Matérias jornalísticas
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Gol de letra
Clara Arreguy e João Paulo, 02/08/00
Estado de Minas

Safra de livros sobre o futebol
brasileiro analisa o esporte através
da história e da sociologia


Poucos assuntos gastam tanta tinta e papel como o futebol. Mas quase sempre o esporte ganha o tratamento passageiro da notícia de jornal. O futebol gerou ainda crônicas de qualidade literária que saíram do tratamento ligeiro do dia-a-dia para ganhar as antologias. Textos de Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Armando Nogueira, João Saldanha, Luis Fernando Veríssimo e Tostão estão entre as páginas mais marcantes da prosa nacional. Mesmo sendo o ‘‘mais importante dos assuntos sem importância’’, a paixão nacional ainda não conquistou a academia. Os livros sobre futebol com maior fôlego e reflexão são, ainda hoje, poucos. Desde que Mário Filho (irmão de Nelson Rodrigues), escreveu no final dos anos 40 um dos clássicos da sociologia do esporte, ‘‘O Negro no Futebol Brasileiro’’, o futebol não ganhou a mesma relevância de outros temas autenticamente nacionais, como o carnaval, por exemplo. Roberto Da Matta, antropólogo atento ao jeito brasileiro de ser, escreveu em ‘Esporte na sociedade: um ensaio sobre o futebol brasileiro’’, que a derrota da seleção brasileira em 1950 foi talvez ‘‘a maior tragédia da história contemporânea do Brasil’’. E é sobre esta tragédia e outros dramas que quatro livros recentes se debruçam sobre o tema. Em dois deles a derrota mítica do Brasil frente ao Uruguai está presente (‘‘Dossiê 50’’, de Geneton Moraes Neto, e ‘‘Maracanã – Meio século de paixão’’, de João Máximo) e outros dois (‘‘No País do Futebol’’, de Luiz Henrique de Toledo, e ‘‘Os Três Tempos do Jogo’’, de Sérgio Montero Souto) tentam, com o auxílio da sociologia e da antropologia, compreender o que sustenta o amor do brasileiro pela mais inconstante das paixões.


Maracanã – Meio século de paixão

Contar a história dos 50 anos da Copa de 50 implicaria necessariamente contar também a história do Maracanã, o palco da decisão fatídica, construído especialmente para abrigar o único mundial sediado pelo Brasil, durante décadas o maior estádio coberto do mundo, e até hoje o mais portentoso, charmoso e mítico teatro onde as grandes estrelas do esporte têm brilhado. Para levantar esta trajetória, a editora DBA contou com o jornalista e escritor João Máximo, um expoente do jornalismo esportivo nacional, e com uma produção luxuosa, que inclui formato grande, projeto gráfico ousado e muitas, muitas fotos históricas.

A partir do número 11, considerado cabalístico pelo autor, por causa da escalação dos times, o livro ‘‘Maracanã – Meio século de paixão” divide-se em 11 capítulos, cada qual como seus 11 tópicos. Começa com um prefácio singular assinado por Zizinho, um dos craques presentes na trágica tarde da derrota para o Uruguai, em 1950. O primeiro capítulo traz os motivos que levaram o autor a contar a história do estádio. Em seguida vêm os 11 passos de uma longa caminhada, com os casos que envolveram a construção do Maracanã, os cartolas – inclusive personagens históricos, como Mário Filho, o irmão de Nelson Rodrigues, jornalista, que veio a dar nome ao lugar. Esta primeira parte se encerra com os 11 minutos que calaram o Brasil, exatamente aqueles que separaram o gol de Ghiggia do apito final de Mr. George Reader.

Daí em diante a história contada por João Máximo contém mais alegrias que tristezas, afinal, se aquela decisão contra o Uruguai selou nosso sonho, não deixou de anteceder momentos esperançosos para o povo brasileiro e o maior crescimento que a arte do futebol viria a viver. Nos capítulos que se seguem, o jornalista enumera 11 momentos para não esquecer: a despedida de Pelé, a conquista da Copa Rio pelo Palmeiras, a homenagem a Friedenreich, Leônidas e Ademir Menezes, a inauguração dos refletores, a visita do clube húngaro Honved, um Fla-Flu, Santos x Benfica com show de Pelé e Coutinho, show de Tostão nas eliminatórias de 69, Romário detonando os uruguaios nas eliminatórias de 93, o jogo-homenagem a Garrincha, a visita de Bob Kennedy a Pelé nos vestiários.

