Bom para ler e reler
Clara Arreguy, 20/12/05
Correio Braziliense
Literatura 2005 / Balanço
da
produção literária no Brasil e no
mundo mostra o vigor de grandes
nomes e a oportunidade das reedições
Foi um ano bom para a literatura. Bom para quem gosta
de ler, ótimo para os fãs de best-sellers,
melhor ainda para quem admira escritores de alto nível.
Basta lembrar que alguns dos maiores autores em atividade
lançaram trabalhos, clássicos foram reeditados
na íntegra, tradutores escolheram verter o idioma
original, fosse russo ou árabe. Os prêmios,
que se tornaram tradição, valorizaram o
engajamento, como comprova o reconhecimento do Nobel ao
dramaturgo inglês Harold Pinter. O Correio Braziliense
levantou alguns dos destaques do ano.
Em Brasília
A professora e crítica literária Ligia Cademartori
destaca a qualidade dos seminários, palestras e
debates durante a Feira do Livro. O desempenho das editoras
locais pode ser ilustrado pela edição de
títulos de alto nível, como a História
do futuro, do padre Antônio Vieira, pela UnB. Ligia
cita o lançamento, pela Thesaurus, de Contos de
Tenetz, de Yordan Raditchkov, com tradução
de Anderson Braga Horta e Rumen Stoyanov. E ressalta a
movimentação provocada pelas livrarias,
com a expansão de duas pequenas mas boas iniciativas:
a Esquina da Palavra, que prosseguiu com as publicações
iniciadas em 2003; e o Café com Letras, que passou
a oferecer ao público da Academia de Tênis
um espaço com livros clássicos e lançamentos.
Principais prêmios
Nélida Piñon conquistou importante premiação
brasileira e uma internacional. Com seu romance Vozes
do deserto (Record), ganhou no Brasil o Jabuti de ficção
e, na Espanha, o Príncipe de Astúrias. O
mesmo Jabuti, só que em não-ficção,
foi para Francisco Madia, por 50 mandamentos do marketing
(M. Books). Outra grande dama da literatura nacional,
Lygia Fagundes Telles, foi laureada com o Camões.
O Nobel, desta vez, foi para um inglês, Harold Pinter,
por sua obra dramatúrgica de alcance político
e social. O Prêmio Portugal Telecom, que aos poucos
se firma como jovem tradição, foi para o
gaúcho Amilcar Bettega Barbosa, pelo volume de
contos Os lados do círculo (Companhia das Le-tras).
E o Nestlé, hoje com amplitude reduzida, premiou
o mineiro Bartolomeu Campos Queirós.
Estrelas vivas
O português José Saramago tem produção
intensa e, neste ano, não foi diferente. Seu romance
As intermitências da morte, lançado no Brasil
antes da Europa, deu o que falar com sua greve da morte.
Polêmica não faltou a outro grande, Philip
Roth, cujo Complô contra a América chegou
ao Brasil. A idéia de mostrar os Estados Unidos
governados por um presidente pró-nazista sugeriu
algo de Bush na metáfora. Ele negou. De John Updike
chegou Busca meu rosto, história de uma pintora.
Ian McEwan lançou Sábado, sobre um tumultuado
dia na vida de um neurocirurgião. E Kazuo Ishiguro
escreveu sobre um orfanato de clones em Não me
abandone jamais. Todos saíram pela Companhia das
Letras.
Best-sellers
Depois de O código Da Vinci, em 2004, o inglês
Dan Brown teve mais três best-sellers nas listas:
Anjos e demônios, Fortaleza digital e Ponto de impacto,
todos pela Sextante. Na esteira do tema, uma enxurrada
de livros sobre o código, “a verdadeira história”,
“decifrando”, “saiba mais” etc.
inundou as livrarias. Dois arrasa-quarteirões pontificaram:
a sexta aventura do bruxinho, em Harry Potter e o enigma
do príncipe, de J.K. Rowling; e O Zahir, nova investida
de Paulo Coelho, que teve lançamento mundial simultâneo
em diversos países e confirmou a escrita do ex-parceiro
de Raul Seixas: sucesso de público, muxoxos da
crítica. Os dois saíram pela Rocco.
