Matérias jornalísticas
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Um autor singular
Clara Arreguy, 07/12/02
Estado de Minas

Lançamento de “A Marca Humana” confirma a posição de Philip Roth
como um dos escritores mais
importantes da atualidade


A chegada às livrarias do novo romance do escritor norte-americano Philip Roth, A Marca Humana, pode ser saudada como uma das melhores notícias do ano na área da literatura. Não é à toa que, nas últimas temporadas, sempre que se especula sobre o Nobel de Literatura, o nome de Philip Roth surge como cotação forte. Ao lado de escritores como José Saramago, García Márquez (ambos já laureados) e Vargas Llosa, ele tem construído uma obra de consistência indiscutível, que sabe aliar com maestria conteúdos profundos e exímia construção formal.

Em A Marca Humana não é diferente. Na mesma linha de seus romances mais recentes, sem porém se caracterizar como “trilogia”, como vem sem divulgado erroneamente, Roth mergulha em situações complexas, personagens ambíguos e sedutores, que permitem uma reflexão acurada sobre a realidade contemporânea, sobre os Estados Unidos e suas mazelas nos mais diversos aspectos. Ao contrário de Casei com um comunista, seu trabalho anterior, ambientado nos anos do macartismo, desta vez o escritor fotografa poucos meses, na virada de 1998 para 1999, um clima tipicamente de fim de século.

Bill Clinton está sob todos os focos como o presidente sátiro, que seduziu a estagiária para encontros calientes no Salão Oval da Casa Branca. O moralismo campeia, o politicamente correto dá as cartas. Sobre
esse pano de fundo, emerge a crise profissional e pessoal do professor Coleman Silk, de origem judia, 71 anos, acusado de racismo por dois alunos negros. Encurralado pela mesma comunidade universitária onde imperou durante décadas, Silk vê desestruturar-se sua carreira acadêmica; sua mulher morre e sua vida vira de pernas para o ar.

A ambigüidade do personagem principal surge na segunda parte do romance, quando se revela ao leitor o segredo que Coleman Silk guardou durante quase 50 anos e que diz respeito a sua origem racial. A história familiar do professor explica uma série de contradições que vão se desenrolando e que deságuam em outras personagens cativantes, como os pais e irmãos de Coleman e suas primeiras namoradas.

Nos capítulos seguintes outras complexidades se somam à derrocada de Coleman: ele se envolve com uma mulher de 34 anos, faxineira analfabeta sofrida, o que ecoa em novos escândalos, inclusive com os filhos dele; o ex-marido de sua amante, um neurótico da guerra do Vietnã, começa a persegui-los alucinadamente; a atual chefe do departamento da universidade, uma francesa afetada, também não lhe dá trégua.

Quem nos relata tudo isso é o alter ego de Philip Roth, o mesmo escritor Nathan Zuckerman que protagoniza a maioria de seus romances. Agora, em vez de um sátiro preocupado com suas relações dentro de uma família judia-americana, o escritor narrador tornou-se um misantropo impotente desde que teve câncer de próstata e se recolheu num sítio no interior da Nova Inglaterra. Sua recente amizade com Coleman Silk o compele a escrever a história dele, tentando investigar fatos e motivações que provocaram os acontecimentos trágicos que levaram à morte de Coleman e sua namorada.

Em sua investigação sobre a “marca humana”, a crueldade diferencial entre gente e outros animais, Philip Roth alterna dureza e condescendência, impiedade e compaixão, destrinchando o modo de viver e pensar do americano médio, espelho para uma humanidade globalizada na falta de sentido de vida. É tudo tão comovente quanto desesperador. Marcas humanas indeléveis. Em tempo: chama a atenção a boa qualidade da tradução de Paulo Henriques Britto, um dos profissionais mais atuantes e bem sucedidos no mercado atual.

Philip Roth é um escritor singular no panorama internacional. Norte-americano de origem judia, começou a escrever centrando suas tramas em torno da família, dos traumas, do conflito entre neuroses. O sexo e o humor eram fortemente presentes, por exemplo, em seu primeiro livro publicado, Goodbye, Columbus, de 1959, que contém a novela de mesmo nome e outros contos mais curtos, ambientados na infância e juventude do autor, em meio a histórias e piadas sobre judeus.