Na hora de enumerar os 11 craques daqui, João Máximo não dá conta de escalar um só time e abre dois capítulos. No primeiro, Castilho, Djalma Santos, Bellini e Nilton Santos; Zito e Danilo; Garrincha, Zizinho, Ademir Menezes, Pelé e Tostão. No segundo, Barbosa, Carlos Alberto, Mauro e Bauer; Didi e Júnior; Julinho, Gerson, Roberto Dinamite, Zico e Rivelino. Na convocação dos maiores craques estrangeiros que jogaram no Maracanã, ausente apenas Cruyff, que nunca pisou aquele gramado. Ficaram então o paraguaio García, Beckenbauer, Bobby Moore, Andrade, Platini, Obdúlio Varella, Di Stéfano, Ghiggia, Maradona, Puskas e Schiaffino.

Vêm os 11 mais belos – ou mais importantes – gols já marcados no estádio, incluindo entre outros aquele decisivo de Ghiggia, o milésimo de Pelé, um de Garrincha, e ainda as formas de comemoração, os frangos, as defesas espetaculares. Onze historinhas de bastidor recuperam casos engraçados, frases célebres, aquele humor que cerca o futebol e seus protagonistas, sempre espontâneos em definir sentimentos e situações. Onze lances emocionantes de arquibancada, as galeras dos principais clubes cariocas, os maiores públicos presentes ao estádio (o recorde oficial, 183. 341 pessoas, apesar das suposições de que a decisão da Copa de 50 tenha tido mais de 200 mil presentes, ainda pertence à partida contra o Paraguai nas eliminatórias de 69, Brasil 1 x 0, gol de Pelé), o dia em que um alambrado caiu matando dois torcedores, a invasão da arquibancada pela Fiel corintiana. E, para finalizar, 11 loas ao Maraca, tecidas por jornalistas e compositores brasileiros.


Notícias de uma tarde estúpida

Haja psicanálise e filosofia para explicar o que aconteceu no dia 16 de julho de 1950. O Brasil tinha o melhor time, a melhor campanha, jogava em casa (Maracanã com 200 mil almas) e precisava do empate. Perdeu. Aí entram a psicanálise e a filosofia: a tragédia amadureceu o País; o Brasil perdeu a inocência e se tornou adulto; a derrota trouxe a visão solidária da perda de uma oportunidade histórica; a vitória do Uruguai teve a força de um mito fabuloso, uma narrativa excepcional.

O jornalista Geneton Moraes Neto resolveu, no cinqüentenário da derrota, contar esta história a partir de seus próprios protagonistas, ou antiheróis. O livro ‘‘Dossiê 50 – Os onze jogadores revelam segredos da maior tragédia do futebol brasileiro’’ (Objetiva, 162 páginas) é uma reportagem que recupera o travo amargo da derrota a partir de depoimentos dos 11 jogadores e do técnico Flávio Costa. Mesmo depois de tanto tempo, estes personagens carregam explicações e histórias que não calam.

Alguns fatos se tornaram míticos: o racismo que colocou a responsabilidade da derrota nas costas do goleiro Barbosa e dos zagueiros Bigode e Juvenal (os únicos negros da seleção de 50); o tapa que Obdúlio Varela teria dado em Bigode; a recomendação do técnico Flávio Costa de não jogar duro; a vitória ‘‘no grito’’ do capitão do Uruguai; o ônibus que teria quebrado na ida para o estádio, obrigando os jogadores a se cansarem empurrando o veículo; o clima de já ganhou; a mudança de concentração na véspera do jogo.

Os depoimentos, um a um, retomam estes traumas para desmentilos. Mas não há consenso, os jogadores misturam fatos com memórias cheias de mágoa pelo esquecimento e falta de reconhecimento da torcida. Barbosa, o mais crucificado de todos (ele morreu em abril deste ano) nunca superou a ‘‘tarde estúpida’’ (a expressão é de David Nasser, uma crônica publicada no dia seguinte à derrota). Morreu triste e sem ter nova chance na seleção (apenas Bauer disputaria a Copa de 54).

A recomendação do técnico Flávio Costa para jogar com lealdade não foi interpretada por nenhum atleta como uma incitação ao jogo mole. Para os jogadores, foram os fatos extra-campo os principais responsáveis pela tragédia. Da concentração tranqüila no Joá foram transferidos para a barulhenta São Januário. Em ano de eleição, os candidatos passaram a noite que antecedeu o jogo decisivo fazendo discursos e posando para fotos ao lado dos ‘‘campeões do mundo’’, como foram batizados antes da hora. A vitória era tão certa que eles receberam prêmios antes do jogo (nada que se compare com o padrão multimilionário atual – lustres de cristal, lotes, televisores, permanentes de cinema). Com a derrota muitos tiveram que devolver os prêmios. Na conclusão, Geneton Moraes Neto dá a fórmula da derrota: C 9 H 13 O 3 N. O que faltou foi adrenalina pura. Em conseqüência disso, a resposta: o silêncio sepulcral que envolveu o Maracanã depois do gol de Ghiggia.
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