Biografias e anos 80
O ano em que biografias de personagens importantes da
cultura nacional estiveram em foco – casos das cantoras
Cássia Eller, por Eduardo Belo e Ana Cláudia
Landi, pela Planeta, e Carmem Miranda, de Ruy Castro (Companhia
das Letras), e do escritor Carlinhos Oliveira, biografado
cinco vezes, em O homem na varanda do Antonio’s,
Diário selvagem, Flanando em Paris (todos pela
Civilização Brasileira), O Rio é
assim, pela Agir, e O último avião para
Vitória, pela Contexto, foi também de lembrar
a década de 80, que rendeu memórias, estudos,
almanaques e até um jogo sobre o tema.
Instant books
Outra tendência foram os livros instantâneos,
lançados por várias editoras, em especial
a Geração Editorial, em torno de fatos recentes
ligados à crise ética, ao mensalão
e seus personagens. O leitor pôde encontrar nas
livrarias análises dos principais acontecimentos,
mais detidas, como a cobertura dos jornais não
comporta.
Feiras e salões
Os eventos nacionais de livros e literatura comprovam
que, cada vez mais, agradam ao público consumidor
– ainda que nem sempre o estudioso saia satisfeito
com o nível dos eventos paralelos e que o livreiro
nem sempre venda o tanto que planejou. Assim como a Feira
do Livro de Brasília, a Feira Literária
Internacional de Paraty (RJ) não é unanimidade
entre especialistas, mas em geral satisfaz o leitor. Na
mesma linha, que agrega o charme dos escritores famosos
ao gosto do público pela cidade e pelos livros,
Ouro Preto (MG) lançou neste ano o seu Fórum
das Letras. Rio e São Paulo mantiveram suas homônimas
Primaveras dos Livros, voltadas para pequenas editoras.
Coleções e antologias
Não é de hoje que as editoras investem em
coleções e séries de sucesso. A Coleção
Negra (da Record) e a Série Policial, da Companhia
das Letras, sucesso ano após ano, levam outras
editoras, como A Girafa, a investir no ramo, e com bom
resultado. Os policiais, por sinal, vão bem. Destaques
no ano foram os novos romances de Marçal Aquino,
Eu receberia as piores notícias de seus lindos
lábios, e Luiz Alfredo Garcia-Roza, Berenice procura
(ambos pela Companhia das Letras). Outra coleção
interessante reeditada pela Ediouro foi a que contempla
os melhores contos de vários países, com
seleção de Vinicius de Moraes e Rubem Braga.
A mesma editora investe nas antologias organizadas por
Flávio Moreira da Costa com seleção
de contos. Outra boa novidade foi a chegada do selo Companhia
de Bolso, que edita clássicos a preços baixos.
Obras completas
O centenário do poeta gaúcho Mário
Quintana só será celebrado no ano que vem,
mas suas obras completas já estão disponíveis
para o leitor, numa edição daquelas de luxo
da Nova Aguilar, com capa dura e papel bíblia.
Outros nomes contemplados pela mesma editora foram o escritor
baiano João Ubaldo Ribeiro e o maranhense Aluísio
Azevedo.
Tempo de celebrar
Entre as efemérides celebradas neste ano, e que
permitiram importantes reflexões, podem ser destacados
o centenário de nascimento de Érico Veríssimo,
lembrado em exposições, feiras de livros
e diversos eventos. O filósofo francês Jean-Paul
Sartre também teve seu centenário festejado
em reedições e traduções de
obras e num seminário no CCBB de Brasília.
Os 400 anos da edição de Dom Quixote de
la Mancha, de Miguel de Cervantes, propiciaram eventos
em várias linguagens, como artes cênicas
e plásticas, além de debates. Os 200 anos
de Hans Christian Andersen renderam homenagens em forma
de música, teatro, ópera e estudos.
_____________________________________________________________________