Sexualidade também deu a tônica a seu primeiro grande sucesso, Complexo de Portnoy, de 1969, em que o filho adolescente viciado em masturbação encarna tanto a transgressão social quanto o confronto com a moralidade familiar. Neste romance, a mãe, judiamente woodyalleniana, é uma das fortes personagens femininas, ora doce ora infantilizada pela falta de perspectivas mais adultas. Mulher forte, mesmo, havia sido a Lucy do romance de 1966, When she was good, até hoje sem tradução no Brasil. Má, implacável com os pais, com o marido e o filho, ela antecipava personagens que Roth viria a reeditar, por exemplo, na mãe e na filha de Casei com um comunista.

Com o passar dos anos, Philip Roth evoluiu sua literatura no rumo de radicalizar cada aspecto. Na questão referente aos judeus, por exemplo, nunca assumiu uma posição que não deixasse irada a comunidade, principalmente aquela vinda da Europa antes e depois da Segunda Guerra e do nazismo. Da boca de seus personagens vem sempre o questionamento a um etos judeu que, em muitos casos, os leva a renegar a cultura e a religião dos antepassados, engajando-se num esforço para se tornar integralmente “americanos comuns” – nada mais do que faz, em outra escala, Coleman Silk em A Marca Humana.

Em Operação Shylock, de 1993, Philip Roth vai encarar de frente a questão, quando seu alter ego Nathan Zuckerman vai a Israel e, entre peripécias e reflexões, confronta, além de questões políticas e históricas do país e do povo, um duplo seu. Afora este romance, seus personagens principais são sempre judeus, irmãos de amigos, amigos de irmãos, figuras que circularam na mesma cidade pequena onde foram criados Roth/Zuckerman, seu pai, sua mãe e seu irmão, e de lá saíram para ganhar o mundo, via Nova York.

Se a mãe foi o forte de Complexo de Portnoy, o pai vai ser o personagem de um dos relatos mais pungentes do escritor, Patrimônio – Uma história real, de 1991, que, como o nome diz, não é uma ficção, mas que narra, sem pudores, a doença e morte do pai de Roth. A crueza com que ele descreve a pequenez humana diante da dor e da perda é superior até ao romance que havia escrito antes, em 1986, O Avesso da Vida, narrativa sobre uma dor física que o protagonista sofria e que procurou tratar de todas as formas possíveis. Em Patrimônio, ao desnudar o sofrimento seu e de seu pai à beira da morte, Roth escancara o ser humano e seu legado, numa conclusão de poucas esperanças.

Sexo, câncer, morte são temas recorrentes na obra de Roth. Em O Teatro de Sabbath, de 1995, eles comparecem com força total, na história de um titereiro que leva a vida entre aventuras sexuais e acertos de conta com o passado, com a impossibilidade do amor e o desencanto com a finitude. Em Pastoral Americana, de 1997, novos personagens fascinantes – um empresário bem sucedido, sua mulher ex-miss e sua filha-problema – detonam uma amarga reflexão sobre a desagregação familiar e social, temperada por câncer e ecos do passado sem perspectiva de futuro. Casei com um comunista, de 1998, gira em torno de dois irmãos, novamente construídos com maestria por Philip Roth, Murray e Ira Ringold, um professor e um ator. O último, comunista, vai ser vítima da delação de sua mulher e da filha dela, em plenos anos de perseguição macartista.

A trajetória de personagens ao mesmo tempo sedutores e ambíguos, mas sempre profundos, ampara o olhar de Roth sobre a complexidade do mundo contemporâneo, implacável na desconstrução de verdades antes tidas como intocáveis. A América, a família, a política, a escola, o homem, antes íntegros e cheios de futuro, Roth os revela frágeis, desconsolados, marcados pela inviabilidade. Marcas humanas, sem dúvida.

A marca humana
De Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto
Companhia das Letras, 456 páginas, R$ 43


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