultados principais são forjados,
em nome de interesses suspeitos. Pois veio de um inglês,
e não de qualquer brasileiro, a pesquisa mais contundente
a respeito do futebol e da verdadeira podridão
na qual ele se transformou pelo mundo afora. ‘‘Como
eles roubaram o jogo – Segredos dos Subterrâneos
da Fifa’’, do jornalista David A. Yallop (Record,
368 páginas, tradução de Ruy Jungmann,
R$ 30,00), reúne um vasto apanhado de depoimentos,
testemunhos mais ou menos confiáveis e, segundo
o autor, provas que ele recolheu, traçando um painel
absolutamente chocante do que o livro chama de máfia
que domina o Futebol S/A desde 1974, quando o brasileiro
João Havelange assumiu a presidência da Federação
Internacional de Futebol Association.
O título do livro fala de roubar o jogo, querendo
dizer não uma partida em si, mas todo o esporte,
paixão maior em níveis planetários,
do qual foram extraídos todos os conteúdos
de qualidade e magia, em nome do grande business que o
futebol se tornou nestes tempos globalizados. À
parte uma denúncia ácida de um torcedor
apaixonado, que acompanha e conhece o melhor do jogo –
as jogadas, os grandes craques, as campanhas inesquecíveis
nas copas do mundo – ‘‘Como eles roubaram
o jogo’’ desfia uma série quase inumerável
de escândalos de que todos que acompanham futebol
se lembram muito bem. Dentro de campo, conquistas suspeitas
de taças, juízes incompetentes, pênaltis
surrupiados, expulsões inexplicáveis. Fora
dele, compra de votos, desfalques, inversão de
mando de campo, rebaixamentos desconsiderados, promiscuidade
entre dirigentes e autoridades gonvernamentais, entre
dirigentes, empresas e empresários, contrabando
em vôo da seleção, suborno de autoridades
judiciárias com viagens e mordomias nas copas do
mundo...
David Yallop é um jornalista conhecido por investigações
de temas controversos, como o suposto assassinato do Papa
João Paulo I, e a história do terrorista
venezuelano Carlos, o Chacal. Em ‘‘Como eles
roubaram o jogo’’, fala sobre as copas do
mundo desde 1950, perdida pelo Brasil para o Uruguai dentro
do Maracanã, passando pela de 1954, na Suíça,
e chegando ao seu verdadeiro intento, as de 1958 em diante,
momento em que o futebol brasileiro já estava sendo
comandado por João Havelange, eleito naquela época
presidente da CBD (Confederação Brasileira
de Desportes).
O livro começa com a história de Havelange,
seus triunfos como nadador, tendo participado até
dos Jogos Olímpicos de 1936, na Alemanha nazista,
quando já teria demonstrado simpatias pela disciplina
hitleriana. Este tipo de insinuação até
desmerece a ampla investigação que Yallop
desenvolve em torno dos supostos negócios do ex-presidente
da CBD, que seriam os responsáveis pelo seu enriquecimento
– embora Havelange tenha sempre afirmado ser um
dos proprietários da Viação Cometa,
e tenha justificado por aí suas altas rendas, o
jornalista constata que isto não é verdade,
já que o cargo do dirigente esportivo na empresa
teria sido sempre honorário, não com status
de sócio.
Este é apenas o começo, e não passa
de detalhe. O buraco é mais embaixo, e bem mais
profundo – embora a arrogância de Havelange
seja conhecida de todo brasileiro, e choque um britânico
pouco acostumados ao tom de um cartola que se proclama
vencedor de três copas do mundo sem nunca ter entrado
em campo ou integrado uma comissão técnica.
O buraco mais aterrador surge a partir da campanha de
Havelange para se eleger presidente da Fifa em 1974, em
substituição ao britânico Sir Stanley
Rous, segundo o livro um senhor impoluto e acima de qualquer
suspeita.
Numa memorável – e deplorável –
jornada de viagens custeadas pelos cofres da CDB (deixados
com um rombo de 5 milhões de dólares na
época), o candidato brasileiro percorreu dezenas
de países, prometeu mundos e fundos – principalmente
fundos, mas estes ele certamente pagou, como comprovam
testemunhos obtidos por Yallop, não apenas em subsídios
às federações nacionais membros do
colégio eleitoral da Fifa, como a confederações
e delegados enquanto pessoas físicas, muitos dos
quais teriam saído das reuniões de conchavo
com envelopes recheados por 50 mil dólares, cotação
do voto naquele ano.
Daí em diante, muitos foram os arranjos desenvolvidos
pela nova mentalidade adotada na Fifa para a condução
do futebol mundial. As negociações para
escolha dos países-sede das copas do mundo revelam
as ligações sempre suspeitas entre dirigentes
esportivos e governantes dos diversos países. Embora
negue sempre que tenha se envolvido em política,
Havelange manteve relações mais que meramente
cordiais com os militares que governaram o Brasil durante
a ditadura implantada em 1964 (no final do livro, Yallop
chega a afirmar que Havelange era agente do Serviço
Nacional de Informações, o temível
SNI dos anos mais negros do País), além
das ditaduras militares na Argentina e outros países
sul-americanos, e pelo mundo afora.
Relacionar-se bem não seria problema, já
que se tratava de uma das prerrogativas do cargo que o
brasileiro ocupou desde 1974. O que surge entre as linhas
da mera cordialidade são negócios que passaram
a ser contratados, muitos deles escusos, todos alheios
ao esporte, sempre envolvendo dinheiro público
e beneficiando interesses os mais mesquinhos. Um bom exemplo
foi a disputa da Copa do Mundo de 1978 na Argentina, então
governada pelos militares e sob a égide do terror
de estado, que perpetrou todo tipo de crimes, como tortura,
assassinatos, ‘‘desaparecimentos’’.
Os governantes militares argentinos queriam realizar a
Copa do Mundo no país, como forma de sossegar seu
próprio povo e limpar sua imagem junto à
opinião pública mundial. O homem escolhido
para organizar o certame no país, inclusive os
orçamentos, não era do grupo de Havelange,
e sim Carlos Omar Actis, um general respeitado, sem relatos
de crimes ou excessos violentos. O segundo homem no comitê,
no entanto, era o capitão Lacoste, estreitamente
vinculado a Havelange e a seus sócios na exploração
da venda de cotas de patrocínio. Pois bem, em agosto
de 1976, quando se encaminhava para uma entrevista coletiva,
o general Actis foi assassinado, num ato atribuído
ao grupo guerrilheiro Montoneros, que já havia
declarado que nada faria contra a Copa do Mundo em seu
país. Assumiu Lacoste que, logo depois do mundial,
começou a adquirir bens muito acima de suas possibilidades
e que, com o fim da ditadura na Argentina, foi acusado
pelo assassinato de Actis e por uma série de crimes,
inclusive corrupção e enriquecimento ilícito.
O mundial de 78 foi território de outro escândalo
pavoroso para os amantes do futebol e de triste memória
para os brasileiros. Nas semifinais, o Brasil venceu a
Polônia e disputava com a Argentina uma vaga nas
finais. O país anfitrião precisava vencer
o Peru por uma diferença de quatro gols. Ganhou
de 6 x 0, e com os adversários sul-americanos exibindo
o pior futebol que já se viu, nitidamente desinteressados
de perseguir a vitória ou de vender caro uma derrota.
Pelo que apuraram David Yallop e a jornalista Maria- Laura
Avignolo, que também escreveu um livro sobre estes
fatos, o presidente argentino Jorge Rafael Videla teria
encomendado pessoalmente ao capitão Lacoste uma
negociação, que teria aberto para o Peru
uma linha de crédito de 50 milhões de dólares,
com suborno de funcionários, promoção
de militares e corrupção direta de jogadores
da seleção peruana. Três deles confirmaram
ao jornalista a oferta recebida, sob a condição
do anonimato. A Argentina passou à final, venceu,
o Brasil disputou o terceiro lugar e o técnico
Cláudio Coutinho nos declarou ‘‘campeões
morais’’.
Nomes aos bois
O livro ‘‘Como eles roubaram o jogo’’,
ao enumerar escândalos, faz questão de dar
nome aos bois, o ‘‘eles’’ do título.
À testa João Havelange, mas junto com ele
o que o ex-presidente do Flamengo, deputado Márcio
Braga, chama de ‘‘máfia’’.
Havelange, ainda nos anos 70, associou-se a Horst Dassler
e Patrick Nally na firma ISL, para a qual foram sistematicamente
vendidos os direitos de comercialização
dos patrocínios das atividades do futebol mundial
– o maior business as copas do mundo, mas também
uma série de torneios que a Fifa passou a organizar
para atender aos interesses dos pequenos países
e federações que apoiavam o dirigente a
cada eleição. Essas negociações,
por sinal, levaram ao ‘‘crescimento’’
dos mundiais de 16 para 24 seleções e, na
última copa, ano passado, na França, para
32.
Voltando aos negócios da ISL, os contratos da
Fifa com a empresa e desta com os grandes investidores,
como Coca-Cola, Adidas (da qual Dassler era empregado),
Visa, Philips, Kodak, Panasonic, Time-Life e outras de
porte similar, eram de longo prazo, e foram se desvalorizando
com o tempo. A Fifa, o futebol como um todo, teria perdido
muito dinheiro, mas não os agentes destes negócios.
Havelange, por exemplo, nunca ocupou cargo remunerado
na Fifa, mas sempre teve direito ao custeio de suas despesas,
valores estapafúrdios que incluíram sempre
relógios suíços e até automóveis
para serem distribuídos como presentes para apoiadores.
Sem falar a sociedade com Dassler e Nally, que lhe teria
permitido, por fora, pôr a mão em cifras
da ordem de milhões, já que os contratos
batem a casa dos bilhões.
Os esquemas de corrupção na Fifa, de acordo
com Yallop, estendem seus braços ao Brasil quando
João Havelange decide patrocinar a candidatura
de seu genro Ricardo Teixeira, um obscuro advogado dono
de uma pequena fazenda, ao cargo maior na administração
do futebol brasileiro, a CBF. Qualquer amante do esporte
conhece os métodos em vigor desde então.
Quando Edson Arantes do Nascimento, o maior atleta do
século, o tricampeão Pelé, à
frente da Secretaria Nacional de Esportes, com status
de ministro, decidiu enfrentar a situação
e propor uma lei que moralizasse o futebol brasileiro,
tornou-se inimigo número 1 de Ricardo Teixeira,
João Havelange e seus sócios. Foi excluído
do sorteio das finais das copas do mundo de 94 e 98, em
represália à proposta de legislação
que punha fim ao sistema de propriedade do passe dos jogadores
(espécie de escravidão, ainda que bem remunerada)
e que obriga os clubes a se tornarem similares a empresas,
com obrigatoriedade de prestação de contas,
administração profissional, pagamento de
impostos, etc.
Teixeira e Havelange desencadearam uma campanha de desmoralização
de Pelé em todo o mundo. Havelange afirmou para
o autor do livro que Pelé devia muito a ele, inclusive
sua escalação na copa de 58, e que ele havia
sido um pai para o craque. Pelé não nega
que tenha havido relação tão íntima,
e confirma que ajudou a eleger Havelange para a Fifa,
em 74, quando viajou com ele para os quatro cantos do
mundo, se exibindo em favor do ‘‘pai’’,
pedindo votos, acenando com o apoio dos brasileiros ao
crescimento do futebol em terras distantes, através
de intercâmbios, cursos e treinamentos. Só
que Pelé hoje percebe o esquema em que se transformou
o negócio futebol, em que jogadores e técnicos
se preocupam mais com as bases dos contratos do que com
as táticas para enfrentar adversários no
gramado, em que a violência ainda não foi
coibida, em que craques como ele, Tostão, Reinaldo
e tantos outros foram e são vítimas da falta
de talento, do ‘‘futebol de resultados’’.
Pressões
O que teria acontecido ao Brasil na final da Copa do
Mundo da França, em 98, quando Ronaldinho foi escalado
sem condições de saúde e a seleção
não mostrou seu futebol, deixando-se derrotar pelos
franceses sem esboçar reação? Embora
aborde este fato recente – e mais uma vez escandaloso
– no epílogo de seu livro, o jornalista David
Yallop também não tem a resposta. Todo mundo
sabe que a seleção e Ronaldinho mantinham
contrato com a Nike, todo mundo viu pela TV Ricardo Teixeira
assustado com a possibilidade de Ronaldinho não
ser escalado no jogo final, todo mundo viu o triste futebol
apresentado pelos brasileiros, todo mundo (inclusive Yallop)
imagina as pressões sofridas pelo craque, não
apenas da parte de seu patrocinador, como de toda a imprensa
e da torcida mundial.
O jornalista passa o final do livro narrando as armações
de João Havelange e Sepp Blatter, então
secretário geral da Fifa, para a eleição
deste, sucessor e continuador do primeiro. As conseqüências
já se fazem sentir: Blatter fala em transformar
a copa do mundo em evento bienal, em manobra visivelmente
favorável ao business, não ao jogo. Com
a medida, ganham organizadores, patrocinadores, empresários
e intermediários de negociações em
torno do esporte, e perdem jogadores, clubes, torcedores.
Nada a surpreender para um esquema que considera estes
fatores meros detalhes do Futebol S/A.
O processo eleitoral que colocou Sepp Blatter no comando
da Fifa depois de 24 anos de era Havelange não
diferiu em nada dos anteriores. Os escândalos se
sucedem, no Brasil e em toda a indústria do esporte,
pelo mundo afora. O idealismo que cercava os precursores,
como Jules Rimet, que instituiu a Fifa e pregava a união
entre os povos através do esporte, virou coisa
do passado, imagem amarelada num livro de recordações
dos saudosistas. Os jogadores, mesmo, estrelas maiores
do esporte, hoje (e não é de hoje) só
pensam em ganhar muito dinheiro e virarem personalidades
do mundo da mídia, terminando seus dias como poderosos
empresários ou artistas de TV. As carreiras são
cada dia mais curtas, por causa da violência, dos
calendários massacrantes, que prevêem infindáveis
torneios caça-níqueis para compensar campeonatos
mal-estruturados, não-lucrativos, que atendem aos
interesses políticos, aos interesses das redes
de TV, e não têm credibilidade junto ao torcedor.
Em ‘‘Como eles roubaram o jogo’’,
David Yallop conversou não apenas com os acusados
de terem sido protagonistas no processo de degradação
de uma atividade que tanta paixão envolve, mas
também com apaixonados, como um homem que mantém
uma escolinha de futebol gratuita num parque público
do Rio de Janeiro e teve seu pedido de bolas de treinamento
negado pela CBF, que alegou não ter verbas para
este tipo de apoio. Conversou longamente com Pelé,
maior jogador de todos os tempos, um homem íntegro,
que se fez por seus talentos e esforços. Com jogadores,
deputados, jornalistas, cartolas, pessoas ligadas ao esporte,
que tinham algo a esconder ou que lutam pela transparência
que permita revelar o mar de lama sobre o qual se assentam
nossas ilusões. Concluiu que, em meio a tanta podridão,
ainda é possível moralizar estruturas e
instituições para que flua e se mostre a
grande competência que o Brasil possui na arte do
futebol. Pode parecer um sonho, mas é desta paixão
que sobrevive o esporte.
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